A mais breve história da Europa

13 de março de 2018 | por Editora Sextante

Na Renascença, eruditos e escritores achavam que a arte, a literatura e os ensinamentos da Grécia e de Roma poderiam talvez ser igualados, mas jamais superados. Por isso os rotularam de clássico: o que há de melhor. Durante dois séculos os homens debateram comparando as conquistas dos antigos com as dos modernos. O debate foi resolvido no século XVII, quando se demonstrou que a ciência grega estivera errada quanto ao Sol, à Terra, aos planetas e às estrelas. Dali em diante, houve menos reverência aos clássicos e mais esperança naquilo que nós, modernos, poderíamos realizar. Mas em alguns campos nosso ponto de partida ainda são os escritores greco-romanos. Quando olhamos para esses gigantes, ainda é possível ter aquela “sensação clássica”.

Os três grandes filósofos de Atenas – Sócrates, Platão e Aristóteles – ainda são poderosas forças da filosofia. Costuma-se dizer que toda a filosofia ocidental é uma nota de rodapé na filosofia de Platão. Os três estavam intimamente conectados. Platão registrou as palavras de Sócrates, que filosofava mediante debates com seus colegas; Aristóteles foi pupilo de Platão.

Sócrates não alegava estar ensinando a verdade. Ele estabeleceu o método para alcançá-la, que consistia fundamentalmente em questionar tudo, não aceitar nada por seu valor nominal e presumir que uma simples opinião não tem fundamento racional. Sócrates fazia uma pergunta simples: “O que é um homem bom?” Um de seus colegas daria uma resposta, que Sócrates demonstraria conter uma grande lacuna. Em seguida, o mesmo homem, ou outro qualquer, faria outra tentativa – dessa vez mais cuidadosa. Haveria mais questionamentos e mais refinamentos nas respostas. Sócrates acreditava que, se sua mente se mantivesse clara e afiada, você conseguiria chegar à. verdade. Não teria que ir buscá-la lá fora ou fazer pesquisa. A verdade existe; você tem de educar a mente para captá-la.

Esse método ainda carrega seu nome: o método socrático. É o que se pretende que seja usado em seminários universitários, nos quais o tutor, ou instrutor, não está lá para ditar a lei, mas para ajudar os estudantes a pensar com clareza e para conduzir um debate frutífero. Portanto, pode haver um diálogo como este:

Tutor: Amanda, o que é revolução?
Amanda: A derrubada de um governo pela força.
Tutor: E se um estado for governado por um rei, e o irmão do rei o derruba e se torna o rei em seu lugar? Isso é uma revolução?
Amanda: Ah, não!
Tutor: Assim, nem todos os casos em que se usa a força para mudar um governo são revoluções?
Amanda: Bem, não. Não todos os casos.
Tutor: Então, o que mais é preciso, além do uso da força, para fazer uma revolução?

Há uma pegadinha nesse método. Pessoas inteligentes podem se dar bem com ele sem precisar ter muitos conhecimentos.

Sócrates, Platão e Aristóteles viveram em Atenas quando ela era uma democracia, nos séculos V e IV a.C. Todos eram críticos da democracia, e Sócrates entrou em rota de colisão com a Atenas democrática. Foi julgado por ignorar os deuses e corromper a moral dos jovens. Defendeu-se dizendo que não insistia com ninguém para que adotasse sua opinião, apenas questionava as pessoas para que elas encontrassem as razões das próprias crenças. Foi declarado culpado por um júri de 501 cidadãos, mas o resultado foi apertado. Em seguida, o júri teve que decidir qual pena seria imposta. A acusação pediu a pena de morte. A essa altura, supunha-se que o réu começasse a se desculpar, alegasse ter mulher e filhos e pedisse clemência. Sócrates recusou-se a rastejar. “Qual deveria ser a pena cabível a um indivíduo que tenha estimulado alguém a desenvolver seu bem-estar mental e moral? Talvez uma pensão vitalícia! Vocês podem até me banir da cidade, mas eu poderia fazer a mesma coisa na cidade seguinte. Onde quer que eu esteja, não posso viver sem questionar. Uma vida sem avaliação constante não merece ser vivida. Vocês poderiam impor uma multa, mas tenho muito pouco a oferecer; não sou um homem rico.” Os seguidores de Sócrates, que já estavam ficando desesperados, se puseram de pé num salto e se ofereceram para pagar uma multa substancial. Mas, sem muita comoção, o júri optou pela pena de morte.

Geralmente, em Atenas as execuções eram imediatas, mas essa foi adiada devido a um festival religioso. Sócrates podia ter fugido, e as autoridades provavelmente gostariam que ele tivesse feito isso, mas ele rejeitou essa opção. “Por que tanto tumulto para me agarrar a uma vida que não posso viver para sempre?”, questionou ele. “O objetivo não é viver, mas viver bem. Tive uma boa vida sob as leis de Atenas e estou pronto para aceitar minha pena.” Ele se manteve muito filosófico até o fim. Quando o livraram das correntes, comentou quão próxima a dor está do prazer.

A execução seria bebendo um veneno chamado cicuta até o fim do dia. Seus colegas lhe imploraram que adiasse o máximo possível, pois o sol ainda não estava todo atrás das montanhas. Sócrates respondeu que faria um papel ridículo caso se agarrasse à vida. Bebeu o veneno com toda a calma, sem demonstrar desagrado, nem mesmo ao gosto. A cicuta mata muito rapidamente.

Acabei de contar a história da morte de Sócrates de um modo que demonstra simpatia pelo filósofo. Será possível contar a história de modo que você simpatize com a acusação? O filho do promotor tinha assistido aos debates filosóficos de Sócrates e se tornara um bêbado renegado. O acusador não estaria com a razão ao dizer que Sócrates era perigoso? Se tudo é questionado, a pessoa perde suas referências, sua postura. Não é possível viver apenas pela razão; é preciso haver costumes, hábitos, religião para dar uma orientação aos indivíduos e possibilitar a vida em sociedade.

É um caso no qual fica difícil argumentar. Em nossa cultura, existe um viés em favor de Sócrates. Nem sempre foi assim, mas o relato que Platão fez de sua morte sobreviveu para fazer dele o santo padroeiro do questionamento.

Platão ainda é o ponto de partida para uma questão central da filosofia: será que tudo aquilo que experimentamos com nossos sentidos é um guia verdadeiro para conhecer a realidade? Platão acreditava que o que vemos e experimentamos no mundo é apenas uma nebulosa representação do que existe em sua forma perfeita num outro reino sublime, espiritual. Temos mesas comuns aqui, mas também há mesas perfeitas em outro lugar. Mesmo conceitos abstratos, como os do bem e do mal, existem numa forma perfeita em outro lugar. Os humanos vieram desse reino; agora, no exercício de sua mente e de seu espírito, têm de redescobri-lo. Platão é o grande filósofo idealista: rejeitou a narrativa materialista do mundo.

Platão sabia que pessoas presas ao senso comum rejeitariam seus ensinamentos. Para elas, tinha uma resposta ainda hoje poderosa. Imagine um grupo de pessoas acorrentadas na frente de uma caverna. Não podem ver o que existe atrás delas, só olhar para dentro da cavidade. Atrás delas há uma estrada elevada e, mais além dela, uma grande fogueira, que ilumina o interior da caverna. Quando pessoas, animais e carroças passam pela estrada, projetam sombras na parede ao fundo da caverna, pois estão bloqueando a luz da fogueira. As pessoas acorrentadas verão apenas as sombras. Vão dar-lhes nomes e discutir sobre elas; vão racionalizar sobre elas; vão pensar que essas sombras são a realidade. Então, afaste uma pessoa da caverna e leve-a para o ar livre. No início ela ficará ofuscada pela luz, depois se sentirá confusa e surpresa com as cores e com objetos de três dimensões. “Mas lá embaixo pensávamos…”, dirá. Sim, lá embaixo ela não era capaz de ver a verdade.

Aristóteles, discípulo de Platão, foi o grande sistematizador do conhecimento sobre o mundo natural e o Universo, tanto no reino da Terra quando no dos céus. Na Revolução Científica do século XVII, seu ensinamento de que a Terra era o centro do Universo foi derrubado. No entanto, as regras de Aristóteles sobre como pensar com clareza subsistem.

Ele nos deu o silogismo, uma declaração em três partes que começa com duas premissas (uma afirmativa generalizada e outra específica) e delas tira uma conclusão. Eis um exemplo:

Todos os gatos têm quatro patas.
Milligan é um gato.
Portanto: Milligan tem quatro patas.

A conclusão está correta? Para que um silogismo tenha uma conclusão correta, as duas premissas têm de ser verdadeiras e a argumentação que leva à conclusão precisa ser válida. Nesse caso, gatos realmente têm quatro patas e digamos que Milligan seja um gato. Assim, as premissas são verdadeiras. Mas a argumentação é válida? Sim – se Milligan é um gato, e se todos os gatos têm quatro patas, Milligan realmente deve ter quatro patas. Mas eis uma argumentação errada sobre Milligan:

Todos os gatos têm quatro patas.
Milligan tem quatro patas.
Portanto: Milligan é um gato.

A conclusão é incorreta, mesmo as premissas sendo verdadeiras, porque não há uma conexão clara entre Milligan e os gatos (ele poderia muito bem ser um cão). A argumentação não é válida porque não está dito nas premissas que todos os animais de quatro patas são gatos, até porque isso não é verdade. É possível ter um argumento válido mas uma conclusão incorreta; isso aconteceria se uma das premissas não fosse verdadeira. Por exemplo:

Todos os gatos são pretos.
Milligan é um gato.
Portanto: Milligan é preto.

A argumentação é válida, mas a conclusão é incorreta porque a primeira premissa não é verdadeira. Existem regras formais para identificar e nomear todas as maneiras pelas quais um silogismo pode incorporar um raciocínio falso. Dá para ver por que se diz que os gregos nos ensinaram a pensar racionalmente.

As origens da medicina ocidental moderna remontam aos gregos, particularmente a Hipócrates, que viveu em Atenas durante a Era de Ouro, o século V a.C. Seus escritos sobreviveram, embora quase com certeza sejam uma compilação de diversos autores trabalhando segundo seus métodos e princípios. Hipócrates usou a razão para compreender a doença pressupondo que ela tinha causas naturais e com isso isolando-a de magia, feitiçaria e intervenção divina. Fez um estudo meticuloso da evolução de várias doenças e das circunstâncias nas quais as pessoas são acometidas por elas.

Tentando enxergar padrões na ocorrência das doenças, ele foi, na verdade, o primeiro epidemiologista. Impôs aos médicos a rigorosa obrigação de serem pessoas de alto padrão moral e discretas, comprometidas com o bem-estar de seus pacientes. De fato, seu trabalho definiu a profissão da medicina. Em alguns paéses, até hoje formandos em medicina fazem o juramento que ele desenvolveu e que leva seu nome: o juramento de Hipócrates. Por acaso, seus termos revelam qual era a situação da medicina na época dele:

O procedimento que vou adotar seré em benefício dos pacientes, de acordo com minha aptidão e meu julgamento, e não para prejudicá-los ou para qualquer coisa errada. Não lhes darei drogas mortais, mesmo que me peçam, nem os aconselharei a tomá-las, e sobretudo não ajudarei mulher que buscar o aborto. Em qualquer casa que eu venha a entrar, será para o benefício dos doentes e me esquivarei de malfeitos e de corrupção, especialmente qualquer ato de sedução, de homem ou mulher, de pessoa livre ou de servos. Do que quer que veja e ouça concernente à vida das pessoas, no exercício de minha profissão ou fora dela, e que não convém que seja divulgado, guardarei silêncio, considerando essas coisas segredos sagrados. Manterei minha vida e minha arte puras e santas.

Mas Hipócrates também legou à medicina ocidental o fardo de um grande erro que se originou da busca dos gregos pela simplicidade. Ele pensou que a saúde do corpo dependia do equilíbrio correto entre quatro elementos, ou humores: sangue, fleuma, bile amarela e bile preta. Até o século XIX esse conceito justificava a aplicação de sanguessugas quando se achava que o excesso de sangue era a causa de determinada doença. Nesse aspecto, Hipócrates foi considerado um clássico por tempo demais.

Os gregos foram superiores aos romanos em quase todos os ramos do conhecimento, mas não nas leis. O direito romano se desenvolveu de forma orgânica, com os vereditos dos juízes e os comentários de especialistas tornando-se parte da lei constituída. Embora os romanos fossem mais “pé no chão” do que os gregos, seu pensamento jurídico tinha mais do que um simples toque do idealismo grego. Quando examinavam as leis dos países que conquistavam, os romanos procuravam descobrir o que havia de comum entre elas – em quê todos concordavam que deveria ser a lei? Essa linha de investigação levou à noção de que existe uma lei natural – a lei em sua forma perfeita – que deveria ser usada para aprimorar as leis de qualquer sociedade e não poderia ser desconsiderada por nenhuma sociedade que tivesse compromisso com a justiça.

O compêndio mais completo da lei romana foi reunido no século VI por ordem do imperador Justiniano, que governou o Império Romano do Oriente, que sobrevivera ao ataque dos germânicos. Redescoberto no século XI, o código de Justiniano teve enorme influência. Um pouco menos na Inglaterra, onde uma lei comum própria já estava bem estabelecida, mas a lei inglesa para contratos foi influenciada pelo código. Eis, a seguir, duas questões relacionadas a contratos.

Considere um contrato de arrendamento. Se um cavalo arrendado for roubado, qual é a responsabilidade de quem o tomou arrendado? Resposta: ele tem de pagar pelo cavalo ao proprietário, porque deveria ter tomado conta dele. (Não consideramos aqui a hipótese de um seguro, pois os romanos não tinham isso.) Caso o cavalo fosse roubado com uso de violência, o arrendatário não seria responsável. Ele não teria de correr perigo para proteger o cavalo de outrem. Mas, se o arrendatário tivesse ficado com o cavalo além do prazo de arrendamento, seria responsável pela perda mesmo que o cavalo fosse roubado com uso de violência.

Agora, considere um ourives escolhido para fazer um anel. Isso é um contrato de venda do anel ou um contrato de aluguel do serviço do ourives? As regras que se aplicam a cada caso são diferentes. Se o cliente forneceu o ouro, o contrato é de aluguel do serviço do ourives. Se o ourives forneceu o ouro, o contrato é de venda do anel. Pode-se ver como a lei era abrangente e detalhada e perceber a determinação de seus compiladores em estabelecer princípios justos em toda a variedade das transações humanas. Podemos escolher agir de forma diferente, mas saberemos que qualquer problema que surja já foi considerado. Ante esse grande edifício intelectual – obra de muitas mentes ao longo de séculos –, nós nos sentimos pequenos. Esse é o toque do clássico.

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