A poesia com rapadura de Bráulio Bessa

24 de julho de 2018 | por Filipe Isensee

A poesia de Bráulio Bessa tem o Nordeste como fio de inspiração. A região gigante que nos deu flor e espinho, mar e sertão, onde o Brasil repousa como no tempo da (re)descoberta; a região dos sotaques e quitutes, dos retirantes e sobreviventes, de xote, xaxado e baião, do chão rachado, do clima árido, do colorido de São João.

A partir dessa vivência, que traduz um pouco da realidade e da ficção sobre o Nordeste, ele abre espaço para apresentar outro Nordeste, outro nordestino. As armas são as mesmas do Patativa do Assaré, cearense como Bessa e influência declarada do poeta: sensibilidade e rima, numa construção de palavras sólidas. O resultado está no livro Poesia que transforma. Transforma e extrapola. Afinal, o Nordeste é tudo, menos uma coisa só, já terminada.

Brasileiro que odeia nordestino odeia a si mesmo, porque a região, que é um mundo vasto, é o princípio do país, de sua gente misturada, contraditória e trabalhadora.

Apesar da obviedade, foi para cristalizar o orgulho da terra onde nasceu que Bráulio Bessa foi convidado pela primeira vez para o “Encontro com Fátima Bernardes”, programa da Rede Globo – isso aconteceu após as eleições de 2014, quando mensagens preconceituosas contra nordestinos pipocaram nas redes.

A participação agradou. Outras aparições foram encomendadas, sempre com o Nordeste em pauta, até Bessa estabelecer de vez sua presença na atração. O momento ganhou um dia, às sextas, e um nome, “Poesia com rapadura”. Ele extrapolou o tema. Com empatia e talento, ele fala de tudo, inclusive do Nordeste, por que não?

Como disse o pernambucano João Cabral de Melo Neto, “um galo sozinho não tece uma manhã: ele precisará sempre de outros galos”.

Assim, de grão em grão, ou de galo em galo, ou de rima em rima, a poesia do cearense de Alto Santo, município do interior do estado, foi tecendo sua manhã e ganhou ouvidos atentos a cada dia na TV. No palco, ao vivo, Bessa coloca seu cordel ritmado a serviço do aconchego e do acolhimento. Não poderia ser diferente para alguém que entende a poesia como abraço. E o abraço transforma. Transforma e extrapola. Só assim a voz de um encontra ressonância no coração de outro e, juntos, um e outro tecem a possibilidade de uma vida melhor. Muitos outros vieram desde então.

Os recados recebidos por espectadores-ouvintes-leitores de Bessa dão conta da sintonia. A poesia encontrou fãs famosos e anônimos. Os vídeos com sua participação no “Encontro” foram os mais vistos e compartilhados na plataforma on-line da emissora carioca em 2017. Além disso, 20 mil exemplares do livro foram vendidos antes mesmo do lançamento pela Sextante. É a realização de um sonho para o homem matuto que a acolheu ainda adolescente a poesia como expressão.

“Coloquei na cabeça que queria ser poeta, mas não sabia se tinha o tal dom – coisa que até hoje não entendo muito bem. Eu não sabia se tinha o talento, mas tinha o sentimento, a vontade. Acho que vontade é um dom: eu queria tanto, que Deus decidiu me usar como instrumento para um plano dele. E eu tinha coisas a dizer. Então sentei e comecei a escrever”, recorda no livro.

Poesia que transforma  reúne mais de 30 poemas, alguns inéditos, com a marca do cordel afetuoso que tornou Bráulio Bessa conhecido nacionalmente. Entre poemas, ele revela sua história, a origem dos versos livres e a crença na capacidade de um sentimento bom ecoar no outro e torná-lo melhor. “A poesia me transforma em tantas formas. Quando escrevo deixo de ser eu, me transformo em ninguém para me transformar em todo mundo”, arremata em verso.

A rapadura nunca foi tão doce.

 

Abaixo, você confere “Recomece”, um dos poemas mais famosos de Bessa:

 

Quando a vida bater forte

e a sua alma sangrar,

quando esse mundo pesado

lhe ferir, lhe esmagar…

É hora do recomeço.

Recomece a LUTAR.

 

Quando tudo for escuro

e nada iluminar,

Quando tudo for incerto

e você só duvidar…

É hora do recomeço.

Recomece a ACREDITAR.

 

Quando a estrada for longa

e seu corpo fraquejar.

Quando não houver caminho

nem um lugar pra chegar.

É hora do recomeço.

Recomece a CAMINHAR.

 

Quando o mal for evidente

e o amor se ocultar,

quando o peito for vazio,

quando o abraço faltar…

É hora do recomeço.

Recomece a AMAR.

 

Quando você cair

e ninguém lhe amparar,

quando a força do que é ruim

conseguir lhe derrubar…

É hora do recomeço.

Recomece a LEVANTAR.

 

Quando a falta de esperança

decidir lhe açoitar,

se tudo que for real

for difícil suportar…

É hora do recomeço.

Recomece a SONHAR.

 

É preciso de um final

pra poder recomeçar,

como é preciso cair

pra poder se levantar.

Nem sempre engatar a ré

significa voltar.

 

Remarque aquele encontro,

reconquiste um amor,

reúna quem lhe quer bem,

reconforte um sofredor,

reanime quem tá triste

e reaprenda na dor.

 

Recomece, se refaça,

relembre o que foi bom,

reconstrua cada sonho,

redescubra algum dom,

reaprenda quando errar,

rebole quando dançar,

e se um dia lá na frente,

a vida der uma ré,

Recupere a sua fé

e RECOMECE novamente.

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