Brasil do Casseta

10 de abril de 2018 | por Editora Sextante

Desde o início da República, em várias ocasiões os militares foram chamados para resolver os problemas do país. Toda vez que a situação ficava confusa, apelava-se para os generais e marechais, que sempre, muito prestativos, atendiam ao chamado, davam um golpe no governante em exercício, tomavam o poder, distribuíam uns tapas, davam uns “chega pra lá” em uns e outros, e depois devolviam o país para os civis. Mas em 1964 eles agiram diferente: dessa vez os militares resolveram que queriam ficar com o país para eles.

Quando tomaram o poder em março de 1964, os golpistas tentaram jogar a conversa de que eram legalistas e bonzinhos e que seriam fiéis à Constituição. Mas, assim que assumiram o governo, os militares agiram como aquele noivo que na igreja, diante do padre, promete fidelidade à noiva, mas depois, na festa, fica bebum e acaba passando a mão na bunda da irmã da noiva e comendo a prima gostosa no banheiro. Os generais logo mostraram a sua cara enfezada e saíram desrespeitando a Constituição de frente, de trás e de ladinho.

Assim que tomaram o poder, os militares formaram o Comando Supremo da Revolução, do qual participavam três generais carrancudos que nas reuniões costumavam ficar rosnando uns para os outros, disputando quem era mais linha-dura. Os ditadores de plantão proclamaram logo o Ato Institucional Número 1, o AI-1, que, literalmente, botava para quebrar com a oposição e principalmente com os comunistas. Depois de algum tempo, assumiu como presidente o general Castelo Branco, um sujeito que só não era carne de pescoço porque Deus se esqueceu de lhe conceder um pescoço. Castelo ainda deu uma enrolada geral, fingindo que estava pensando em devolver o poder aos civis, mas não segurou muito a onda e logo decretou o AI-2, que transformava de vez o governo em ditadura. O AI-2, entre outras coisas, permitia que se cassassem deputados à vontade e acabava com o pluripartidarismo. A partir dali, só poderiam existir dois partidos: o da situação, a Aliança Renovadora Nacional (Arena), que deveria ser a favor do governo, e o partido de oposição, o Movimento Democrático Brasileiro (MDB), que também deveria ser a favor do governo, mas não tanto quanto a Arena.

 

O governo Costa e Silva

Em 1967, o ditador de plantão saiu e assumiu o general Costa e Silva, que chegou falando de redemocratização. Assim como o seu antecessor, Costa e Silva não conseguiu se fingir de bonzinho por muito tempo porque logo começaram a acontecer coisas que o irritaram e, sabe como é, militar se irrita com muita facilidade. Primeiro, a polícia invadiu um restaurante universitário e, devido à delicadeza com que agiu contra os estudantes, acabou matando o jovem Edson Luís. Revoltados, os estudantes fizeram vários protestos, culminando com uma passeata que reuniu 100 mil pessoas no Rio de Janeiro.

Além disso, o MDB, ô gente chata, insistia em fazer oposição e um de seus deputados, Márcio Moreira Alves, fez um discurso de protesto chamando o governo de ditadura e pedindo à população que boicotasse o desfile de 7 de Setembro. Aí foi demais! Você pode até dizer que militar é feio, pode até dizer que ele é bobo e cara de mamão, mas falar mal do desfile de 7 de setembro é demais! Pensa só, o militar passa o ano inteiro encerando o coturno, lustrando a fivela do cinto, engomando o uniforme e treinando para marchar todo mundo igualzinho e aí aparece um deputado que tem a coragem de pedir para o povo ficar em casa e não assistir ao desfile de 7 de Setembro? Ah, não, aquilo passou de todos os limites, e os generais linha-dura exigiram que Costa e Silva tomasse uma atitude.

É preciso aqui fazer um parêntese e explicar que dentro do Exército havia uma divisão muito clara. Uma parcela era formada por generais linha-dura, que achavam que o governo devia fechar tudo e botar na bunda de quem fosse de oposição. E havia também uma ala mais moderada, que também achava que o governo devia fechar tudo e botar na bunda de quem fosse de oposição, mas que preconizava o uso de vaselina. E, naquele momento, a linha-dura ganhou aquela parada e foi decretado o AI-5.

E então lá vai a primeira pergunta da prova sobre este capítulo:

O que o AI-5 permitiu que o governo fizesse?

A – O presidente podia fechar a qualquer momento o Congresso e as Assembleias Legislativas.

B – Podia suspender os direitos políticos dos cidadãos a qualquer hora.

C – Decretava a censura prévia de qualquer música, peça, filme ou livro e a censura à imprensa.

D – Suspendia o habeas corpus para os crimes políticos.

E – Todas as sacanagens acima e ainda outras mais.

Se você respondeu letra “E”, você acertou. Mas, ao chamar as medidas do AI-5 de “sacanagens”, você demonstrou uma postura nitidamente subversiva de oposição ao governo militar da Revolução e, infelizmente, terá que sofrer todas as consequências do AI-5. Resumindo: tá fodido, seu esquerdista desgraçado!

Em agosto de 1969, Costa e Silva ficou doente. Mais uma junta de generais carrancudos assumiu o poder e, é claro, nem cogitaram que o vice, o civil Pedro Aleixo, assumisse. Os generais decretaram vários Atos Institucionais, o AI-13, o AI-14, o AI-15… porque, depois de marchar e caiar muros, decretar Atos Institucionais era um dos principais passatempos dos militares naqueles tempos. Então eles decretaram o AI-16, que dizia que o governo Costa e Silva tinha acabado mesmo e que o vice não ia assumir porra nenhuma e pronto.

 

O governo Médici

Emílio Garrastazu Médici foi eleito o presidente seguinte. Eleito? Sim, os militares fizeram uma eleição cujo colégio eleitoral era formado por 240 generais, que era o máximo de democracia que a ditadura permitia. Não foi surpresa a eleição do general Médici, que havia sido chefe do SNI e era um dos principais sócios do clube da galera linha-dura.

O governo Médici foi o mais barra-pesada da ditadura, certamente o período mais repressivo da História do país. Foi o auge do funcionamento dos porões da ditadura, com seus DOI-CODIs e torturadores. Desde 1967 vários grupos de esquerda haviam caído na clandestinidade e um dos objetivos de Médici e de sua linha dura era se dedicar a combatê-los.

Então aí vai a segunda pergunta da prova do capítulo e é bom responder direitinho porque estamos falando de uma ditadura e quem errar pode sofrer graves consequências:

Qual das siglas abaixo NÃO é de uma organização clandestina que pregava a luta armada para combater a ditadura?

A – VPR

B – VAR-Palmares

C – MR-8

D – PC DO B

Todas as organizações clandestinas acima pregavam a luta armada e, portanto, se você marcou alguma, a sua resposta está errada! E, se você não respondeu nada, tomou zero também! O que você está dizendo? Que não dava para marcar nenhuma opção porque nenhuma estava correta? O que é isso? Você está contestando o enunciado da questão, seu subversivo? Como é que é? Isso é injusto? O que é que você entende de justiça, seu comunista desgraçado? Eu avisei que este capítulo era sobre a ditadura. Portanto, você acabou de se foder de novo na prova e, desta vez, vai para o pau de arara!

O governo Médici foi um período contraditório. Enquanto o pau quebrava nos porões da ditadura, a economia do país passava por um ótimo momento. O Brasil chegou a crescer 11% ao ano durante o governo Médici. Foi o famoso “milagre brasileiro”, capitaneado por Delfim Netto, o ministro da Fazenda, que saiu gastando o dinheiro a rodo, fazendo um monte de obras gigantescas, como a Ponte Rio-Niterói, que liga o Rio a Niterói, e a Transamazônica, que liga o Brasil a porra nenhuma.

Foi também um período de intensa propaganda do governo, época de slogans como “Brasil, ame-o ou deixe-o”, que alguns sacaneavam e diziam “Brasil, mame-o ou deixe-o”, brincadeira que só era possível fazer quando se estava sozinho no banheiro, porque a repressão não achava a menor graça. Para tentar ganhar popularidade, Médici, que gostava de futebol e era torcedor do Grêmio, declarou-se flamenguista e foi ao Maracanã, com um radinho de pilha colado na orelha para torcer pelo rubro-negro. Naquele dia, a torcida adversária não gritou “urubu!” para a torcida do Flamengo, como era de praxe. Ficaram com medo. E se Médici achasse que o grito era para ele e mandasse todo mundo pro DOI-CODI?

Se ninguém podia falar nada, se o povo estava caladinho, por outro lado, os grupos clandestinos continuavam agindo e vários assaltos a banco e sequestros de embaixador aconteceram. Assim foi com os embaixadores dos Estados Unidos, da Alemanha, do Japão e da Suíça, todos trocados por militantes presos. O sequestrador que ficou mais famoso foi Fernando Gabeira, que participou do sequestro do embaixador americano Charles Elbrick. Gabeira naquela época ainda não era maconheiro. Por isso conseguiu se lembrar de tudo e escrever o best-seller O que é isso, companheiro?.

No final do governo Médici, os generais de linha mais dura perderam o confronto para os de linha menos dura, que achavam que o governo estava duro demais e “elegeram” o general Ernesto Geisel, um cara menos durão, para ser o presidente seguinte.

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