O prisioneiro

21 de maio de 2018 | por Editora Sextante

Quando recuperei os sentidos, percebi na mesma hora que havia algo muito errado comigo. Uma luz ofuscante feria meus olhos, mas eu não conseguia piscar. Tentei virá-los, mover os braços e cobrir o rosto com as mãos, mas não consegui fazer nada disso.

Todo o meu corpo estava paralisado, dilacerado por uma dor excruciante e mais gelado do que nunca.

Tentei em vão gritar por socorro. Havia algo em minha boca que fazia a garganta arder e um ruído terrível trovejava em meus ouvidos.

Várias horas se passaram enquanto minha mente rodopiava em desespero. À medida que alguns pensamentos coerentes conseguiam romper a barreira da dor de cabeça, avancei do desespero para o puro pavor.

Onde estou?

O que aconteceu comigo?

Será que morri?

Um misto de dor e medo me fez desmaiar. O que foi bom, porque me proporcionou um pouco de alívio.

Não sei se horas ou dias se passaram até que acordei de novo.

Ainda não conseguia me mexer e meus olhos permaneciam arregalados. A dor tinha diminuído ligeiramente, a luz ainda me incomodava, mas estava mais suportável. Foi então que percebi que o ruído horrível que eu escutava era um tipo de respiração forçada, profunda e pesada… Não era a minha respiração, disso eu tinha certeza.

O fato de o tormento físico ter diminuído um pouquinho abriu as portas para um tipo completamente novo de sofrimento: confusão mental e necessidade de respostas.

Estou mesmo morto?

De quem é essa respiração ruidosa que estou escutando?

O que é isso que está machucando a minha garganta?

Pouco a pouco, as lembranças do que eu pensava ser o dia anterior surgiram como lampejos: a festa, as bebidas, a briga com a Laura, a insistência do Eduardo para que eu experimentasse a droga estúpida que o deixara tão empolgado.

– Pare de beber, por favor! Não vê que assim você vai se matar? – gritou Laura. – É isso que você quer?

– Não quero morrer, só quero fugir.

– Fugir do quê? Você está maluco?

– Sim, estou maluco e você não me entende! Ninguém me entende!

Joguei na boca os dois comprimidos azuis que havia aceitado do Eduardo. Era a última coisa de que me lembrava.

Meu Deus, agora entendi! Eu me matei.

Isso não pode estar acontecendo! O que há de errado comigo? Por que não posso me mexer? Por que não consigo fechar os olhos?

Aquele idiota me envenenou. E agora estou no inferno, pagando pelo que fiz… É pior do que eu imaginava.

Nunca acreditei em vida após a morte, mas naquele momento parecia não haver outra explicação.

Por favor, Senhor! Por favor, me perdoe! Conceda-me outra chance…

O som de uma porta se abrindo interrompeu meu pensamento. Ouvi uma voz feminina.

– Que barulheira faz essa porcaria de aparelho! – reclamou ela.

– É o único que temos. Você sabe como são as coisas aqui – disse um homem.

– É um absurdo só termos um aparelho de ventilação mecânica.

– Pois é. Temos que fazer o possível.

– E o que aconteceu com ele?

– Por que não dá uma olhada você mesma?

Senti um tecido ser puxado do meu rosto e vi uma mulher de uniforme branco me fitando com espanto.

– Ei, ele está acordado!

O homem em pé ao lado dela se inclinou para ver melhor.

– Não, ele já estava assim quando foi trazido. Quando o deixaram no pronto-socorro, disseram que tinha sido um acidente de carro e que ele estava fora de si, mas ainda consciente. Ficava repetindo “Desculpe, Laura” o tempo todo. Depois entrou em coma. Ele tem algo como um rigor mortis; não conseguimos fechar os olhos dele.

– Pobre coitado! Seria melhor ter morrido.

– Melhor para nós, você quer dizer. Agora precisamos manter esse vegetal vivo, usando um leito que poderia salvar outra pessoa. Que desperdício!

– Você acha que ele consegue ver, ouvir ou sentir alguma coisa?

– É claro que não, veja só…

Vi um tubo se aproximar do leito e senti uma pontada de dor no braço.

Isso dói, seu imbecil! Estou vivo… E acordado! Socorro!!!

Tentei gritar em vão.

– Você pode aproveitar para trocar o soro, já que estamos aqui – disse o homem. – Alguém tem que regar os vegetais!

Os dois riram, e uma onda de raiva e desespero tomou conta de mim.

O homem saiu do quarto. A mulher trocou uma garrafa pendurada ao lado da cama e logo foi atrás dele.

Agora eu tinha algumas respostas. Repassei a conversa na cabeça:

Um acidente…

Entrou em coma…

Desculpe, Laura…

Alguém tem que regar os vegetais…

… regar os vegetais…

… os vegetais…

 

 

Nos primeiros dias, consegui examinar o quarto onde eu estava. Isto é, a parte do quarto que cabia no meu limitado campo de visão.

Acima de mim havia uma lâmpada de teto fluorescente que parecia prestes a cair.

À direita da cama havia um suporte para o soro que a enfermeira vinha trocar uma vez ao dia. Mais à direita, notei um tubo contendo uma bomba parecida com um fole preto, que subia e descia no ritmo do que eu agora passara a considerar “minha respiração”.

À minha esquerda havia uma máquina que parecia complexa, com interruptores, luzes e displays. Mais tarde, descobri que ela era responsável por controlar minha respiração, meu ritmo cardíaco e os nutrientes ministrados por um tubo que entrava no meu estômago.

Atrás dessa máquina era possível ver parte de uma janela, que era uma das principais causas do meu tormento: a luz que entrava através dela toda manhã me feria os olhos, me acordava e me trazia de volta àquele inferno.

A dor física não era nada comparada à tortura mental. Desamparo, culpa, raiva, medo e incapacidade de exprimir qualquer uma dessas emoções se combinavam em minha cabeça como numa conspiração para me enlouquecer.

Todo dia eu desejava não acordar, torcia para que a máquina quebrasse e pusesse fim ao meu sofrimento.

O que dava aos médicos o direito de me manter ali? Que razão havia para que me mantivessem vivo? Eu me via em um maldito estado vegetativo, incapaz de me mexer e de falar!

Fui tomado por uma sensação de impotência que começou a se transformar em ódio. Ódio dos que me mantinham vivo, ódio da própria vida.

A enfermeira estava certa: seria melhor ter morrido. Ainda assim, todo dia ela entrava no quarto com uma expressão apreensiva para trocar o soro que me alimentava. Ela acreditava que eu estava inconsciente, então nunca me olhava nos olhos. Verificava se todos os tubos que conectavam meu corpo à máquina estavam corretamente posicionados e saía correndo assim que podia.

Todo dia, quando a via chegar, eu implorava em pensamento para que ela não cuidasse de mim. Será que ela não percebia que não me fazia favor algum me mantendo vivo?

Por favor, me deixe em paz!, suplicava a ela. Se tem tanto medo de olhar para mim, por que simplesmente não para de vir? É só me deixar morrer…

No entanto, fui forçado a observá-la cumprir sua rotina muitas e muitas vezes…

Maldição! Quero que isso acabe!

Por favor, alguém faça alguma coisa! Alguém me ajude! Não quero mais viver!

– É melhor se acostumar. Parece que vai ficar aí por um bom tempo – uma voz me disse.

Não havia mais ninguém no quarto.

– Dessa vez você se ferrou de verdade, não foi? – continuou a estranha voz.

Quem é você? Um anjo?, perguntei, assustado. Aquela voz não parecia vir de fora de mim.

– Ora! Não me diga que o maior ateu do mundo agora acredita em anjos!

Como é que você sabe o que penso? Será que enlouqueci?

– É bem possível.

Então você não é real?

– Olhe, não tenho como lhe dizer nada que você já não saiba… Talvez mais tarde você se dê conta de quem eu sou.

Laura está bem? Por que meus pais não vieram me visitar? Quando vou morrer? Isso é alguma espécie de castigo?

– Não seja tão cabeça-dura! Já disse que não sei de nada que você não saiba.

Nesse caso, você não está me ajudando muito.

– Posso ir embora se quiser.

Não!!! Por favor, não vá.

Foi quando lembrei que Laura falava o tempo todo sobre guias espirituais. Ela acreditava que, se meditássemos bastante, conseguiríamos nos comunicar com eles, embora eu achasse isso uma grande bobagem.

– Também acho, embora eu tenha de admitir que gosto dessa coisa de “guia” – comentou a voz.

Seria possível que um guia espiritual fosse tão grosseiro e sarcástico?

– Olha aqui, cara, se não gosta de mim, vou embora e pronto.

Não, não. Não se irrite. Só estou tentando entender o que está acontecendo.

– Talvez você devesse ter tentado antes de se meter nessa encrenca.

Eu só queria fugir para me livrar dos meus problemas!

– Exato! Você queria se livrar dos seus problemas e se transformou em um prisioneiro.

Um prisioneiro?

– Você não tem livre-arbítrio, não pode se mexer nem falar. Não conseguiria nem se matar, se quisesse.

E você só apareceu aqui para fazer eu me sentir ainda pior com isso?

– “Apareci”? Sempre estive aqui; o problema é que antes você não queria me escutar. Além disso, ninguém pode fazer você sentir nada.

Que estupidez. Como assim, ninguém pode me fazer sentir nada? Meus pais sempre me irritaram, meus irmãos faziam eu me sentir inferior, minhas namoradas sempre me colocavam para baixo e me feriam.

– Vou explicar melhor: antes de vir parar aqui, você  era livre como um pássaro. Nada nem ninguém tinha domínio sobre você. Você podia ter feito qualquer coisa que desejasse, pois estava no controle da sua vida.

O que isso tem a ver com meus sentimentos?

– Por que a pressa? Temos tempo de sobra para conversar à vontade…

Você é um filho da p…!

– Você também era livre para pensar o que quisesse e, assim, escolher como se sentia.

Escolher como me sentia?

– Isso mesmo. Seus sentimentos vêm dos seus pensamentos. Funciona assim: você pensa em algo triste e se sente triste. Você pensa em algo que o aborrece e fica zangado. Você acha que os outros podem feri-lo, desapontá-lo ou fazer com que se sinta mal, mas na verdade ninguém pode entrar na sua mente e forçá-lo a sentir nada. Mesmo agora, quando os outros podem mover seu corpo e fazer o que quiserem com ele ou desligar a máquina que o mantém vivo, você ainda controla sua mente.

Achei que você tinha dito que não sabia nada que eu não soubesse.

– Bem, isso prova que você não é tão estúpido quanto você pensava.

O quê?

– Você vivia culpando as pessoas e as circunstâncias pelo que deu errado na sua vida. Você se via sempre como vítima.

É isso mesmo. Minha vida não foi fácil. Basta olhar minha família! Além disso, sempre tive azar.

– Ah, coitadinho! Quando pensa assim, você se torna escravo do seu passado, prisioneiro dos desejos dos outros, das circunstâncias e da sorte.

Então eu deveria ter controlado tudo o que me aconteceu? Deveria controlar os outros?

– Você não pode controlar as circunstâncias, mas pode controlar sua reação a elas. Você estava e ainda está no controle do que acontece dentro da sua mente. É você quem decide o que pensa e como reage a cada situação.

Ah, sei. E como é que eu reagiria bem aos problemas que tive?

– Você tinha a opção de vê-los como problemas ou como obstáculos a superar, como maldição ou como desafio. Se não coubesse a você decidir como reagir, a quem caberia?

Agora você está me deixando maluco. Quer dizer que a única pessoa responsável por tudo de ruim que me acontece sou EU?

– VOCÊ está se deixando maluco. Além disso, não se trata de pôr a culpa em alguém. Mas me diga… quem estava movendo a sua mão enquanto você tomava uma bebida atrás da outra? Quem pôs na sua boca aqueles comprimidos que o trouxeram até aqui?

Achei que eu ia explodir. Sempre pensei que exprimir as emoções é um tipo de válvula de escape, mas eu não conseguia nem chorar. Estava furioso com o que meu “guia” me dizia, só que ele tinha absoluta razão em tudo.

Por sorte, naquele momento algo aconteceu para distrair minha atenção: a porta se abriu e uma enfermeira entrou. Não era a mulher rabugenta que costumava trocar meu soro. Ela chegou até o leito e se curvou para me olhar.

Vi muita tristeza em seus olhos verdes. O cabelo louro ficava caindo o tempo todo em seu rosto, e ela tentava prendê-lo atrás da orelha. Ela me examinou por alguns segundos e consegui ler seu nome no crachá do hospital: Faith, “fé”.

– Oi – disse ela.

Oi, Faith, imaginei que lhe respondia.

– Veja em que estado você ficou, coitadinho.

Ah, você sabe, a vida é assim, continuei com a conversa na cabeça.

Ela acariciou meu cabelo e disse:

– Não se preocupe, vou cuidar de você.

Obrigado.

– Sabe, ela está MUITO mais perto de ser um anjo do que eu – disse meu guia. – E também é uma gracinha!

Com cuidado, ela trocou o soro, reacomodou os travesseiros sob minha cabeça e verificou se as máquinas em volta estavam funcionando como deviam.

– Até amanhã – falou ela ao se virar para sair.

Até amanhã, respondi.

– Até amanhã, gostosa!!! – gritou o guia em minha cabeça.

Conteúdo Relacionado

Seis conselhos importantes de Rhonda Byrne em “O poder”