Lava Jato

17 de abril de 2018 | por Editora Sextante

A hora do juízo final

A madrugada chegava ao fim quando, de vários pontos do Brasil, equipes da Polícia Federal saíram para cumprir mandados da sétima fase da Operação Lava Jato, batizada com o sugestivo nome de Juízo Final. O clima era de correria na PF. Às 6h20 da manhã, em São Paulo, repórteres da Folha de S.Paulo viram uma dúzia de policiais federais e agentes da Receita Federal chegar ao edifício da Camargo Corrêa na avenida Faria Lima. Cinco carros da PF entraram na garagem, três agentes ficaram na porta controlando a entrada da sede da construtora. Os policiais sairiam, horas depois, carregados de malotes e documentos. A tradicional empreiteira liderava o consórcio responsável pela construção da Refinaria Abreu e Lima, em Pernambuco, naquele momento a obra mais cara em andamento no país: 24 bilhões de reais. Era o começo de um dia que espantaria o país.

Ao amanhecer, a Polícia Federal também bateu à porta do ex-diretor de Serviços da Petrobras, Renato Duque, num prédio de luxo na Barra da Tijuca, Zona Oeste do Rio de Janeiro, onde ele tinha três apartamentos. Duque ligou imediatamente para seu advogado, Renato de Moraes, procurando ajuda. Quase no final da busca, telefonou de novo para ele.

– Pelo que entendi, eles estão terminando – disse Duque.

– É busca e apreensão só? – perguntou o advogado.

– Busca e apreensão – confirmou Duque.

– Só? – insistiu o advogado. – Não tem mandado de condução coercitiva?

– Não, não tem – disse Duque, meio inseguro.

– Nem prisão? – continuou o advogado.

– Quer falar com ele? – perguntou Duque, se referindo ao delegado que conduzia os trabalhos.

– Claro, posso falar – disse o advogado.

– Quer falar com ele? – perguntou Duque ao delegado. – Peraí que…

– Duque ficou fora da linha pouco mais de dez segundos e voltou com a notícia.

– Tem mandado de prisão temporária.

– A ordem é de Curitiba? – quis saber o advogado.

– É.

– Tá.

– Como é que eu faço? Aguardo aqui? – perguntou Duque.

– Não. Qual é o procedimento que eles vão fazer? – quis saber o advogado.

Duque pediu mais informações ao delegado, que lhe respondeu que, primeiro, eles iam para a Superintendência da PF na Praça Mauá, no Rio de Janeiro. Ao saber disso, o advogado passou uma primeira instrução para seu cliente:

– Você não vai falar nada e a gente vai atacar isso aí – orientou, e foi logo explicando o que é prisão temporária.

– Eu tenho que levar roupa, como é que é isso? – perguntou Duque interrompendo.

– Leva medicação, roupa… Tem que saber se você vai ficar no Rio de Janeiro ou…

– Então… – Duque se virou e consultou o delegado mais uma vez. – Ele está dizendo que eu vou pro Paraná, cara. Que que é isso, cara? Que país é esse? – disse Duque ao advogado.

– Fica calmo, não adianta você discutir, eles estão cumprindo ordens – tranquilizou o advogado, que mais tarde encontraria seu cliente na sede da Polícia Federal no Rio.

Duque foi preso, entre outras coisas, pela acusação, feita por dois executivos ligados à empresa Toyo Setal, de que havia recebido propina na Suíça, por meio de uma empresa offshore cujo nome era Drenos. Segundo a PF, a situação dele era parecida com a de Paulo Roberto Costa. Ao sair da Petrobras, o ex-diretor abriu uma empresa e celebrou contratos de consultoria com as empreiteiras que prestam serviços para a estatal. Assim, embolsava o resto da propina que ainda tinha a receber. Para a defesa de Renato Duque, a prisão dele era “injustificada e desnecessária”. Em nota, o advogado Alexandre Lopes a classificou de constrangimento ilegal e disse que em ações como essa a regra é responder em liberdade.

Funcionário de carreira da Petrobras, Duque foi admitido por concurso em 1978, um ano depois de Paulo Roberto Costa. Em 2003 foi alçado ao cargo de diretor de Serviços. Nos corredores dizia-se que sua ascensão tinha motivações políticas. Discreto, solícito, Duque era o indicado do todo-poderoso José Dirceu, então ministro da Casa Civil do presidente Lula, de acordo com as investigações da Lava Jato. Comandou a Diretoria de Serviços por nove anos, de 2003 a 2012. Sabia muito do esquema.

Logo os telejornais da manhã davam a notícia bombástica: a Polícia Federal estava na rua prendendo mais um ex-diretor da Petrobras e vários donos e diretores de algumas das maiores empreiteiras do país. Trezentos policiais federais e cinquenta agentes da Receita Federal foram mobilizados em cinco estados – São Paulo, Paraná, Rio de Janeiro, Pernambuco e Minas Gerais – e no Distrito Federal para cumprir 85 mandados judiciais. Eram 49 mandados de busca e apreensão e 25 prisões, sendo 19 temporárias e seis preventivas. Entre os detidos estavam alguns dos homens mais ricos do país. O dia para eles havia começado da pior maneira possível: com a polícia fazendo buscas em suas casas e os levando para a cadeia. A Justiça ainda determinou um bloqueio de até 20 milhões de reais nas contas de 16 investigados e de três empresas. Vinte executivos de oito grandes empreiteiras do país, responsáveis por centenas de milhares de empregos, foram presos. As suspeitas: corrupção, lavagem de dinheiro, formação de quadrilha, cartel e fraude a licitações.

Novas informações chegavam a todo momento: Marice Corrêa de Lima, cunhada do tesoureiro do PT, João Vaccari Neto, também fora levada para depor. E Fernando Baiano, apontado como operador do PMDB na Petrobras, continuava sendo procurado pela PF.

De seu gabinete, o juiz Sergio Moro acompanhava cada passo da operação. Era informado por delegados e procuradores do andamento das buscas e do cumprimento das prisões. Ele tinha analisado cada prova, cada indício, cada testemunho. Tinha pedido a alguns servidores da equipe para adiar cursos e viagens, não sair da cidade. Precisava muito deles agora. Essa era uma fase decisiva. Novos e importantes personagens tinham aparecido na investigação. O nome de Baiano, por exemplo, tinha vindo a  público no depoimento que Paulo Roberto Costa dera em outubro, cerca de um mês antes da sétima fase.

– Que outros partidos, além do PP, tinham esquema na diretoria da Petrobras? – o juiz perguntou a Paulo Roberto.

A resposta foi clara:

– Dentro do PT, a ligação que o diretor da área de Serviços tinha era com o tesoureiro na época do PT, senhor João Vaccari. A ligação era diretamente com ele. Do PMDB, da Diretoria Internacional, o nome que fazia essa articulação toda chama-se Fernando Soares…

– Conhecido também como Fernando Baiano? – quis confirmar Sergio Moro.

– Perfeito – respondeu Paulo Roberto.

Baiano não foi encontrado no dia da operação. Tinha sumido. Os delegados da Polícia Federal suspeitaram de vazamento. Alguns investigados deram a eles a impressão de que já estavam esperando essa fase acontecer. Vários deles tinham viajado para o exterior, principalmente em agosto, quando surgiram as primeiras notícias de que Paulo Roberto Costa havia confessado. Outros zeraram as contas bancárias. Muitos dormiam em hotéis, cada dia num lugar diferente, e foram encontrados fora de casa no dia da operação. O presidente da Queiroz Galvão, Ildefonso Colares Filho, por exemplo, foi preso no Rio de Janeiro. A suspeita da PF era de que ele tinha dormido no Hotel Fasano, de frente para a praia de Ipanema, cuja diária chega a mais de 2 mil reais. O presidente da OAS, José Aldemário Pinheiro Filho, o Léo Pinheiro, também não estava em casa, tinha viajado de jatinho para Salvador. Foi pego no aeroporto. O delegado Márcio Anselmo informou à diretora de secretaria da 13ª Vara Federal que iria mandar um pedido urgente. De casa, ela entrou em contato com Sergio Moro, que autorizou na hora uma busca no avião também.

Na noite anterior, um advogado mandou uma mensagem para um cliente avisando: “Gerson, há boatos de que amanhã haverá uma operação da Polícia Federal no caso da Lava Jato.” Gerson Almada, que era vice-presidente da Engevix, foi preso na manhã seguinte. Em alguns pontos de busca, não encontraram ninguém. Em outros havia até fotógrafos. Mas o caso que mais chamou a atenção ocorreu na sede da OAS. Quando a equipe de 16 investigadores chegou à portaria, às seis e meia da manhã, três advogados já estavam de plantão e se apresentaram como representantes da empresa. Os policiais perguntaram o que eles estavam fazendo lá àquela hora. Eles responderam que tinham o costume de chegar cedo. Nessa hora, um fotógrafo da Folha de S.Paulo começou a tirar fotos. O delegado Felipe Hayashi deu ordem para que ele saísse imediatamente dali e perguntou aos advogados se o conheciam. Eles disseram que não, mas o delegado desconfiou de toda a cena. A suspeita era de que a operação poderia ter sido monitorada. O juiz Sergio Moro também foi informado disso.

Na 13ª Vara Federal de Curitiba, a equipe tinha chegado bem cedo naquele dia, como sempre fazia quando havia grandes operações. Os telefones já estavam tocando sem parar. Eram os advogados querendo acesso aos motivos das prisões e das buscas sobre seus clientes, o que eles só conseguiram depois do meio-dia.

No fim da manhã, o presidente da UTC Engenharia, Ricardo Pessoa, se entregou. A PF continuava fazendo buscas na empresa dele e em outras construtoras. Considerado o coordenador do clube das empreiteiras, Pessoa tinha uma relação especial com o doleiro Alberto Youssef. Os dois eram sócios em um hotel na Bahia e muito próximos. O empresário até visitou o prédio onde funcionava o escritório do doleiro em São Paulo. Eles também se falavam com frequência por mensagens de texto. Entre setembro e dezembro de 2013, a polícia contabilizou 35 mensagens trocadas. Os investigadores interceptaram uma de ano-novo, enviada no dia 31 de dezembro de 2013, em que Youssef diz: “Bjo no seu coração, do seu primo.” Ricardo Pessoa responde: “Amigo primo. Queria lhe agradecer pela parceria e lealdade. Grande abraço. Ricardo.” Além de Pessoa, outros funcionários da UTC, também presos na sétima fase, frequentavam o escritório do doleiro. O diretor Walmir Pinheiro Santana e o funcionário Ednaldo Alves da Silva, por exemplo, foram fotografados na portaria do prédio, conforme material recolhido pela Polícia Federal. Só Ednaldo tinha ido dezenas de vezes ao endereço onde funcionava o escritório de Alberto Youssef entre fevereiro de 2011 e dezembro de 2013.

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