Todas as histórias formam uma história só

26 de abril de 2018 | por Filipe Isensee

“Todas as feridas que sofrera, todas as dores que suportara – tudo desaparecera como um sopro. Não sentia nenhuma agonia. Não sentia nenhuma tristeza. Sua consciência parecia esfumaçada, fraca, incapaz de sentir qualquer coisa exceto calma”.

Então, Eddie morreu. Morreu aos 83 anos. Morreu no parque de diversões onde trabalhava. Morreu tentando salvar uma criança. Morreu uma morte trágica.

Morreu, enfim.

Mas a morte aqui é apenas o princípio da história. Sim, Eddie morreu – isso não muda -, mas só então teve a chance de compreender a vida. E isso muda tudo.

Escrito por Mitch Albom, As cinco pessoas que você encontra no céu não descreve a morte com os traços fúnebres que sugerem apenas um fim inevitável e doloroso, mas, sim, como momento de aprendizado. É uma narrativa de alento que ressalta a capacidade de crescimento interior. Nas páginas do livro, a vida – delicadamente misteriosa – é passada a limpo, com um recado esperançoso abotoado: toda vida vale. Até a vida aparentemente insignificante e fracassada de Eddie, mecânico de um parque de diversões que morreu aos 83 anos…

 

Então, Eddie morreu

“É para isso que serve o céu, para entender a sua vida na terra. As pessoas pensam no céu como um jardim paradisíaco, um lugar onde se fica flutuando nas nuvens e se divertindo pelos rios e montanhas. Mas paisagem sem consolo não significa nada. Esse é o maior presente que Deus pode lhe dar: entender o que aconteceu na sua vida. É a paz que você buscava”.

A fala acima é do Homem Azul, a primeira pessoa que Eddie encontra no céu.

O apelido diz respeito à coloração da pele, resultado do uso excessivo de nitrato de prata na infância. Por caminhos tortos, a aparência incomum do sujeito o levou a ser uma das atrações do parque Ruby Pier – onde Eddie trabalhou até o fim – , e lá foi vítima de todo o tipo de chacota. Eddie não sabia, mas, quando garoto, envolveu-se indiretamente na morte do Homem Azul. A revelação acontece somente no céu e o deixa atordoado e confuso.

Ele pensa instantaneamente em castigo, justiça e pecado. A lição do Homem Azul, contudo, é outra, mais singela e profunda: “não se separa uma vida da outra, assim como não se separa a brisa do vento”, ressalta ele ao explicar que morreu para o então jovem viver. O primeiro anfitrião aponta a conexão existente entre seres que não precisam se esbarrar ou olhar nos olhos um do outro para fazer parte de um mesmo todo – esse todo, misterioso por natureza, é a vida. Afinal, como fica claro ao fim, “todas as histórias formam uma história só”.

No céu, uma dúvida perturba Eddie constantemente: ele conseguiu ou não salvar a garotinha do acidente no parque? A resposta, porém, parece lançá-lo a outra questão, ainda mais espinhosa: minha vida (ou minha morte) valeu a pena?

 

A vida vista na morte

Ninguém precisa ter realizado um ato heróico para refletir sobre os caminhos percorridos em vida. No caso de Eddie, esse fio de consciência, da infância à velhice, é extraído por cada pessoa que ele encontra no céu. Cada uma o leva a um lugar diferente e apresenta um momento desconhecido, ressignificando o que pare ele era apenas uma sucessão de insignificâncias ou incompreensões.

Não vamos estragar as surpresas do desenvolvimento da história, mas vale ficar atento às lições que tornaram o livro tão popular desde o lançamento, em 2003.

Os traumas de infâncias, a dura relação com o pai, as dificuldades enfrentadas na época da guerra e o amor perdido são redimensionadas à luz do que importa quando não se vive mais a vida como antes. A compreensão conquistada na morte, porém, é incapaz de alterar o já vivido.

O que a trajetória de Eddie parece querer inspirar no leitor pode ser resumida numa mensagem: você pode repensar suas escolhas – o lugar ocupado por afetos e mágoas – ainda em vida. Mais ainda: você deve. Isso muda tudo.

 

Para refletir

Sacrifício

“Sacrifício. Você fez um. Eu fiz um. Todos fazemos. Você sente raiva do seu. Ficou pensando no que perdeu. Você não entendeu. O sacrifício faz parte da vida. Deve fazer. A gente não pode se lamentar por isso. É uma coisa que deve ser desejada. Pequenos sacrifícios. Grandes sacrifícios. A mãe que trabalha para o filho poder ir à escola. A filha que volta para casa para cuidar do pai doente (…) Às vezes, quando a gente sacrifica algo de muito valor, na verdade, não está perdendo essa coisa. Está apenas transmitindo-a a outra pessoa”.

 

Raiva

“Guardar a raiva é envenenar-se. Ela nos consome por dentro. A gente costuma pensar que o ódio é uma arma contra a pessoa que nos fez mal. Mas a lâmina do ódio é curva. E o mal que fazemos com ele, nós fazemos a nós mesmos”.

 

Amor

“Amor perdido ainda é amor. Ele assume outra forma, só isso. Você não pode vê-lo sorrir, não pode lhe trazer o jantar, não lhe faz cafuné nem rodopia com ele pelo salão. Mas, quando esses prazeres enfraquecem, outro toma o lugar: a lembrança. A lembrança se torna a sua parceira. Você a alimenta. Você a segura. Você dança com ela. A vida tem que acabar. O amor não”.

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