O que Nietzsche faria para curar um coração partido?

21 de agosto de 2018 | por Filipe Isensee

Nietzsche é pop. Ele e seus pensamentos, ambos vivíssimos mesmo após a morte, aos 55 anos, em agosto de 1900. A intensa produção cultural em torno do filósofo dá a medida desse interesse, renovado e compartilhado nas artes e redes. Cá estamos, quase doze décadas depois, com Nietzsche na cabeça, na cabeceira, na estampa da camisa, nas telas do celular e do computador. A sobrevivência foi imortalizada em máximas como “Deus está morto” e “Sem música, a vida seria um erro”, mas elas são mínimas diante de uma obra mais robusta e complexa. O que Nietzsche faria? traz a filosofia ao cotidiano, numa apropriação bem-humorada, que ressalta a força de ideias nascidas de reflexões profundas, algumas jamais encerradas, mas capazes de iluminar nossas questões, até mesmo as mais triviais:

Minha amiga está sendo traída pelo namorado. Devo contar?

Estou com quase 50 anos! Devo correr atrás do meu sonho de ser um astro de rock?

Faz sentido acreditar em homeopatia?

Shakespeare é melhor que Os Simpsons?

Por que os políticos nunca dão uma resposta direta?

Apesar do título e do rosto desenhado na capa, com o volumoso e icônico bigode, o livro não se restringe a Nietzsche. Mais de 80 filósofos foram resgatados nas páginas escritas por Marcus Weeks. A seleção inclui Platão, Sócrates, Kant, Marx e Simone de Beauvoir. Encare-os como conselheiros. A proposta é que eles ofereçam algum tipo de orientação para desafios práticos, do desenlace amoroso às indecisões existenciais. Senhora da indagação, a filosofia enfileira perguntas à caça de respostas, mas é esse movimento de interrogação em interrogação que dá sentido à jornada. Portanto, não espere encontrar um único caminho ou linha de pensamento, mas, sim, uma oportuna e saudável encruzilhada.

“Talvez você descubra que é possível curtir diferentes pontos de vista sem necessariamente concordar com as ideias ou, ao contrário, apreciar os argumentos persuasivos dos filósofos sem se encantar com a personalidade deles”, confirma Weeks.

O livro é dividido em cinco capítulos, com temas que abastecem nosso dia a dia: relacionamentos, trabalho, estilo de vida, lazer e política. Cada tópico traz dúvidas (elaboradas em forma de perguntas) ou opiniões específicas, destrinchadas a partir dos argumentos dos filósofos. Mesmo que algumas questões pareçam não lhe dizer respeito agora, elas trazem a chance de conhecer melhor as ideias de pensadores distintos. Além disso, mostram que a filosofia é uma inquietação necessária e, mais que isso, está mais perto do que imaginamos.

Abaixo, confira exemplos das conversas costuradas entre os pensadores.

 

Como curar um coração partido?

Então, o amor acabou. Ou, melhor, o amor existe, mas só para você. Com os dois pés no clube dos corações partidos, a vida ao redor parece não fazer sentido. Diante da situação, o autor acredita em três frases possíveis vindas dos grandes pensadores: “Dê a volta por cima e siga em frente”, “Aguente estoicamente o sofrimento” e “Isso o tornará uma pessoa melhor”.

A primeira se encaixa na expressão de Simone de Beauvoir, expoente do movimento feminista. “Ela faria você pensar sobre como deixou as coisas chegarem a esse ponto. Você transformou um relacionamento romântico na principal fonte de sua vida? Existem outras coisas na vida, igualmente importantes, e sempre se pode buscá-las”, avalia Weeks. Buda, por sua vez, se compadeceria do sofrimento, mas lembraria que a dor é resultado dos desejos que não podem ser satisfeitos. A lição pode ser resumida da seguinte maneira: “Se quer acabar com o sofrimento, deve parar de se apegar a coisas e pessoas”. Simples assim, né?

O conselho mais otimista viria do tão falado Friedrich Nietzsche. A morte prematura do pai e a rejeição da amada fizeram com que ele conhecesse muito bem esse tipo de dor.  A angústia era uma possibilidade de mudança e de afirmação da vida, percepção cristalizada na frase “O que não me destrói me fortalece”. Para o pensador, “se o abordamos com atitude certa, cada período de sofrimento servirá para nos tornar mais fortes,  mais capazes de viver a vida que queremos”.

Pode até ser, mas não leve em conta a biografia de Nietzsche. Segundo o livro, ele jamais superou a dor de cotovelo do fim de um relacionamento. Sabe como é, faça o que eu digo, não faça o que eu faço. Qual filósofo escreveu isso mesmo?

 

Com todos os problemas no mundo hoje, como é possível acreditar em Deus?

A questão atravessa a história com manifestações de crença e ceticismo em larga escala. Devido à complexidade do tema, do mistério inerente a ele, o autor recorreu a 12 filósofos para traçar um panorama que envolve a pergunta. Epicuro foi um dos primeiros a se debater sobre a contradição da existência de um Deus onipotente e benevolente num mundo tão repleto de maldades. No livro, o autor resume a lógica de pensamento dele assim: “Será que Deus quer impedir esses males, mas não consegue? Então não pode ser onipotente. Será capaz de impedi-los, mas não quer? Então não é benevolente. E, se realmente é onipotente e onipresente, de onde vem todo esse mal?”.

Boécio, um filósofo cristão, defendia que Deus usou seu poder para conceder o livre-arbítrio aos seres humanos. “E por não sermos perfeitos, vivemos fazendo coisas ruins”, explica Weeks. Platão, Aristóteles e Santo Anselmo também estão entre os mais crentes. O primeiro, por exemplo, entendia que a perfeição do mundo, a maneira como tudo é adequado ao seu ambiente, não poderia ter ocorrido por uma sucessão aleatória de eventos. É Deus quem estaria no comando, como um grande artesão.

Não existe consenso aqui. Alguns pensadores estacionaram na dúvida, quer dizer na confiança de que não há realmente uma prova de existência ou inexistência. Contudo, a ideia de que Deus é uma invenção humana também mora na filosofia. Como já destacado acima, Nietzsche sentenciou a morte de Deus. Isso posto, “seríamos idiotas se continuássemos baseando nossa moralidade, nossas ideias do que é bom, nesse conceito”.

 

Meu cantor favorito foi condenado por violência doméstica. Devo deletar as músicas dele da minha playlist?

Nos últimos meses, o pior de muitos ídolos foi exposto, com acusações de violência física e moral que ainda causam assombro, especialmente entre os fãs. Felizmente, com uma rede de amparo fortalecida, as vítimas têm menos medo de enfrentar os agressores. Mas como o público deve agir diante dos podres de artistas até então plenamente admirados? A questão, embora espelhe parte do noticiário atual, é antiga.

Weeks explica que esse dilema contém o julgamento estético (será que o mau comportamento dele deveria afetar sua atitude em relação às músicas que ele compõe?) e o problema moral (será que você está sendo conivente com os crimes dele ao continuar curtindo as canções?). O segundo aspecto seria o mais proveitoso para Immanuel Kant, que certamente faria você repensar qualquer tipo de ligação afetiva com o tal músico/agressor. “No mínimo, você não deveria mais comprar nenhuma música dele e talvez devesse cogitar um boicote total”, supõe o autor a reação do filósofo, conhecido por seu inflexível ponto de vista ético.

Schopenhauer, por sua vez, poderia usar argumentos para dissociar o comportamento do artista da qualidade da obra. Afinal, todos têm defeitos. Seguindo o raciocínio deste, o melhor é pensar que “o comportamento condenável do seu cantor favorito não anula o que ele faz no palco ou no estúdio – mas se fosse descoberto usando playback ou plagiando a canção do outro, estas, sim, seriam razões para você repensar sua atitude em relação à obra dele”.

Com qual posicionamento você se identifica?

 

 

TAGS:

Conteúdo Relacionado

Seis conselhos importantes de Rhonda Byrne em “O poder”