Uma nova voz pede passagem

6 de abril de 2018 | por André Sequeira

A crônica sempre atuou como um espelho da época e do lugar em que vivemos. Numa sociedade desde sempre complicada, escritores como Machado de Assis, Otto Lara Resende, Fernando Sabino, Rubem Braga, João do Rio, Clarice Lispector, até os mais atuais Carpinejar, Luis Henrique Pellanda, Antonio Prata – entre muitos outros – foram e são essenciais para que todos possam compreender a realidade à sua volta.

Se um leitor deseja saber as características de determinada fase histórica do Brasil um bom caminho é escolher um cronista da época em questão. Ele costuma ter um olhar crítico para analisar os fatos, sem a vertente didática dos professores. De certa forma, quase como uma matéria jornalística. Até por isso, qualquer jornal que se preze possui cronistas que abordam os temas do momento sem a acuidade obrigatória de uma reportagem.

Com a intolerância e a violência que nos rodeia, o papel do cronista, talvez, seja, neste momento, mais importante do que jamais foi. Vivemos a era do branco e preto, do mau e bom. O cinza se foi, escolher o meio do caminho virou, sabe-se lá porquê, sinal de fraqueza. Cada um interpreta um fato sob sua própria lógica, tornando-se as demais erradas automaticamente.

Ao se deparar com uma notícia, seja na TV, na internet ou no jornal impresso, o cidadão fica perdido frente a tantos fatos. São políticos e empresários presos a cada dia por motivos diversos, exposição cancelada por razões escusas, ataques homofóbicos nas ruas, brigas entre torcidas organizadas, guerra civil no Oriente Médio, etc etc etc. Diante disso, ficam as perguntas: o que está acontecendo, de verdade, com o mundo? Nada mais vale a pena?

Para descomplicar a realidade, provar que nada é tão obscuro assim e que o lado bom ainda pode prevalecer é que os cronistas tornam-se tão importantes. Nessa leva de novos nomes que vem se destacando, um deles ganha cada vez mais destaque: Ruth Manus.

Ruth vive em Lisboa, Portugal, é advogada e colunista de O Estado de S. Paulo. Com texto fácil, mas longe de ser banal, há anos ela vem chamando a atenção de grandes escritores, como Leandro Karnal, Mario Prata e Ignácio de Loyola Brandão. Sua capacidade na elaboração de textos criativos e incisivos para abordar assuntos corriqueiros chama a atenção.

Em sua obra mais recente, Um dia ainda vamos rir de tudo isso, a autora apresenta uma coletânea de crônicas publicadas em seu blog e em jornais, além de escritos inéditos. E, diante da gama de assuntos que podem ser abordados, Ruth, ela mesma uma amante das crônicas, dividiu a publicação em cinco temas: textos sobre a vida moderna; outros sobre sua própria história; outros sobre viagens e transição; outros sobre amores; e outros, para mim a parte mais marcante, sobre causas que ela abraça, defende.

Nesta, que ela chama de Meu Quintal é Maior do Que o Mundo (também título de livro de Manoel de Barros), a cronista trata, sem meias palavras, de temas que têm gerado muita controvérsia nos dias de hoje, como a intolerância política, a homofobia, o feminismo e os padrões estéticos exigidos pela sociedade.

Algumas passagens se destacam, como a situação da mulher em “A incrível geração de mulheres que foi criada para ser tudo o que um homem NÃO quer”; ou a necessidade da aceitação dos homossexuais pelos pais em “Carta aos pais de um filho gay”; ou o feminismo em “E se eu te contar que você é feminista?”; ou a absurda busca pelo modelo físico ideal em “Sobre padrões estéticos e mágoa”.

A honestidade com que Ruth trata das suas próprias inseguranças, como a solidão em Portugal, a saudade dos irmãos, o medo do fracasso e os rompimentos amorosos, também chama a atenção. Mostrar-se como um ser falho e vulnerável a aproxima ainda mais de seus leitores, acostumados a conviver com celebridades perfeitas que possuem os relacionamentos perfeitos, que trabalham no emprego perfeito, que possuem o corpo perfeito e, acima de tudo, que vivem na plenitude.

Um dia ainda vamos rir de tudo isso é daqueles livros de crônicas que nunca ficarão velhos, como muitos que conhecemos de Vinicius de Moraes, Paulo Mendes Campos e Lima Barreto. E antes que alguém ache que a estou comparando com esses autores, nada disso. Cada um com sua escrita e com sua época. Apenas digo que Ruth Manus chegou para ficar e marcar seu lugar entre tantos nomes inesquecíveis da literatura brasileira.

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