A virtude da raiva

9 de fevereiro de 2018 | por Editora Sextante

Sempre que penso no período que passei com Bapuji no ashram, lembro de sua ternura, de sua sabedoria e de seu sorriso gentil. Ele ensinava com amor e paciência.

Um casal que morava perto do ashram foi um dia ver Bapuji com seu filho de 6 anos, Anil. O médico tinha dito que o menino precisava cortar radicalmente os doces porque o açúcar o estava deixando doente. Ele gostava muito de doces e surrupiava guloseimas, ficando ainda mais doente. Depois de algumas semanas de tentativas, a mãe levou Anil ao encontro de Bapuji e pediu que ele conversasse com a criança para que parasse de comer doces.

– Volte daqui a duas semanas – disse meu avô.

A mãe ficou um pouco frustrada, sem entender a necessidade de esperar. Quando os pais voltaram, Bapuji puxou Anil para si e sussurrou algo em seu ouvido. Eles se cumprimentaram tocando as palmas das mãos e a mãe ficou atônita ao ver que, depois disso, Anil passou a evitar os doces e a comer como deveria. Ele ficou mais saudável e a mãe se convenceu de que meu avô tinha realizado um milagre. Ela voltou e perguntou-lhe o que tinha feito.

– Não foi milagre algum – respondeu ele, sorrindo. – Eu precisava abrir mão dos doces antes de pedir que ele fizesse o mesmo. Quando vocês voltaram, eu disse que tinha parado de comer doce havia duas semanas e perguntei se agora ele tentaria.

Bapuji via a educação de forma diferente da maioria das pessoas. Ele achava que as crianças não aprendem tanto pelos livros didáticos quanto pelo caráter e pelo exemplo das pessoas que ensinam. Ele teria considerado uma piada o velho conselho “Faça o que eu digo, não faça o que faço”, pois acreditava profundamente que os professores precisam fazer exatamente o que pedem aos estudantes. Ele falava a pais e professores sobre a necessidade de “viver o que queremos que nossas crianças aprendam”.

Eu tinha um tutor para disciplinas como matemática e ciências, mas Bapuji sabia que eu aprenderia as lições mais profundas observando seu comportamento. Ele era um professor carinhoso e paciente e queria que todos o vissem como um pai ou avô com quem poderiam aprender. Ele assumiu esse papel pela primeira vez em 1910, quando morava na fazenda Tolstói, na África do Sul, uma das suas primeiras experiências de moradia e trabalho coletivo. Ele descreveu a experiência comparando-a com uma família, na qual ele tinha o papel de pai e a responsabilidade de ensinar as crianças. Naquela época, não via a possibilidade de que algum professor ou tutor se dispusesse a dar aulas para crianças não brancas, então ele mesmo começou a educar os meninos e meninas que viviam lá.

O modelo de Bapuji de liderar pelo exemplo é muito eficiente e pode ser usado pelas famílias hoje em dia. Muitos pais falam em limitar o tempo dos filhos no celular, mas eles mesmos atendem ligações telefônicas ou ficam vidrados em seus smartphones quando deveriam estar dedicando tempo à família. As crianças aprendem que o telefone ou o dispositivo eletrônico é mais importante do que qualquer outra coisa – e certamente mais importante do que elas. Balanço a cabeça em reprovação quando vejo pais devorando guloseimas cheias de açúcar enquanto insistem que as crianças comam frutas e verduras. Eles esquecem que as crianças aprendem com o comportamento dos adultos com que convivem.

Antes de ir para o ashram de Bapuji, eu não gostava muito da escola porque meus professores davam um exemplo terrível. Por causa do preconceito racial na África do Sul, poucas escolas aceitavam crianças não brancas. Quando eu tinha 6 anos, meus pais encontraram uma escola católica que podíamos frequentar, mas ela ficava a 29 quilômetros, na cidade de Durban. Eu ia com minha irmã Sita, que era seis anos mais velha do que eu. Todas as manhãs acordávamos às 5h e rapidamente nos aprontávamos para a árdua e longa viagem. Primeiro, andávamos 1,5 quilômetro pelas plantações de cana até a parada, depois pegávamos um ônibus até a estação ferroviária e, por fim, um trem para a cidade. E ainda tínhamos que caminhar 3 quilômetros da estação até a escola. No fim do dia, fazíamos o trajeto inverso.

A diretora dessa escola, Irmã Regis, era fria e autoritária. As aulas começavam às 8h20 e, se você não estivesse dentro da escola a essa hora, tinha que ir até a sala dela, onde levava uma surra de vara encerada. Minha irmã e eu fomos encaminhados a essa sala para apanhar mais vezes do que eu gostaria de lembrar. Irmã Regis sabia que Sita e eu dependíamos do ônibus e do trem para chegar à escola e não havia nada que pudéssemos fazer quando algum deles atrasava. Éramos crianças bem-comportadas e não perdíamos a hora por dormir demais; não fazia sentido nos castigar. Mas ela nos batia mesmo assim.

Todas essas surras violentas não melhoraram meu comportamento em nada e certamente não me faziam chegar na hora. Tudo o que fizeram foi me transformar numa criança zangada que detestava ir para a escola. Hoje os psicólogos sabem que as crianças que apanham são mais propensas a se tornar violentas no futuro. Minha experiência confirma essa realidade. Quando saía da sala da Irmã Regis com a pele ardendo por causa de sua vara, eu me sentia impotente e com raiva, e tudo o que queria era bater em alguém. Um adulto que bate numa criança estabelece um ciclo desnecessário de violência.

Anos depois, ao conduzir um workshop para professores em Memphis, fiquei chocado quando um após outro insistiu que o melhor meio de disciplinar as crianças era a palmatória ou outros castigos físicos. Uma professora explicou que, depois de bater o suficiente nas crianças de sua turma, elas aprendiam a temê-la, e então bastava um olhar para se comportarem. Ela podia até sentir orgulho de sua abordagem, porém, da mesma forma que a Irmã Regis, os resultados a longo prazo só podiam ser nocivos. Essa professora não apenas estava ensinando seus alunos a serem violentos como continuamente precisava aumentar a própria violência para manter o controle. Seu método de ensino gerava desrespeito. Seus alunos tinham sido desumanizados.

Fiquei impressionado ao ver que esse tipo de violência era aceito nas escolas americanas, mas fico ainda mais chocado ao descobrir que ainda hoje 19 estados americanos permitem castigos físicos. Estimativas mostraram que, todos os anos, cerca de 200 mil crianças apanham de adultos em posição de autoridade na escola. Precisamos parar de chamar isso de “disciplina” e admitir que é apenas violência contra as crianças. Esse tipo de prática permite que professores, diretores e outros adultos em posição de autoridade descontem as próprias frustrações em crianças indefesas. Pais e professores só recorrem ao espancamento quando são fracos demais para lidar com formas melhores e mais sofisticadas de ensinar aos filhos o que é certo ou errado.

No Brasil, uma lei de 2014 que altera o Estatuto da Criança e do Adolescente tornou ilegal o uso de castigos físicos para a educação de crianças. Apesar disso, a violência contra menores de idade ainda é um problema no país.

No entanto, alguns pais que hoje rejeitam a violência física recorrem a técnicas igualmente prejudiciais. Fiquei assustado quando ouvi recentemente a história de um adolescente obrigado a ficar de pé fora de casa segurando uma placa que dizia: “Eu faço bullying. Buzine se você odeia valentões.” Para mim, o que o pai ou a mãe que aplicara esse castigo estava fazendo era bullying – que não é outra coisa senão fazer uso da própria força para humilhar alguém que é considerado mais fraco do que você. As consequências de humilhar crianças usando a violência emocional podem ser graves. Fiquei chocado ao saber de um pai que cortou o cabelo da filha de 13 anos para puni-la por ter enviado fotos sensuais para um garoto da escola. O próprio pai filmou a filha tremendo enquanto era provocada por ele. “Valeu a pena?”, ele perguntava. O vídeo acabou indo parar no YouTube. Pouco tempo depois, a garota pulou de uma ponte e se matou.

Apesar de muitos fatores poderem contribuir para o suicídio de uma adolescente, com certeza o pai enlutado agora faz a mesma pergunta em relação à própria violência: valeu a pena?

Bapuji só acreditava em educar as crianças por meios não violentos, o que é muito mais sutil do que simplesmente evitar o confronto físico. Criar seus filhos no espírito da não violência significa encher a casa de amor e respeito, estabelecendo um propósito em comum. Quando pais e adolescentes discordam sobre regras, os pais às vezes recorrem à exigência: “Esta casa é minha e você vai obedecer às regras enquanto viver aqui.” Isso envia uma mensagem de conflito e hostilidade, em que pais e filhos ficam em lados opostos. Numa abordagem não violenta, pais e filhos tentam chegar a um consenso e procuram razões para se apoiarem mutuamente. Assim, os pais aceitam que as falhas dos filhos provavelmente são resultantes de suas próprias falhas.

Senti a força da educação não violenta quando tinha 16 anos. Certa ocasião, meu pai pediu que eu dirigisse o carro da família e o levasse até a cidade, aproveitando o período em que ele participaria de uma conferência para resolver algumas coisas para ele. Morando numa comunidade rural na África do Sul, eu não ia muito à cidade e estava animado com a oportunidade de explorá-la. Tinha ouvido falar muito sobre os filmes americanos e, apesar de achar que meus pais não os aprovariam, torci para fazer tudo que precisava e ainda ter tempo para ir ao cinema.

Quando deixei meu pai na conferência pela manhã, ele pediu que o pegasse no mesmo lugar às 17h. Mamãe precisava que eu fizesse compras e mais algumas coisas. A lista de meu pai para o dia incluía levar o carro a uma oficina para trocar o óleo.

– Você tem o dia inteiro, então não deve ter problema – falou.

Terminei as tarefas em tempo recorde e deixei o carro na oficina a tempo de pegar a sessão das 14h. Afundei na poltrona, satisfeito com o plano perfeito, e fiquei fascinado com o filme de John Wayne na tela, que era tão bom quanto eu imaginava. Quando o filme acabou, por volta das 15h30, percebi que era uma sessão dupla. Outro filme ia começar. Rapidamente calculei que dava para assistir à primeira meia hora e ainda chegar a tempo de pegar meu pai. Porém (como era de esperar), fiquei tão envolvido com o filme que permaneci no mesmo lugar até as 17h30. Ah, não! Apesar de correr para a oficina e pegar o carro, não consegui chegar ao centro de conferências antes das 18h.

Meu pai estava aliviado em me ver. Obviamente, ele ficara preocupado.

– Por que você se atrasou tanto? – perguntou assim que entrou no carro.

Fiquei com tanta vergonha que não consegui contar a ele como eu tinha me divertido assistindo aos filmes violentos de faroeste. Você pode pensar que depois de minhas experiências no ashram e com Nehru, eu tinha aprendido a não mentir. Mas a vontade de proteger a nossa imagem de nós mesmos às vezes pesa mais do que o bom senso.

– O carro não estava pronto – respondi, inventando uma desculpa apressada.

Mas, assim que as palavras saíram da minha boca, percebi a decepção no rosto do meu pai.

– Não foi o que a oficina me disse quando liguei para lá – falou, refletindo por um momento antes de decidir o que fazer.

Então ele balançou a cabeça calmamente.

– Lamento que você tenha mentido para mim hoje. Falhei como pai por não conseguir fazê-lo ter a confiança e a coragem necessárias para me dizer a verdade. Como penitência por minhas falhas, vou a pé para casa.

Ele abriu a porta do carro, saiu e começou a seguir pela estrada a pé. Eu saí do carro e corri atrás dele para pedir desculpas, mas ele continuou andando. Tentei convencê-lo a desistir de seu plano e prometi que nunca mais iria mentir, mas ele simplesmente balançou a cabeça.

– Cometi um erro em algum ponto. Vou fazer esta caminhada para pensar em como eu poderia ter lhe ensinado melhor a importância de dizer a verdade.

Mortificado, voltei para o carro. Eu não podia acompanhar meu pai na caminhada porque tinha que levar o carro para casa. Mas não iria deixá-lo andando sozinho na estrada escura. Então fui dirigindo atrás dele, me arrastando na velocidade da caminhada por quase seis horas, os faróis iluminando o caminho. A caminhada pode ter sido dura para ele, mas foi uma tortura para mim. Meu pai estava sofrendo por causa da minha desonestidade. Em vez de me punir, ele assumira o fardo.

Minha mãe estava nos esperando em casa para o jantar e eu sabia que ela devia estar muito preocupada. Naquela época não havia celulares e, mesmo que conseguíssemos achar um telefone público, era difícil fazer uma ligação para fora da cidade. Imaginei minha mãe de pé na varanda com minhas irmãs, espreitando a escuridão para ver se conseguia identificar nosso carro. Era quase meia-noite quando ela finalmente avistou os faróis serpenteando lentamente na direção da casa. Ela presumiu que tivéssemos nos atrasado por conta de algum problema mecânico com o carro. Apenas quando entramos descobriu o que tinha acontecido.

Se meu pai simplesmente tivesse me punido, tenho certeza de que teria me sentido humilhado, não culpado; e a humilhação teria levado à desobediência e à vingança – ou ao desejo de machucar outra pessoa. Ao usar um método não violento que aprendera com Bapuji, meu pai me tornou seu parceiro tanto no problema quando na necessidade de corrigi-lo. O impacto de algo assim é forte e duradouro e alcança resultados mais positivos do que as abordagens coercitivas ou violentas. O método de Bapuji ajuda os pais a atingirem seu objetivo de criar filhos comprometidos, confiantes e emocionalmente inteligentes.

As crianças se desenvolvem de forma saudável quando são respeitadas e veem que os adultos não lhes pedem que façam algo que eles mesmos nunca fariam. O objetivo é transformar nossas crianças em pessoas bondosas e fortes que não se tornam vítimas do mau comportamento de outras crianças. O noticiário está repleto de imagens de crianças brigando enquanto os amigos gravam a ação com seus celulares. Bapuji não perguntaria “O que está acontecendo com nossas crianças?” porque a resposta estaria clara: não podemos culpar as crianças por serem cruéis e indiferentes se não mostramos a elas os valores positivos.

Os pais compram roupas da moda e os brinquedos mais modernos para os filhos, mas as crianças sempre querem mais. Então eles reclamam que elas são ingratas. Muitas crianças vivem em sua bolha de privilégio e nunca veem outros tipos de vida. Como podem valorizar tudo o que têm se não dispõem de critérios de comparação? A gratidão surge quando você pode ver o lugar que ocupa no mundo. É melhor para todos quando nos sentimos conectados uns com os outros.

Quando meus dois filhos eram pequenos, como todas as crianças, queriam festas de aniversário. Minha esposa e eu amamos nossos filhos e desejávamos celebrar a importante data, mas, depois das experiências que tivemos com os órfãos indianos adotados por famílias amorosas, queríamos que nossos filhos entendessem o que significava ter uma família e pessoas que gostam de você. Decidimos que faríamos suas festas de aniversário no orfanato local, de modo que todas as crianças pudessem comemorar e se divertir juntas.

– Por que fazer uma festa com estranhos? – perguntou minha filha. – Por que não podemos convidar nossos amigos?

– Compartilhar com pessoas que já têm muito não faz sentido – expliquei. – Queremos dar para quem tem pouco.

Ela e o irmão não ficaram convencidos de que aquele era um bom plano até visitarmos um dos orfanatos, que não era muito diferente daqueles que nos inspiraram a agir no passado. Era um lugar sombrio, escuro, com a pintura descascando aqui e ali. As crianças não tinham brinquedos. Alguns dos menores simplesmente ficavam sentados no chão, balançando para a frente e para trás para se confortar. Eles não tinham nada para segurar, tocar ou brincar. Meus filhos ficaram chocados. Depois disso, começaram a levar brinquedos para as crianças do orfanato. Uma vez nós lhes levamos triciclos. Os órfãos nunca tinham visto nada parecido e nem sequer sabiam sentar neles e pedalar.

Depois que meus filhos conversaram com os órfãos e passaram algum tempo com eles, tiveram uma nova visão de suas festas de aniversário. Compartilhar com aqueles que tinham tão pouco parecia mesmo fazer sentido. Já não eram mais tão estranhos assim.

Com o exemplo certo, as crianças compreendem a força da não violência na mesma hora. Depois de saber que os professores de Memphis acreditavam em castigos físicos, achei que poderia começar a mudar a atitude deles ao promover um curso de resolução de conflitos. Para mim, estava claro que as crianças precisavam de um modelo não violento para resolver problemas, algo que não estavam aprendendo com os adultos. O primeiro curso que organizei foi numa escola de ensino fundamental. As crianças ficaram animadas com a oportunidade de se tornarem mediadoras dos colegas. Expliquei que a missão delas era fazer com que duas pessoas com opiniões diferentes fossem a um local neutro, onde pudessem se sentar uma diante da outra com um mediador entre elas. O mediador tinha que conduzir a conversa de acordo com determinadas regras, garantindo que cada pessoa falasse sem raiva e ouvisse com atenção antes de responder.

As crianças praticaram umas com as outras e, apesar de se sentirem constrangidas de início, logo entenderam como essa simples técnica podia ser eficiente. Elas aprenderam que as discordâncias podem ser resolvidas de maneira respeitosa e sem violência, e ficaram com a sensação de que tinham controle sobre a própria vida. Agora poderiam lidar com os conflitos sem brigas nem gritaria. Mais tarde fiquei sabendo que um dos meninos foi para casa naquela noite e ouviu os pais gritando um com o outro. No início, ele se escondeu no quarto, como geralmente fazia nessas situações, mas depois tomou coragem e foi até onde os pais estavam.

– Agora sou um mediador certificado e posso ajudar a resolver este conflito – anunciou, cheio de ousadia. – Quero que vocês dois se sentem um diante do outro. Eu vou mediar a conversa.

Os pais ficaram tão chocados com a sabedoria tranquila do menino que imediatamente se acalmaram e lhe pediram desculpas. Tudo acabou num grande abraço.

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