Os cinco convites

20 de fevereiro de 2018 | por Editora Sextante

Depois que tive o ataque cardíaco e passei pela cirurgia de ponte de safena, um famoso professor tibetano de budismo atenciosamente me ligou para me desejar melhoras. Eu sabia que ele também tinha problemas cardíacos, então perguntei como ele lidava com tudo aquilo – o drama, a confusão, a precariedade e a beleza.

Eu esperava que ele me oferecesse alguma prática meditativa esotérica. Em vez disso, ele fez uma pausa e afirmou: “Bem, pensei cá comigo que era bom ter um coração. E, tendo um, então devíamos esperar que ele desse problema um dia!” O professor riu com seu jeito tibetano, me recomendou que descansasse bastante e desligou o telefone.

Percebi que ele estava certo. Era tudo verdade. Todos os humanos têm problemas. Todos os seres sentem dor. Assim que consegui aceitar que tinha um coração frágil e que ele levaria um tempo para se curar, consegui relaxar e aceitar essa dolorosa situação temporária. Ao fazer isso, meu sofrimento diminuiu.

Depois de um tempo, cheguei à conclusão de que não trocaria meu coração nem minha dor mesmo que pudesse. Sem meu coração, como eu conheceria todo o amor que estava me cercando durante minha doença? Sem a dor, como eu sentiria empatia pelos outros ou reagiria ao sofrimento deles demonstrando compaixão?

É possível mudar nossa relação com a dor mudando a maneira como a encaramos – prestando atenção nela em vez de tentar esquecê-la ou fugir na direção oposta. Um professor certa vez sugeriu que começássemos esse processo recebendo de braços abertos o que nos machuca. Dessa forma, passamos a entender sua natureza e suas motivações mais profundas, que nem sempre são evidentes. No fim, a única maneira de superar o sofrimento é aceitar o que está acontecendo, acolher a experiência e trazer a consciência e a compaixão para onde predominava a negação.

Muitas vezes esquecemos o papel essencial que a dor tem na vida. Se não sentíssemos o incômodo do calor do fogo, queimaríamos os dedos. As emoções dolorosas de vergonha, solidão e culpa trazem à tona os problemas mais sérios dos relacionamentos. A dor pode nos estimular a agir, a identificar e resolver suas causas e até mesmo a buscar a felicidade.

A jornada da vida já é difícil o suficiente. Existe muita dor inevitável, mas, quando não estamos alinhados com o modo como a vida realmente funciona, acrescentamos um bocado de sofrimento desnecessário às situações. Nesses momentos, é mais produtivo parar de resistir às circunstâncias, enfrentar a realidade e se reequilibrar. O sofrimento pode nos preparar para a liberdade, para a compaixão e para o amor.

Este conceito é muito importante. Temos a opção de interromper a força do hábito. Podemos nos livrar de velhas atitudes e nos voltar na direção da dificuldade para ver o que ela tem a nos ensinar. Em vez de tentar evitá-la, negá-la, suportá-la ou deixar que ela nos magoe, podemos traçar outro caminho.

 

Um dia, quando escrevia um relatório, recebi um telefonema de um homem que eu não conhecia. Ele explicou que era pai de um garoto de 7 anos que desenvolvera um câncer muito agressivo. Algumas pessoas disseram que eu poderia ajudá-lo.

Respondi que, sem dúvida, eu estaria disposto a ajudar a família em seu processo de luto, e fiz algumas sugestões sobre como eu poderia dar suporte quando chegasse a hora.

O homem fez uma pausa e ficou óbvio que eu não tinha entendido o que estava acontecendo. Ele praticamente sussurrou: “Não, Jamie morreu há meia hora. Nós gostaríamos de manter nosso menino em casa, na cama dele, por mais um tempo. Você pode vir aqui agora?”

De repente, a situação não era hipotética; era real e estava diante de mim. Eu nunca tinha feito nada parecido. Sim, eu tinha me sentado à cabeceira de pessoas que estavam morrendo, mas não acompanhara pais que sofriam a dor inimaginável da perda de uma criança. Eu não sabia o que fazer; fiquei confuso e com medo.

Não demorei a chegar à casa, onde os pais, arrasados, me receberam e me levaram ao quarto do menino. Ao entrar, segui meu instinto: me inclinei sobre a cama de Jamie e dei um beijo na testa dele para dizer oi. Os pais caíram no choro porque, embora tivessem lhe dedicado todo o amor e atenção, ninguém tinha tocado nele desde a sua morte. Não era medo do cadáver que os mantinha afastados; era medo do luto que o toque poderia acionar.

Sugeri que os pais começassem por lavar o corpo do menino – uma coisa que fazíamos com frequência no Zen Hospice Project. Lavar o morto é um ritual antigo que está presente em diversas culturas e religiões. Os humanos fazem isso há milênios. Esse ato demonstra o nosso respeito por aqueles que faleceram e ajuda os entes queridos a se conformarem com a realidade da perda. Senti que meu papel naquele ritual era simples: ser testemunha e interferir o mínimo necessário.

Os pais colheram sálvia, alecrim, lavanda e pétalas de rosa no quintal. Eles se movimentaram muito lentamente enquanto colocavam as ervas em infusão na água quente, depois pegaram toalhas de banho e toalhinhas menores. Após alguns minutos de silêncio, a mãe e o pai começaram a lavar seu menino. Eles iniciaram pela parte de trás da cabeça de Jamie e depois foram descendo pelas costas. Às vezes, paravam e contavam um ao outro uma história sobre o filho. Em alguns momentos, o pai se emocionou demais e precisou sair para olhar pela janela para se recompor. A tristeza que pairava no quarto era enorme, como um oceano inteiro quebrando sobre uma única costa.

A mãe examinou e cuidou com carinho de cada pequeno arranhão ou machucado do corpo do filho. Quando chegou aos dedos dos pés de Jamie, ela os contou, como tinha feito no dia em que ele nasceu. Era uma agonia e ao mesmo tempo uma coisa extraordinária de se ver.

De tempos em tempos ela olhava para mim; eu continuava calado num canto. Uma pergunta em forma de súplica preenchia o seu olhar: “Vou conseguir sobreviver? Eu consigo fazer isso? Alguma mãe consegue sobreviver a esse tipo de perda?” Eu acenava com a cabeça para encorajá-la a continuar no seu ritmo e lhe passava outra toalhinha, confiando no processo. Eu estava seguro de que ela encontraria consolo ao se permitir vivenciar a dor.

Os pais passaram um longo tempo lavando o filho. Quando a mãe por fim chegou ao rosto do menino, a última etapa, ela o abraçou com uma ternura incrível, seus olhos refletindo amor e pesar. Ela não apenas vivenciou seu sofrimento como mergulhou nele. Ao fazer isso, a força indomável de seu amor começou a dissolver o aperto do medo em torno de seu coração. Foi um momento íntimo, em que não houve separação entre mãe e filho.

Quando terminou o banho ritual, os pais vestiram Jamie com seu pijama predileto do Mickey. Os irmãos e a irmã entraram no quarto e fizeram um móbile com os aviõezinhos e os outros objetos voadores que ele tinha colecionado e penduraram sobre a cama.

Cada um deles enfrentou um sofrimento indescritível. Não havia mais ilusão nem negação. Eles conseguiram encontrar consolo entre si e talvez ao se abrirem para a verdade básica de que a morte é parte integral e natural da vida.

Você consegue se imaginar passando pelo que esses pais passaram? “Não”, muitos responderão, “não consigo.” Perder um filho é o pior pesadelo imaginável para a maioria das pessoas. Eu não conseguiria suportar uma coisa dessas. Não aguentaria, você pode pensar, mas a dura verdade é que coisas terríveis acontecem na vida sobre as quais não temos controle, e, de alguma forma, temos que suportá-las. Nós aguentamos ser testemunhas delas. Quando fazemos isso com a integralidade do corpo, da mente e do coração, muitas vezes uma ação amorosa emerge.

O ser humano é incrível. Nossa coragem é surpreendente. Pessoas de todas as partes passam por infortúnios inacreditáveis – guerras, catástrofes naturais, reviravoltas financeiras, perda da terra natal, morte de filhos – e ainda assim seguem em frente, se dedicam, se recuperam e vivem. E às vezes agem com enorme compaixão em relação a quem já sofreu ou pode vir a sofrer semelhante provação.

Uma das imagens mais chocantes desse tipo de que consigo me lembrar surgiu após o terremoto seguido de tsunami que destruiu a usina nuclear de Fukushima, no Japão. Uma foto num jornal revelou uma dúzia de japoneses idosos reunidos, humildes, carregando suas marmitas com o almoço, de pé numa fila do lado de fora dos portões da fábrica. O repórter explicou que eles se ofereceram para assumir o lugar dos trabalhadores mais jovens que estavam lá dentro tentando conter a radiação e a contaminação na usina. No total, mais de 500 idosos se voluntariaram.

Um dos organizadores de um grupo disse: “Minha geração, a velha geração, incentivou o uso das usinas nucleares. Se não assumirmos a responsabilidade, quem o fará? Quando éramos mais jovens, nunca pensamos em morte. Mas a morte se torna familiar à medida que envelhecemos. Temos a sensação de que ela espera por nós. Isso não significa que eu quero morrer, mas a gente fica menos temeroso conforme envelhece.”

O sofrimento é o que temos em comum. Tentar evitá-lo fingindo que as coisas são sólidas e permanentes pode nos dar a sensação de controle. Mas isso é uma ilusão dolorosa, porque as condições da vida são efêmeras e inconstantes.

Nós podemos fazer uma escolha diferente. Podemos interromper os hábitos de resistência que nos insensibilizam e nos deixam ressentidos e temerosos. Podemos suavizar nossa aversão. Podemos ver como as coisas são de fato e agir de acordo, com discernimento e amor.

O mestre tailandês de meditação Ajahn Chah uma vez se aproximou de um copo que estava ao seu lado. “Está vendo este copo?”, perguntou. “Eu o adoro. Ele serve de maneira admirável para beber água. Quando o sol o ilumina, ele reflete a luz lindamente. Quando dou uma batidinha, ele faz um som adorável. Ainda assim, para mim, ele já está quebrado. Quando o vento o derruba ou meu cotovelo esbarra nele e o faz cair da prateleira, eu digo ‘É claro’. Mas, quando entendo que o copo já está quebrado, todo minuto com ele é precioso.”

Depois de acompanhar os pais de Jamie enquanto eles lavavam o corpo do menino, voltei para casa e dei um abraço bem apertado no meu filho. Gabe também estava com 7 anos na época. Eu vi claramente quanto ele é precioso para mim, que alegria é tê-lo em minha vida. Apesar de ter ficado arrasado pelo que presenciei, também consegui apreciar a beleza daquilo tudo.

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