A história do Brasil revirada pelo Casseta & Planeta

26 de março de 2018 | por Filipe Isensee

Num trecho de Brasil do Casseta, Marcelo Madureira provoca: “Se você já leu até aqui e ainda tem alguma ilusão de que este país vai dar certo, ‘abandonai toda a esperança’ porque… lá vem o Brasil descendo a ladeira”. O recado está dado. O Brasil redescoberto, recontado e revirado no livro é o Brasil das falhas trágicas. Aqui a história é transformada em comédia de erros. De Cabral a Temer, ou do descobridor ao vampirão, o Casseta & Planeta recostura os fatos e adiciona penduricalhos típicos do humor que tornou o grupo tão conhecido.

Pontuada por palavrões e piadas de conotação sexual, essa reescrita por vezes tem pinta de politicamente incorreta. De qualquer forma, o Brasil é o alvo certo. Quer dizer, o alvo errado: “Se Deus é brasileiro, só pode estar de sacanagem”. Além de Madureira, Beto Silva, Claudio Manoel, Helio de La Peña e Hubert se dividem na criação dos 30 capítulos da farsa tupiniquim. Reinaldo, outro Casseta, é o responsável pelas ilustrações.

Separamos cinco passagens do livro, cada uma escrita por um membro da trupe. É um aperitivo do humor que nos ronda. Às vezes involuntariamente ácido. Nem sempre fica claro quando a desgraça vira graça, mas…

 

1- Partiu, Brasil!

Assim como nos livros tradicionais sobre o tema, a viagem de descobrimento é o ponto de partida dessa reescrita. No princípio era Lisboa. E Lisboa no ano da graça de 1500, segundo nos conta Claudio Manoel, era uma espécie de Nasa de onde “saíam os principais lançamentos”. Pois então, os portugas saíram de lá e chegaram aqui. Entre esses dois pontos distantes, dias e dias e dias de navegação. Você já imaginou as condições da viagem? Ora, pois, imagine: “Imagine cerca de mil e tantos homens suando, trancados em barcos, sem tomar banho, vários passando mal, muitos (ou quase todos) bêbados… Agora imagine os banheiros. Só imaginando mesmo, porque eles não existiam. Então, mesmo com a viagem transcorrendo com tempo favorável, os bons ventos não eram tão bons assim”.

Mesmo com os ventos ruins, após mais de um mês de viagem, descobriram oficialmente o Brasil, que oficialmente ainda não se chamava assim. Apesar da novidade num combo terra+sol+índio, Cabral decidiu ficar só dez dias por aqui. Já imaginou a frustração daqueles homens suados que penaram até o terra à vista? Ora, pois, imagine: “Imagine você, depois de uma viagem desconfortável e interminável, chegar ao sul da Bahia, tudo ainda 100% paradisíaco, séculos antes da chegada da CVC, todo mundo à vontade, peladão… praticamente no zero-oitocentos, tendo, no máximo, dar uns espelhinhos em troca do que precisasse, e o chefe todo estressado porque tinha que concluir a porcaria da missão de continuar até as Índias, com pressa para seguir o caminho do Vasco da Gama (antes que ele caísse, outra vez, para a série B), comunica que, além de a parada ser vapt-vupt, todo mundo tem que ficar nos barcos, no máximo uma saidinha num bote aqui, outra saidinha acolá”.

Achou que seria farra todo dia? No Brasil, na-na-ni-na-não. Um tanto desgostoso, Cabral seguiu seu rumo. A descoberta foi o auge da sua carreira. “Como uma espécie de subcelebridade precoce, Cabral teve seus 15 minutos de fama e mais nada”, compara Claudio Manoel. Pena que na época não existia “A fazenda” para aproveitá-lo…

 

2 – A grande família real 

Outra viagem importante na história, dessa vez a que trouxe a família real ao Brasil. Culpa de uma francesinho metido chamado Napoleão Bonaparte. O sujeito, um cão chupando manga, disse ao rei de Portugal: feche os portos aos navios ingleses (até então, aliados dos lusitanos) ou fuja. Fechar ou fugir? Como os alugueis em Lisboa estavam caríssimos, D. João VI resolveu fugir. O Brasil era a luz no fim do oceano. Diz a lenda recontada agora por Hubert que o monarca “encheu os navios com tudo o que tinha de valor em Portugal e deixou para os pobres apenas algumas lascas de bacalhau com batatas ao murro. Quando o Exército francês chegou a Lisboa, distribuiu ainda mais murros para a faminta população da terrinha”.

Essa mudança fez toda a diferença para o Brasil, que ganhou um upgrade e passou de colônia para país. Que chique, né? Como chique é ser inteligente, outros 12 mil aproveitaram a chance e vieram fugidos de Portugal com a família real. Coube a Joãozinho arranjar uma ocupação para essa galera. Adivinhe qual foi? “Tinha que ser emprego público, para que os nobres lusitanos continuassem a não fazer o que já não faziam em Portugal: trabalhar”.

Não se pode esquecer de uma das figuras mais pitorescas da nossa história, a matriarca dessa grande família: a Nenê-Carlota Joaquina, devassa e maconheira. Ao menos, é o que nos conta Hubert. A princesinha, com aquela fome de larica, comia todos os frangos assados que o maridão pançudo escondia nos bolsos. Um dia, Carlota cansou dessa vidinha e, tal qual a sofredora classe média deseja, se mandou do Brasil. Na despedida, bateu um sapato no outro, e lançou sua famosa frase: “Nem nos calçados quero como lembrança a terra do maldito Brasil”. O humorista, porém, entrega os bastidores da cena: “O que poucos sabem é que, momentos antes de embarcar, Carlota tinha pisado num cocô na rua, já que o saneamento básico só chegaria ao Brasil séculos mais tarde. Aliás, na maior parte do Brasil, não chegou até hoje”.

 

3- Brasil: o império do Carnaval

Claudio Manoel como D. Pedro I (Imagem: Alex Carvalho/TV Globo)

Por causa da novela “Novo Mundo”, recentemente exibida na Globo, há quem possa associar Dom Pedro I a Caio Castro, ator que deu vida ao imperador na trama. No entanto, segundo Marcelo Madureira, esse personagem histórico, na verdade, tem pinta de José Mayer. Olha o que o humorista (re)conta sobre o comportamento lascivo do sujeito: “D. Pedro, guloso, comia de tudo, sem distinção de raça, cor, religião e classe social. D. Pedro era tipo José Mayer. Se ainda fosse imperador, já teria sido processado mais de mil vezes por assédio e ficaria na geladeira da TV Globo. D. Pedro achava que era uma espécie de Adão do Brasil”. O que todo mundo sabe – inclusive quem viu a novela – é que, embora fosse casado com Leopoldina, Pedrinho pulava a cerca com a Marquesa de Santos.

É mole? O de D. Pedro I definitivamente não era.

Seguindo a sina da realeza, D. Pedro I se mandou para Portugal e abdicou do trono em favor do seu herdeiro, o futuro Pedro II ou, para os íntimos, Juninho, então com 4 anos. Ele “ficou sob tutela para assumir o trono quando atingisse a maioridade aos 18 anos, depois de servir no Exército, frequentar a zona e tirar a carteira de motorista. Em compensação, com 39 anos já podia se aposentar no INSS por tempo de serviço”. Precoce!

 

4 – Já Era Vargas

O suicídio de Getúlio Vargas (no dia 24 de agosto de 1954) foi o episódio mais traumático do país depois da derrota na Copa de 1950. Palavras do humoristoriador Helio de La Peña, que lembra: “Em 2014, foi superado pelo trauma do 7×1, quando toda a seleção brasileira se suicidou em campo, ao vivo, com transmissão para o mundo inteiro”. Algum dia vamos esquecer a derrota para Alemanha? De qualquer forma, os mortos continuam mortos, e a morte de Getúlio definitivamente entrou para a história.

Getúlio tinha algumas pedras no sapato, mas talvez nenhuma delas o incomodasse tanto quanto Carlos Lacerda. Para Vargas, seu inimigo era responsável por espalhar fake news sobre seu governo, sobre sua vida… Se Vargas batia no peito (o mesmo que depois receberia um tiro) para se declarar Pai dos Pobres, Lacerda o desdizia: era, na verdade, Mãe dos Ricos. “Até hoje a dúvida continua, já que Getúlio se recusou a fazer o teste de DNA no Programa do Ratinho”. Rapaz, essa cobra fumou na época!

Após o atentado sofrido por Lacerda, a estabilidade de Vargas como presidente foi para o brejo. La Penã sugere como foram as últimas ações do então presidente: “Getúlio bate na mesa e diz: ‘Nem morto saio do Catete’. E subiu as escadarias do palácio. Parou no último degrau, pensou um pouco e corrigiu: ‘Quer dizer, só morto saio da Catete!’. Entrou no seu quarto , suicidou-se e morreu. O resto é história”.

 

5 – Ditadura não é mole, não

“Desde o início da República, em várias ocasiões os militares foram chamados para resolver os problemas do país”. A frase inicial de Beto Silva sobre a tenebrosa época da ditadura, como se sabe, não se restringiu ao passado (alô, intervenção no Rio!!!). Quatro anos depois de tomar o poder, os ditadores decretaram o AI-5. Você sabe o que o AI-5 permitiu que o governo fizesse? O humorista dá cinco opções:

  1. a) O presidente podia fechar a qualquer momento o Congresso e as Assembleias Legislativas.
  2. b) Podia suspender os direitos políticos dos cidadãos a qualquer hora.
  3. c) Decretava a censura prévia de qualquer música, peça, filme ou livro e a censura à imprensa.
  4. d) Suspendia o habeas corpus para os crimes políticos.
  5. e) Todas as sacanagens acima e ainda outras mais.

Resposta certa: tcharãnnnn: e)

Os ganhos da democracia foram soterrados nos anos de chumbo, portanto um general linha dura provavelmente lhe daria a sentença: “Ao chamar as medidas do AI-5 de ‘sacanagens’, você demonstrou uma postura nitidamente subversiva de oposição ao governo militar e, infelizmente, terá que sofrer todas as consequências do AI-5. Resumindo: tá fod***, seu esquerdista desgraçado”.

Humor à parte, não custa reforçar: isso acontecia (e acontece, de outras formas) por aqui.

Como vocês devem ter percebido, o livro não é exatamente um convite à autoestima do Brasil e do brasileiro. Mas nada de abaixar a cabeça. Lembre-se: “Levanta a cabeça, princesa, senão a coroa cai”.

Para reescrever a trajetória do Brasil com as linhas tortas do humor, a trupe primeiro consultou livros mais rigorosos na apuração dos desdobramentos históricos. A Coleção Brasilis, de Eduardo Bueno, e História da riqueza no Brasil, de Jorge Caldeira, estão entre eles.

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