O desastre do romantismo e as novas leis do amor

16 de abril de 2018 | por Filipe Isensee

Está escrito: o romantismo foi um desastre para o amor.

Grafada no livro Relacionamentos, da The School of Life, a afirmação-provocação visa descortinar a noção demasiadamente ingênua e intuitiva do amor; dolorosa também, claro, em sua proposta de completude “até que a morte nos separe”. Sugere, ao contrário, a necessidade de um aprendizado do amor, um amor menos enfeitado e psicologicamente mais maduro. A ideia romântica do amor, construída social e culturalmente ao longo dos séculos, engessou mulheres e homens diante de um modelo pré-fabricado com ideias muito bonitas, expandidas nos finais felizes de novelas, filmes e séries: o amor como alma gêmea, o amor como fim da solidão, o amor como aceitação plena do outro sem questionamentos; o amor como negação da razão.

Um amor eventualmente pesado demais, “normativo e delirante”, um amor como potencial instrumento de frustração.

E o que fazer como esse amor-que-mexe-com-minha-cabeça-e-me-deixa-assim?

Ora, é preciso cultivá-lo, mas torná-lo pé no chão. Mantê-lo amor, mas outro amor. Eis, talvez, o amor pós-romântico? O livro propõe seis chaves básicas para compreendê-lo:

1) É normal que amor e sexo nem sempre andem juntos.

2) Discutir a questão financeira no começo do relacionamento, de maneira direta e séria, não é uma traição do amor.

3) Perceber que o parceiro e nós mesmos temos muitos defeitos faz um grande bem ao casal, pois aumenta a tolerância e generosidade.

4) Nunca encontraremos tudo numa pessoa só, nem ela em nós – não por algum defeito específico, mas pelo modo como a própria natureza humana funciona.

5) Para nos entendermos, precisamos de um esforço imenso e muita sondagem; a intuição não tem o poder de nos levar aonde temos que ir.

6) Passar duas horas discutindo se as toalhas do banheiro devem ser penduradas ou podem ser deixadas no chão não é algo trivial nem pouco sério, e há uma dignidade especial em debater a lavagem de roupas e a divisão do tempo.

São ideias libertadoras, o livro defende.

Saem de cena os infalíveis super-heróis – os fofos, compreensivos, cultos, justos e bons de cama, que também cozinham, lavam, passam, ganham bem, acordam de bom humor e fazem massagem nos seus pés antes de dormir – e entram os extraordinários (e falíveis) normais, malabaristas por natureza, entre claves de defeitos e qualidades. Não é para se acomodar com quem te trata mal e te faz infeliz. Se é violento e abusivo, não é amor.

A beleza sugerida aqui se concentra na capacidade de nos entendermos, nos melhorarmos e não desistirmos ao primeiro sinal de cansaço. Há tantas rasuras não conhecidas nas grandes histórias de amor. O amor resiste no querer consciente e não na obrigação de uma ideia bela e oca.

 

Expectativas, infância e vida adulta

A consciência – a busca por certa racionalidade – é um dos caminhos para a compreensão dos rumos de determinados relacionamentos. Influenciada pela psicanálise, uma corrente afirma que nos apaixonamos por alguém que carrega familiaridade. “O amor na vida adulta surge a partir de um modelo, criado na infância, de como devemos ser amados e provavelmente está emaranhado em uma série de compulsões problemáticas que, em seus aspectos principais, minam nossas oportunidades de crescimento”.

O passado, com alegrias e traumas, é reconfigurado a partir da conexão com a pessoa amada: através dela, o livro insiste, podemos repetir certos padrões, muitos deles nocivos. “Podemos ter sido traumatizados por uma figura parental a ponto de não conseguirmos nos aproximar de nenhum parceiro que tenha alguma qualidade em comum com ela, mesmo que não tenha nada a ver com seu lado negativo. No amor, podemos ser rigidamente intolerantes com pessoas inteligentes, pontuais ou interessadas em ciência – apenas porque essas são as características de alguém que nos causou muitas dificuldades durante a infância”. Daí a importância de examinarmos nossa história emocional. Essa atitude nos libera para amar alguém distante desse padrão forjado na infância, ao qual damos continuidade.

Os relacionamentos são construídos a partir daquilo que ansiamos e quase nunca é fácil lidar com a diferença imposta pela realidade. Muitas vezes, depositamos no outro a nossa chance de salvação. O revés da expectativa é a decepção certeira – aqui, vale a máxima “quanto maior a altura, maior a queda”. “A intensidade da frustração depende do imenso investimento prévio de esperança”, sintetiza o livro.

Há uma dificuldade de encarar obviedades fáceis de constatar nos relacionamentos dos amigos, mas não nos nossos próprios. A ponta dilacerante desta conversa é que estamos lidando com outra pessoa, que reage e pensa de forma diferente de nós. Além disso, o amor se transforma ao longo do tempo e a intimidade faz com que conheçamos melhor quem está ao nosso lado, as coisas boas e as ruins. Aos que não conseguem lidar com esse fato, o término do relacionamento e a busca pela pessoa perfeita parecem a melhor saída. Será mesmo? Sobre isso, o livro faz outra provocação: “O encanto da pessoa nova se baseia no fato de que ainda não a conhecemos o suficiente para entender como ela também pode nos enlouquecer”.

 

Reflexões sobre os relacionamentos

 

O alvo errado

“Simplesmente não podemos – e, portanto, não costumamos – nos zangar com os reais culpados por nossas frustrações. Em vez disso, nos zangamos com quem temos certeza de que vai nos tolerar. Assim, nos irritamos com as pessoas mais bondosas, solidárias e leais à nossa volta, aquelas que na verdade têm a menor probabilidade de nos machucar, mas a maior de continuar ao nosso lado quando a culpamos por isso”.

 

Um dia de cada vez

“Nunca avançaremos nos projetos maiores se não conseguirmos suportar, pelo menos por algum tempo, a insatisfação interior e a falta de autenticidade exterior – no mínimo em relação a sensações passageiras como o desejo de mandar os filhos embora, terminar o relacionamento ou fazer sexo com desconhecidos. Isso seria atribuir um peso excessivo a todos os nossos sentimentos e deixar que sejam sempre a estrela-guia da nossa vida”.

 

Mapa das dificuldades

“A explicação de nossos medos e desejos mais estranhos é uma parte necessária, importante e genuinamente amorosa de qualquer relacionamento. Para sermos toleráveis, não necessitamos ser totalmente sãos – só precisamos oferecer ao parceiro, de modo bem-humorado, nada hostil e com o máximo de precisão possível, os mapas de nossas maiores dificuldades”.

 

O desejo de cada um

“Precisamos admitir para nós mesmos que, sob qualquer retórica, a liberação sexual na verdade nunca aconteceu. Continuamos aprisionados, assustados e envergonhados – com poucas alternativas além de enganar o outro em nome do amor. A verdadeira liberação é um desafio que continua diante de nós enquanto, com paciência, reunimos coragem para admitir a natureza de nosso desejo e para sermos sinceros ao conversar com a pessoa amada sobre o conteúdo da nossa mente”.

TAGS:

Conteúdo Relacionado

Seis conselhos importantes de Rhonda Byrne em “O poder”