“Bons pais corrigem erros, pais brilhantes ensinam a pensar”: essa e outras lições de Augusto Cury

7 de agosto de 2018 | por Filipe Isensee

“Educar é ter esperança no futuro, mesmo que o presente nos decepcione. É semear com sabedoria e colher com paciência. É ser um garimpeiro que procura os tesouros do coração”.

 

Aos olhos de Augusto Cury, o presente que nos cerca é desencantado e o futuro que nos espera, preocupante. Esse ponto de vista está atrelado justamente à dificuldade de exercitamos uma educação transformadora nas escolas e dentro de casa. “Os jovens conhecem cada vez mais o mundo em que estão, mas quase nada sobre o mundo que são”, sintetiza. A potência do que podemos ser (e ainda não somos) é asfixiada a cada dia que tiramos da educação sua força de mudança e de autoconhecimento. Mas, calma, Cury não repousa confortavelmente no pessimismo. Com sensibilidade, ele nos apresenta uma alternativa na qual a tarefa de educar – o maior desafio de todos, ele insiste – é encarada com entusiasmo e seriedade. Pais brilhantes, professores fascinantes exalta essa arte e sua capacidade de nos tornar melhores.

Se, como ele escreve, “educar é ter esperança no futuro”, é certo dizer que perdemos a esperança? Ora, cercados de informações por todos os lados, qualquer conhecimento é supostamente acessado ao toque da tela do celular. Mas o que sabemos sobre nós mesmos, sobre quem nos é mais próximo e íntimo?

Claro, inúmeros erros se repetem com o nobre objetivo de fazer bem ao filho e ao aluno, de torná-los mais preparados para o mundo, mas é necessário se perguntar: está dando certo?

“Pais e professores que são cheios de regras e excessivamente lógicos estão aptos a operar máquinas, mas não a orientar seres humanos. Pais e professores que são especialistas em apontar falhas e criticar erros podem estar habilitados a gerenciar empresas, mas não a formar pensadores”, ele provoca no livro, que ultrapassou a marca de 1,3 milhão de exemplares vendidos.

Psiquiatra, cientista, pesquisador e escritor, Cury descreve pais e filhos que vivem isolados, raramente choram juntos e comentam sobre sonhos, mágoas, alegrias e frustrações. É uma casa de emoções represadas e, definitivamente, não é exceção. A comemoração do Dia dos Pais, no domingo, traz a chance de repensar a maneira como nos relacionamos, como preparamos crianças e jovens para enfrentar as dores e as delícias da vida. Educar, ele sustenta, é penetrar um no mundo do outro.

De olho na data, separamos quatro lições importantes contidas no livro.

 

Bons pais dão presentes, pais brilhantes dão seu próprio ser

O clichê máximo sobre o dinheiro nos diz que ele não compra tudo. Parece ultrapassado, mas a perspectiva, na realidade, é ainda mais urgente. Presentes podem proporcionar alegrias instantâneas – e, sim, elas são legítimas -, mas não substituem a relação de confiança entre pais e filhos. “Muitos pais trabalham para dar o mundo aos filhos, mas se esquecem de abrir o livro da sua vida para eles”, ressalta Cury. Segundo o escritor, é fundamental para o desenvolvimento da personalidade dos filhos que os pais se deixem conhecer.

Esse vínculo define a qualidade da relação. Ou seja, não adianta falar coisas maravilhosas e dar lições se você tem péssimas reações na frente dos filhos. As memórias, boas e ruins, ficam arquivadas. Por isso é tão importante cuidar das experiências em família: “A imagem que seu filho construiu de você não pode mais ser apagada, só reescrita. Construir uma excelente imagem estabelece a riqueza da relação que você terá com seus filhos”.

Portanto, a solução para se desculpar por um erro cometido não é a compra de um presente. É a conversa, o reconhecimento da falha. O filho precisa de seres humanos como pais. Eles vão se aproximar à medida que você abrir espaço. Nessa troca, a capacidade de dialogar e ouvir são estimuladas. “De vez em quando, chame um dos seus filhos sozinho e almoce ou faça programas diferentes com ele. Diga o quanto ele é importante para você. Pergunte como está a vida dele. Fale sobre seu trabalho e seus desafios. Deixe seus filhos participarem da sua vida”, ensina Cury.

 

Bons pais corrigem erros, pais brilhantes ensinam a pensar

A verdadeira educação não acontece nos escombros das críticas exageradas, mas na reconstrução promovida pela reflexão. Essa é uma ideia central para Cury. Aos pais, abrir mão das velhos sermões e broncas é o primeiro passo para mobilizar o filho, plantar nele as sementes que vão fazê-lo progredir. “Educar não é repetir palavras, é criar ideias, é encantar. Os mesmos erros merecem novas atitudes”, propõe o autor.

Além disso, como detentores de personalidades complexas, os filhos merecem mais do que ouvir “façam isso” e “não façam aquilo”. É preciso explicar as causas e estimular o pensamento. Aliado a isso, é essencial surpreendê-los. Não responder a agressividade do filho sendo ainda mais agressivo, por exemplo, é um modo de desestruturar o ciclo de raiva – a ira é quebrada com a reflexão sobre os atos. É bom frisar: não se trata de um gesto isolado, mas de uma pauta de vida, de uma maneira de encarar situações semelhantes.  “Bons pais punem quando filhos fracassam; pais brilhantes os estimulam a fazer de cada lágrima uma oportunidade de crescimento”, arremata. Faça-os pensar.

 

Bons pais conversam, pais brilhantes dialogam como amigos

O diálogo é o melhor caminho para a educação transformadora. Ao longo do livro, o escritor esmiúça diversos ensinamentos, mas todos eles estão condicionados a esse hábito. “Conversar é falar sobre o mundo que nos cerca, dialogar é falar sobre o mundo que somos”, diferencia Cury. Soa simples, mas o verdadeiro diálogo – o ato de trocar experiências – é mais desafiador do que aparenta, especialmente no mundo onde as pessoas camuflam suas reais dores e têm tanto medo do fracasso.

“Quando uma simples torneira está vazando, os pais se preocupam em repará-la. Mas será que eles gastam tempo dialogando com os seus filhos para ajudá-los a reparar a alegria, a segurança ou a sensibilidade que está se dissipando?”, questiona o escritor. Ouvir e ser ouvido, compartilhar sonhos e medos, dialogar, enfim: essa sintonia define se pais e filhos são estranhos que dividem o mesmo teto ou uma família. Muitas atitudes inadequadas dos filhos escondem o apelo por mais carinho e atenção dos pais.  Nesse ruído, a ausência de diálogo está inscrita.

Então, o dever dos pais é buscar momentos de troca. Mas, pense bem, não é tão difícil assim, né? Cozinhem juntos, vejam um filme diferente e conversem sobre ele, façam um passeio ao ar livre. Acima de tudo, descarte a desculpa de que não é amigo do seu filho porque você quer que ele o respeite. “Se há amor, a obediência é espontânea e natural. Não há coisa mais linda, mais poética, do que pais serem grandes amigos dos filhos”, assegura Cury.

 

Bons pais dão oportunidades, pais brilhantes nunca desistem

Pais brilhantes são semeadores de ideias.

Esse é um conceito potente na maneira como Cury enxerga o papel dos pais na educação dos filhos. Apesar das crises, dos vacilos, dos choros, dos vícios, pais não desistem dos filhos. “Devemos ser poetas na batalha da educação. Podemos chorar, mas jamais desanimar. Podemos nos ferir, mas jamais deixar de lutar. Devemos ver o que ninguém vê. Enxergar um tesouro soterrado nas rústicas pedras do coração dos nossos filhos”, ratifica.

Contudo, isso não quer dizer que pais devam aceitar que os filhos assumam posições autoritárias e se comportem como reis chantagistas. Sempre com a paciência como aliada, os  pais precisam deixar claro quais são os pontos a serem negociados e quais são os limites inegociáveis.  Lembra da importância do diálogo em família? A lição é simples: “Se não ouvirem ‘não’ dos pais, os filhos estarão despreparados para ouvir ‘não’ da vida”.

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