Um dia ainda vamos rir de tudo isso: a leveza em tempos insustentáveis

20 de março de 2018 | por Filipe Isensee

O livro me acompanhou nos últimos dias. Estranhos últimos dias. Estranhos? A palavra diz pouco sobre os últimos dias, embora ainda insista nela. Estava com o livro numa dessas noites de inesperada chuva – eu sei, eu sei: “são as águas de março fechando o verão”. E também na noite de execução de Marielle Franco. Sobre isso, não há canção. Parei a leitura para enveredar, não sem espanto, por outra narrativa, cruel, cruel, cruel. E, sim, estranha. Voltei ao livro dois dias depois. Está escrito na capa amarela: um dia ainda vamos rir de tudo isso. Vamos mesmo? O livro nada tem a ver com a realidade cortante dos estranhos últimos dias, mas a experiência de leitura é estranhamente indissociável disso. Disso que é isso: a vida, às vezes surda, às vezes silenciosa. A ironia do título do livro de capa amarela, agora repousado numa mesinha amarela do meu quarto, me faz pensar o óbvio já dito: sim, estranhos dias esses últimos.

A leitura de Um dia ainda vamos rir de tudo isso tornou a estranheza menos densa. O lançamento no Rio de Janeiro ocorreu no dia seguinte aos assassinatos. A autora cogitou cancelar o evento, mas seguiu adiante e explicou a decisão: “A brutalidade nojenta que silenciou uma mulher forte não pode silenciar ainda mais vozes”.

 

A voz de Ruth Manus

A boa crônica é irresistível e, aqui, transformou o passar das páginas numa obrigação prazerosa. Como nos jornais costuma dividir espaço com o noticiário cáustico, quase sempre ganha a função adicional de provocar leveza, mesmo revirando os escombros de assuntos sérios. Ruth Manus ultrapassa a expectativa.

Ruth Manus no lançamento do livro Um dia ainda vamos rir de tudo isso no Rio de Janeiro

Esse texto, enfim, quer dizer sobre a leveza em tempos insustentáveis.

Antes, já havia me deparado com crônicas da escritora fartamente compartilhadas nas redes. Compartilhar, nesse caso, significava acolher instantaneamente uma voz para dizer o que se sente. Como se deu com “A triste geração que virou escrava da própria carreira”, texto que abre o livro e primeiro dela a pipocar na minha bolha social.

Ao escrever sobre a geração que se achava muito livre, mas não tinha controle sobre o próprio tempo, Manus organizou o que era ventilado nos almoços do trabalho (do meu e de tantos outros, imagino), um rio caudaloso de insatisfação. “Só não percebia que a juventude estava escoando entre os dedos e que o bônus do final do ano não comprariam os anos de volta”, conclui sobre a geração que oscilava entre o sim e o não: “Você dá conta? Sim. Cumpre o prazo? Sim. Chega mais cedo? Sim. Sai mais tarde? Sim. Quer se destacar na equipe? Sim. Mas, para a vida, costumava ser não”.

Uma conhecida escreveu no Facebook: “Faz tempo que não me identifico tanto com um texto”. O texto é de Ruth Manus. O título, autoexplicativo: “Trabalhei muito, dormi pouco, comi mal e me sinto diariamente culpado”. O questionamento, necessário: “Até quando nos julgaremos tão devedores de nós mesmos?”. Outra postou na mesma rede social: “Daquelas leituras que te fazem pensar: ‘Por que não sou eu a autora desse texto?’”. O texto é de Ruth Manus. O título, autoexplicativo: “A geração que encontrou sucesso no pedido de demissão”. O questionamento, necessário: “Será que vamos continuar nos iludindo achando que nossa geração também consegue medir sucesso por conta bancária?”.

Recados mais ou menos parecidos sobre as crônicas de Manus estão espalhados nas páginas de amigos virtuais. A maioria já passou dos 20 e mira os 40 com olhos receosos – parte da turma, a escritora chega aos 30 em 2018. Pergunta a pergunta, ela vai montando o mosaico de peças coloridas e irregulares de uma geração que bate cabeça para se encontrar. O futuro nunca causou tanto medo. “Parece que o tempo vem correndo atrás de nós com uma foice”, ela reforça, reconhecendo-se no nó da questão. Esse movimento é fundamental para entender o poder de suas crônicas.

Ela transita por temas variados – os textos sobre amizade e sobre ser-mulher também repercutiram -, mas reconhece no tempo um fio condutor inerente ao próprio exercício da escrita. A crônica é o testemunho de um sujeito do intenso agora. Mesmo que as frases façam ziguezague entre passado e futuro, é do hoje que se fala.

Manus, claro, não escapa do autorretrato e acumula textos que partem do seu quintal, do seu quarto, do seu mundo para chegar no quintal, no quarto e no mundo de outras pessoas. As palavras dela existem como resultado de sua vivência e a identificação com essa experiência, lapidada em ideia-escrita, talvez seja o maior elogio à jovem cronista. Certamente, outros muitos compartilhamentos virão.

Me pergunto o que Manus vai escrever sobre esses estranhos últimos dias… Que não nos falte voz.

 

Coletânia 

O livro é uma coletânea de textos publicados no Estadão e no Observador, de Portugal, e traz outros tantos inéditos. Abaixo, alguns trechos :

 

Parem com essa bobagem de querer ter sucesso

“Então às vezes nós temos que parar e nos perguntar: para quem estamos construindo as nossas vidas? Para quais olhares estamos direcionando nossas imagens? Para os nossos ou para os dos outros? Será que não estamos dedicando tempo demais às aparências e será que um dia isso não vai nos custar muito caro? Porque, no fim das contas, os cargos se vão, o prestígio se vai e só o que resta é a opinião que nós mesmos temos sobre a estrada percorrida”.

 

O alto preço de viver longe de casa

“A vida de quem inventa de voar é paradoxal, todo dia. É o peito eternamente divido. É chorar porque queria estar lá, sem deixar de querer estar aqui. É ver o céu e o inferno na partida, o pesadelo e o sonho na permanência. É se orgulhar da escolha que te ofereceu mil tesouros e se odiar pela mesma escolha que te subtraiu outras mil pedras preciosas”.

 

A incrível geração de mulheres que foi criada para ser tudo que um homem NÃO quer

“No fim das contas a gente não é nada do que o inconsciente coletivo espera de uma mulher. E o melhor: nem queremos ser. Que fique claro: nós não vamos andar para trás. Então essa mentalidade é que vai ter que andar para frente. Nós já nos abrimos pra ganhar o mundo. Agora é o mundo que tem que se virar pra ganhar a gente de volta”.

 

Carta aos pais de um filho gay

“Eu não vou dizer que vocês, pais de filhos gays, não tenham razão para se preocupar. Têm, sim. Todos os pais têm. Preocupar-se é a mais natural das características dos pais. Preocupam-se com a nossa alimentação, com os nossos agasalhos, com nossos estudos e, sobretudo, com a forma como as pessoas que povoarão nosso caminho nos tratarão. E, sim, nesse ponto eu entendo a preocupação dos pais de um filho gay. Porque tem muito imbecil por aí. Mas o mais importante é que os primeiros imbecis desse caminho não sejam os próprios pais dessa pessoa”.

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