A coragem de não agradar

27 de fevereiro de 2018 | por Editora Sextante

Admitir o erro não é derrota

Jovem: Então o que fazer quando alguém começa a disparar ataques pessoais? Apenas sorrir e aturar?

Filósofo: Não, a ideia de que você está “aturando” prova que continua preso à luta pelo poder. Quando for desafiado para uma briga e sentir que é uma luta pelo poder, saia do conflito o mais rápido possível. Não responda à ação do outro com uma reação. É a única coisa que podemos fazer.

Jovem: Mas será que é tão fácil assim não reagir à provocação? Em primeiro lugar, como você diria que eu devo controlar a raiva?

Filósofo: Quando você controla a raiva, você a está “aturando”, entende? Em vez disso, vamos descobrir um meio de resolver as coisas sem usar a emoção da raiva. Porque, afinal, a raiva é uma ferramenta. Um meio de atingir uma meta.

Jovem: Essa é uma lição bem difícil de aprender.

Filósofo: Primeiro, quero que você entenda que a raiva é uma forma de comunicação, e que é possível se comunicar sem usar a raiva. Podemos transmitir nossos pensamentos e intenções e ser aceitos sem necessidade de usar a raiva. Se você aprende a fazer disso uma prática, automaticamente a emoção da raiva deixa de aparecer.

Jovem: E se alguém fizer falsas acusações ou comentários insultuosos contra mim? Mesmo assim eu não deveria ficar irritado?

Filósofo: Acho que você ainda não entendeu. Não é que você não deva se irritar, só que não há necessidade de recorrer à ferramenta da raiva. Pessoas geniosas não têm pavio curto – apenas não sabem que existem ferramentas de comunicação eficazes diferentes da raiva. Por isso acabam dizendo coisas como “Eu estourei” ou “Ele teve um acesso de raiva”. Acabamos contando com a raiva para nos comunicarmos.

Jovem: Ferramentas de comunicação mais eficazes do que a raiva…

Filósofo: Dispomos da linguagem. Podemos nos comunicar por ela. Acredite no poder da linguagem e na linguagem da lógica.

Jovem: Se eu não acreditasse, com certeza não estaríamos tendo este diálogo.

Filósofo: E tem mais uma coisa sobre as lutas pelo poder: em qualquer situação, por mais que você ache que tem razão, tente não criticar a outra parte com base nisso. Muitas pessoas caem nessa armadilha dos relacionamentos.

Jovem: Por que não devo fazer isso?

Filósofo: No momento em que alguém se convence de que está certo em um relacionamento, já entrou numa luta pelo poder.

Jovem: Só porque você pensa que tem razão? Claro que não, isso é distorcer os fatos.

Filósofo: Quando eu afirmo que tenho razão, estou comunicando à outra pessoa que ela está errada. Nesse ponto, o foco da discussão muda da “correção das afirmações” para “o estado do relacionamento interpessoal”. Em outras palavras, a convicção de que você tem razão leva ao pressuposto de que a outra pessoa está errada. Daí surge uma disputa, e você pensa: Tenho que vencer. É uma luta pelo poder.

Jovem: Humm…

Filósofo: Em primeiro lugar, corrigir alguém não tem nada a ver com vencer ou perder. Se você acha que tem razão, seja qual for a opinião da outra pessoa, a questão deve se encerrar imediatamente. O problema é que, a partir daí, muitas pessoas começam uma luta pelo poder e tentam obrigar o outro a se submeter a elas. Por isso acham que “admitir um erro” é “admitir uma derrota”.

Jovem: Sim, isso é um fato.

Filósofo: Devido à mentalidade de não querer perder, a pessoa é incapaz de admitir o erro, por isso acaba escolhendo o caminho errado. Admitir erros, pedir desculpas, se afastar de lutas pelo poder – nada disso é derrota. Não se busca a superioridade competindo com outras pessoas.

Jovem: Então, quando você está obcecado por vencer, perde a capacidade de fazer as escolhas certas?

Filósofo: Sim. Isso reduz sua capacidade de julgamento, e tudo que você consegue ver é a vitória ou a derrota. Aí pega o caminho errado. Para começar a corrigir nossos erros e mudar de verdade, é preciso parar de pensar que tudo é competição, uma questão vencer ou perder.

 

Não viva para satisfazer as expectativas dos outros

Filósofo: O reconhecimento alheio é algo que deve causar satisfação. Mas é errado dizer que ser reconhecido é absolutamente necessário. Antes de tudo, para que alguém busca reconhecimento? Ou, para ser sucinto, por que alguém quer ser elogiado pelos outros?

Jovem: É simples. É sendo reconhecido que você sente que tem valor. É pelo reconhecimento dos outros que você se torna capaz de eliminar os sentimentos de inferioridade. Você aprende a ter autoconfiança. Sim, é uma questão de valor. Acho que você mencionou da última vez que o sentimento de inferioridade é uma questão de julgamento de valor. Como nunca obtive o reconhecimento dos meus pais, vivi uma vida contaminada por sentimentos de inferioridade.

Filósofo: Imagine um ambiente familiar. Digamos que você vem limpando a sujeira da rua em torno do prédio onde trabalha. O fato é que ninguém parece perceber. Ou, se percebe, ninguém mostrou reconhecimento pelo que você fez, nem mesmo disse uma palavra de agradecimento. Você continua recolhendo o lixo?

Jovem: Essa é uma situação difícil. Acho que, se ninguém reconhece o que estou fazendo, eu poderia parar.

Filósofo: Por quê?

Jovem: Recolher o lixo é uma atitude que beneficia a todos. Se eu fizesse isso mas não recebesse nenhuma palavra de agradecimento, provavelmente perderia a motivação.

Filósofo: Esse é o perigo do desejo de reconhecimento. Por que as pessoas buscam o reconhecimento das outras? Em muitos casos, isso é fruto da influência da educação baseada em recompensas e punições.

Jovem: Educação baseada em recompensas e punições?

Filósofo: Se você realiza a ação apropriada, é elogiado. Se realiza a ação imprópria, é punido. Adler era um grande crítico desse tipo de educação. Ela leva a estilos de vida equivocados, em que as pessoas pensam: Se ninguém vai me elogiar, não vou fazer a ação apropriada e Se ninguém vai me punir, vou me envolver em ações impróprias. Quando começa a recolher o lixo, você já tem a meta de querer receber elogios. E, se não for elogiado por ninguém, vai ficar indignado ou decidir nunca mais fazer a boa ação. Claramente existe algo errado nessa situação.

Jovem: Não! Por favor, não banalize as coisas. Não estou discutindo sobre educação. É normal querer obter reconhecimento das pessoas de quem você gosta, ser aceito pelas pessoas à sua volta.

Filósofo: Você está redondamente enganado. Veja bem, não vivemos para satisfazer as expectativas dos outros.

Jovem: Como assim?

Filósofo: Você não vive para satisfazer as expectativas das outras pessoas, nem eu. Isso não é necessário.

Jovem: Que argumento egoísta! Você está dizendo que as pessoas devem pensar apenas em si mesmas e viver uma vida de hipocrisia?

Filósofo: Nos ensinamentos do judaísmo existe um pensamento que diz mais ou menos o seguinte: se você não está vivendo a vida para si, quem irá vivê-la por você? Em última análise, vivemos pensando no “eu”. Não há motivo para não pensarmos assim.

Jovem: Você está sofrendo do veneno do niilismo. Está dizendo que vivemos pensando no “eu” e que isso está certo? Que maneira triste de pensar!

Filósofo: Não é niilismo coisa nenhuma. Pelo contrário. Quando você busca o reconhecimento alheio e só se preocupa com o julgamento que vão fazer de você, acaba vivendo a vida das outras pessoas.

Jovem: Pode explicar melhor?

Filósofo: Quando você deseja muito ser reconhecido, acaba vivendo para satisfazer as expectativas das pessoas que querem que você seja isso ou aquilo. Em outras palavras, você joga fora quem realmente é e vive a vida alheia. E lembre-se: se você não vive para satisfazer as expectativas dos outros, as pessoas não vivem para satisfazer as suas. Alguém pode não agir do modo que você gostaria, mas você não deve se irritar com isso. É natural.

Jovem: Não, não é! Esse argumento subverte as bases da nossa sociedade. A verdade é que nós temos o desejo de reconhecimento. Mas, para sermos reconhecidos, primeiro temos que reconhecer o outro. É reconhecendo as pessoas e outros sistemas de valores que somos reconhecidos. É com base nessa relação que nossa sociedade se forma. Seu argumento é uma forma de pensar detestável, perigosa, que leva o ser humano ao isolamento e ao conflito. É uma solicitação diabólica que estimula a desconfiança e a dúvida desnecessariamente.

Filósofo: Você tem um vocabulário interessante. Não precisa elevar a voz – vamos pensar juntos. Você tem que obter reconhecimento, senão vai sofrer. Se não obtiver o reconhecimento dos outros e dos próprios pais, não terá autoconfiança. Uma vida assim pode ser saudável? Alguém pode pensar: Deus está observando, portanto devo acumular boas ações. Mas esta visão e a visão niilista de que “Deus não existe, logo todas as más ações são permitidas” são dois lados da mesma moeda. Mesmo supondo que Deus não exista e que não seja possível obter o reconhecimento divino, continuaríamos tendo de viver esta vida. Na verdade, é para superar o niilismo de um mundo sem Deus que precisamos negar o reconhecimento das outras pessoas.

Jovem: Não me interessa esse papo sobre Deus. Pense de forma mais direta e objetiva sobre a mentalidade das pessoas reais, no dia a dia. E quanto ao desejo de ser socialmente reconhecido, por exemplo? Por que alguém quer ascender na hierarquia corporativa? Por que buscar status e fama? Pelo desejo de ser reconhecido como alguém importante na sociedade como um todo – o desejo de reconhecimento.

Filósofo: Então, ao conseguir esse reconhecimento, você diria que encontrou a verdadeira felicidade? As pessoas que conquistaram status social se sentem felizes de verdade?

Jovem: Não, mas isso…

Filósofo: Ao tentarem obter o reconhecimento dos outros, quase todos enxergam o ato de satisfazer as expectativas alheias como um meio para esse fim. E isso corresponde à corrente de pensamento da educação por recompensa e punição, que prega que a pessoa deve ser elogiada caso realize a ação apropriada. Se, por exemplo, seu objetivo principal no trabalho é satisfazer as expectativas dos outros, esse trabalho será bem difícil, porque você viverá com medo de que as pessoas estejam observando e terá medo do julgamento delas. Com isso, vai reprimir sua individualidade. Você pode se surpreender com o que vou dizer, mas quase nenhum dos pacientes que buscam orientação psicológica é egoísta. Pelo contrário: eles estão sofrendo porque tentam satisfazer as expectativas alheias, de seus pais e professores. Por isso, não conseguem se comportar de maneira autocentrada.

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