Cinco vencedores do Oscar para ver (ou rever) antes de morrer

2 de março de 2018 | por Filipe Isensee

O Oscar, vejam só, chega a nonagésima edição às voltas com problemas do século passado: mulheres exigindo o óbvio, desviando-se dos assédios e conclamando por igualdade de salários. Todas as festas antes da grande festa levantaram a bandeira e uniram cinema e feminismo. O traje, a rigor, foi preto, cor do luto, da luta, da moda e do protesto que não deve sair de moda tão cedo. O prêmio – este virou moda tão logo foi criado, em 1927 – se mantém dourado. Dourado, careca e ereto. Suas medidas são mínimas se comparadas à (falsa) máxima que promete glória eterna ao vencedor: 33 centímetros espalhados num falso corpo magricelo de quase quatro quilos. O bicho tem peso, acreditem. A grande obesidade atestada por seu Índice de Massa Corporal (IMC) não me deixa mentir. A despeito disso, uma nova leva de artistas vai encontrar no circunspecto e calvo Oscar motivo para alegrias instantâneas e decepções camufladas. Pena que ele não fala. É domingo. Já fez o bolão?

Numa oportuna sintonia, a cerimônia traz dois filmes protagonizados por mulheres na linha de frente: “A forma da água” e “Três anúncios para um crime”. O primeiro se vale de personagens desajustados para narrar um conto de fadas às avessas, belamente melancólico e de violência iminente. É preciso pôr os pés na fantasia e se molhar na mesma água que seus anti-heróis para apreciar o amor entre uma faxineira muda e uma misteriosa criatura aquática, estranhos que se reconhecem e trocam solidões. O segundo fala de justiça e intolerância, culpa e perdão, ecoa esse tempo estranho de agora. Quem sabe por isso o humor negro lhe caía tão bem. Na história, uma mãe instiga a polícia a encontrar o responsável por estuprar e matar sua filha após meses de espera e silêncio. Ela aluga outdoors, enfrenta a cidadezinha onde mora, agride pré-adolescentes, faz piada, dá lição de moral no padre etc. Essa jornada, com mais sarcasmo que faz-de-conta, é a atual favorita. Teremos surpresa? Com a confusão do ano passado – quando uma troca de envelopes fez “La La Land” ser anunciado o melhor filme para em seguida ser destronado por “Moonlight” – é melhor ter cautela.

Emma Stone e Ryan Gosling – protagonistas de La La Land

O fato é que, para além do ouro, existe o tempo. Se a lista dos vencedores do Oscar de melhor filme é interessante, a dos perdedores então… Não se pode esquecer que essa é uma celebração da indústria norte-americana, com destaque óbvio para produções de língua inglesa. Os estrangeiros ficam sempre melhor na plateia. Sem ressentimento, ok? De qualquer forma, deve existir mesmo alguma matemática, alquimia, quiçá, filosofia que cristalize certas histórias e deixe outras, antes aparentemente tão urgentes, sob a poeira do esquecimento. Basta lembrar que “Cidadão Kane” (1941) e “Um corpo que cai” (1958), que ocupam sempre as primeiras posições nas listas com os supostos melhores longas de todos os tempos, não receberam a estatueta principal – “Kane”, é verdade, foi indicado a nove categorias e levou a de roteiro original. Charles Chaplin, Stanley Kubrick e Alfred Hitchcock – perpetuamente citados para ressaltar as injustiças da premiação – nunca ganharam o Oscar como diretores, mas venceram o tempo. Estão definitivamente na história e, nela, permanecem vivos.

Outros laureados também se firmaram como clássicos, mais ou menos populares a depender da geração do espectador, ocupando espaço na cultura e – mais importante ainda – na memória de quem viu, vê e não se cansa de rever e redescobrir. Abaixo, cinco deles. Todos foram incluídos entre os 1001 filmes para ver antes de morrer, da Sextante.

 

“Casablanca” (1942)

O reencontro com o amor do passado e a impossibilidade de concretizá-lo. “Casablanca” é isso também, mas não só. Os mais de 70 anos de seu lançamento não ameaçaram sua popularidade. Ao contrário. Esse melodrama romântico passado na Segunda Guerra se mantém como um dos mais queridos filmes de Hollywood. A canção “As times goes by” é prontamente saudosa: nos leva ao Marrocos, a Ilsa (Ingrid Bergman), à casa noturna comandada por Rick (Humphrey Bogart). O longa “conta com mais atores cult, falas passíveis de citação, clichês instantâneos e descaramento hollywoodiano do que qualquer outro da era de ouro do cinema”, ressalta a crítica Kim Newman. “Sempre teremos Paris”, “Beije-me como se fosse a última vez”, “Isso é o começo de uma grande amizade”. “Casablanca” tem também essas frases de efeito, mas não só.

Prêmios no Oscar: ganhou três das oito indicações: melhor filme, diretor e roteiro adaptado. Na cerimônia daquele ano, Ingrid Bergman foi nomeada entre as atrizes, mas por seu trabalho em “Por quem os sinos dobram” (1943).

Cena do filme “Casablanca”

 

“O poderoso chefão” (1972)

O princípio do épico concebido por Francis Ford Coppola, roteirista e diretor à frente de outras obras-primas da década como “A conversação” (1974) e “Apocalypse now” (1979), além de “O poderoso chefão: Parte II” (1974). É o filme de máfia definitivo, embora vá muito além de um filme de máfia. Instalado confortavelmente entre os clássicos, é cercado de elogios por todos os lados. Não sem motivo. “Coppola fez uma ópera sobre gângsters no estilo pulp fiction, uma epopeia sobre o patriarcado, a família e a própria América”, define a editora e crítica Angela Errigo no livro. Cenas emblemáticas se sucedem ao longo de três horas, com falas marcantes do princípio ao fim, como aquela dita por Don Corleone (Marlon Brando, extraordinário) ainda no começo: “Vou fazer uma oferta que ele não pode recusar”. Quem recusaria?

Prêmios no Oscar: melhor filme, ator e roteiro adaptado. Além disso, recebeu outras sete indicações – na maioria, foi derrotado pelo musical “Cabaret”, de Bob Fosse.

Marlon Brando em “O poderoso chefão”

 

“Noivo neurótico, noiva nervosa” (1977) 

Para variar, a tradução é esquisita e nada tem a ver com a atmosfera do filme, escrito, dirigido e estrelado por Woody Allen. Vamos ao título original: “Annie Hall”. Annie Hall é Diane Keaton (ou Diane Hall, nome de nascimento da atriz). Hall e Allen tiverem um trelelê no passado e se mantiveram unidos pelo afeto desde então. A comédia traz muito desse carinho genuíno que explode em cena. É um filme cool e charmoso, com diálogo espertos que permanecem com o espectador após os créditos. Woody faz o habitual sujeito em crise e narra o relacionamento que teve com a personagem de Diane, uma cantora em início de carreira. Numa de suas cenas marcantes, ela canta “Seems like old times” e recebe pobres aplausos. “Possivelmente o filme mais honesto de Allen, é também (ironicamente, considerando que seu tema é a imaturidade emocional), o mais maduro”, pontua a crítica Karen Krizanowich.

Prêmios no Oscar: levou quatro das cinco indicações: melhor filme, diretor, atriz e roteiro original. Apenas Allen ficou sem a estatueta de melhor ator. Na categoria principal, “Annie Hall” venceu obras como “A garota do adeus” e “Guerra nas estrelas”.

Diane Keaton e Woody Allen

 

“O silêncio dos inocentes” (1991) 

Numa pesquisa feita pelo American Film Institute (AFI), Hannibal Lecter foi considerado o maior vilão da história do cinema. Não deixa de ser curioso, pois o personagem fica apenas 16 minutos em cena. A presença ameaçadora denunciada nos frios olhos azuis e na fala pausada, contudo, toma conta do filme e o extrapola. Anthony Hopkins reviveu o personagem em outras ocasiões, mas sem alcançar as notas sombrias do longa de Jonathan Demme. Para enfrentá-lo, uma heroína à altura, encarnada por Jodie Foster com brilho. O primeiro encontro entre a agente Clarice Starling e Hannibal na prisão é um dos momentos mais fascinantes da narrativa, que desenvolve o suspense (a sensação de medo) até a derradeira cena. “Deixa um arrepio contínuo na espinha sem nunca recorrer à sanguinolência”, confirma a editora e crítica Joanna Berry.

Prêmios no Oscar: levou as cinco estatuetas principais da cerimônia: melhor filme, diretor, ator, atriz e roteiro (adaptado). Apenas outros dois longas conseguiram o mesmo feito: “Aconteceu naquela noite” (1934) e “Um estranho no ninho” (1975).

Hannibal Lecter

 

“Titanic” (1997)

Único da lista que vi no cinema na época da estreia. Lembro de olhar o cartaz e ler “do mesmo diretor de ‘Aliens – O resgate’ e ‘O Exterminador do Futuro’”. Sabia quase nada sobre o filme, mas a imagem sugerindo um romance não conversava com referências a êxitos de ação/ficção científica. O que era “Titanic”, afinal? Entrei na sala sem saber. A superprodução possui espantoso esmero técnico, destacado na recriação do navio que nem Deus poderia afundar. “O romance proibido é o coração do filme. Cameron abusa dos efeitos especiais para mostrar de maneira realista o horror que está por vir”, descreve o livro. Às vésperas do lançamento, era dado como certo que o filme teria destino parecido ao transatlântico. Incansável, James Cameron subverteu o jogo ao capitanear um fenômeno. Tornou-se a maior bilheteria da história – foi superado depois por “Avatar” (2010), do mesmo diretor. O rosto de Leonardo DiCaprio estampou quantas revistas foram possíveis, resultado de um delírio coletivo. Kate Winslet saiu dali para ser alçada ao posto de atriz mais talentosa de sua geração.

Prêmios no Oscar: “Titanic” é recordista de indicações – 14, ao lado de “A Malvada” (1950) e “La La Land” (2016) – e de vitórias – 11, assim como “Ben Hur” (1959) e “O Senhor dos Anéis – O retorno do rei” (2003). Levou melhor filme, diretor e várias categorias técnicas.

Leonardo DiCaprio e Kate Winslet em “Titanic”

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