“Nunca se relacione com alguém com quem você não possa dividir suas fantasias”

20 de julho de 2018 | por Filipe Isensee

Fred Elboni definitivamente concorda com Vinicius de Moraes: “Quem nunca curtiu uma paixão nunca vai ter nada, não”. A máxima está implícita em boa parte das 50 crônicas de Você e outros pensamentos que provocam arrepio e especialmente instalada numa cujo título é “Quem soube sofrer um dia hoje sabe amar melhor”. Vamos com calma. O livro parte desse lugar-amor, um lugar amplo e desdobrável, por vezes desconfortável, para falar de tesão, sofrimento, carência, sacanagem, carinho e outros substantivos ressignificados na pele quando se tem desejo e conexão envolvidos. Quer que desenhe? Só se for um coraçãozinho.

Como cantou o Poetinha, a vida só se dá para quem se deu. E Elboni – 27 anos, barba, óculos redondo, barriga saliente, sorriso quase sempre no rosto – quer ser um desses rapazes dados.

É o que ele diz. Homem-hétero-sensível? Antes que você grite “É cilada, Bino” – opa, segure o dedinho -, acompanhe os antecedentes do sujeito. Embora nem tenha chegado à terceira década vencida de vida, o escritor já está com os dois pés (e outras coisas mais) metidos nessa história de conversar sobre amor, sexo e relacionamento. Outros cinco livros, o blog e o canal no Youtube com mais de 800 mil inscritos reforçam o interesse.

Apesar do rosto angelical, ele não se vende como santo nem como especialista no assunto, mas como um cara legal, um amigo que, mesmo sem a intenção, acerta no conselho. Será?

“Só depende de você e da liberdade que você dá a si mesmo. Amar, transar ou, com sorte, os dois juntos, sem tantos preconceitos e pré-requisitos, é uma das melhores delícias da vida”, ele escreve em “A química de beijar sorrindo”, uma das crônicas do livro. É um bom começo.

 

Prazer e sentimento

As histórias de Elboni, claro, são abastecidas por detalhes que apresentam seu ponto de vista, numa defesa pela troca profunda nos relacionamentos e pelo prazer mútuo. Mas ele insiste: “Sexo é mais que somente a troca de beijos, fluidos e carícias. Requer, principalmente, intimidade. E, convenhamos, sexo sem intimidade é aperto de mão”.

A vida dele (a sexual, inclusive) pontua as crônicas. Numa delas, ele admite procurar um amor de domingo e não mais os amores loucos de sexta-feira: “Um amor de domingo me soa mais parecido comigo, me faz ser o que eu realmente sou: filme, sexo de ladinho e ar-condicionado bem gelado para poder usar as cobertas”. Em outra, lembra que as mulheres que mais amou tinham peito pequeno. Numa terceira, recorda de uma ex-namorada, Lívia, a quem tentou impressionar com uma margarita. “Tenho tantas lembranças suas”, ele diz.

 

Força feminina

As mulheres são personagens centrais e público alvo de Você e outros pensamentos que provocam arrepio. Também roteirista e publicitário, Elboni se tornou uma espécie de conselheiro amoroso, apesar de eventualmente driblar a alcunha ou, ao menos, tentar esvaziar o peso de certas opiniões e relatos. Afinal, a leveza e o despojamento são marcas dos textos e falas. Acima de tudo, ele se coloca como entusiasta da força e da beleza feminina.

Talvez como resposta às questões compartilhadas por muitas mulheres que o procuram com dúvidas sobre o comportamento masculino, as crônicas endossam a importância de não se perder em jogos amorosos e de não se apagar em função de homem nenhum. O amor próprio é o primeiro passo para se desprender de rótulos e inseguranças na cama e fora dela. “Ame-se como você já amou alguém”, instiga ele, numa mensagem parafraseada do início ao fim do livro.

Diante de um mundo masculino que oprime o feminino, do trabalho ao sexo, essa perspectiva ajuda a encaixotar ideias machistas, infelizmente ainda presentes na cabeça de homens e mulheres por aí.

“Por qual motivo você ficaria com alguém que não tem a mesma liberdade e nem vibra na mesma energia que você?, pergunta Elboni na crônica “Boa de cama” para, em seguida, sentenciar: “Faça um favor a si mesma e nunca se relacione com alguém com quem você não possa dividir todas as suas fantasias”.

Conselho de amigo, hein?

 

Quer outros? Confira abaixo:

A magia do toque

“O toque para mim é uma das coisas mais importantes tanto no sexo quanto no amor. As mãos têm uma magia linda que cria sensações únicas e inexplicáveis. Com elas contamos histórias e transportamos a pessoa que tocamos para dentro do nosso universo, nem que seja por um breve instante, para mostrar o que há no nosso íntimo. O toque é como uma conversa divertida e sincera, que flutua entre risos, e faz com que possamos narrar o que já vivemos e o que já vivemos e o que ainda gostaríamos de viver”.

Coleção de fragilidade

“As tristezas, as carências, os medos e as inseguranças que duram por anos, muitas vezes mascarados, são sempre um buraco que a gente não preencheu com o amor, o cuidado e a atenção necessários. Tapar o buraco com aquele tapete velho que guardamos debaixo da cama, com medo de calcular sua profundidade, é uma solução de gente fraca, medrosa, mas que acha que é forte e que tem domínio dos demônios que nunca abraçou”.

Eu te amo. Mas que tal cada um morar na sua casa?

“Para viver um amor daqueles que a gente idealiza, que envolvem filhos, cachorros, decoração com móveis de jatobá comprada em uma lojinha de praia e uma sogra que passa o fim de semana na sua casa questionando seus hobbies, é preciso disposição. Não é uma decisão de final de semana. Não é algo que a gente faz por obrigação ou pressão. É algo que pede, em conjunto, o consentimento do coração e da razão. Coisa que a essa altura do campeonato eu não tenho. Estou em uma fase de descoberta, de viajar, de ganhar dinheiro, de construir minha carreira, de transar no aeroporto, na escada, na rua, na chuva, na fazenda ou numa casinha de sapê. Essas coisas.”

Minha mulher não é minha

“Livrar-se das regras e dos dogmas é um passo imprescindível para aprender a respeitar as tomadas de decisão do outro, sejam as vontades, os sonhos, os ‘eu te amo’, ou até, e principalmente, o adeus. Se todos soubessem que a liberdade não é algo que precisamos conquistar, mas que nasce conosco, as relações amorosas seriam muito mais fluidas e respeitosas. Relacionar-se com alguém que não entende isso, muitas vezes, é se prender em algo por muito tempo”.

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