Lições de Gandhi: por que a raiva pode ser boa?

25 de janeiro de 2018 | por Filipe Isensee

Sei como é difícil seguir essa grandiosa lei do amor. Mas todas as coisas importantes e boas não são difíceis também? O amor a quem nos odeia é o mais difícil de todos. Mas mesmo essa coisa dificílima se torna fácil de realizar quando queremos fazê-lo” (Mahatma Gandhi)

Um dos líderes mais influentes da história, Mahatma Gandhi se mantém como potente farol de ideias pacifistas após sete décadas de seu assassinato, ocorrido no dia 30 de janeiro de 1948. A imagem do senhor franzino, de óculos de aro fino e lentes arredondadas, cuja toga branca contrastava com a cor da pele, resiste no imaginário popular. Transcendeu a Índia, país onde nasceu e pelo qual lutou. Tornou-se mito e, como muitos defensores de nobres causas sociais, foi vítima do ódio que combatia. À beira da morte, teria pedido que seu algoz não fosse punido, mas um julgamento condenou o homicida ao enforcamento. Os ecos de suas palavras, contudo, estão vivos, são urgentes e precisam ser revistos, especialmente em tempos de exaltação da intolerância. Esse é o convite feito em A virtude da raiva, escrito por Arun Gandhi, neto de Mahatma.

O laço afetivo leva naturalmente a uma escrita carinhosa. Página a página, o pensamento de Gandhi é apresentado em dez lições espirituais passadas do avô ao neto. A raiz familiar é fundamental nessa narrativa de aprendizagem e amadurecimento. Afinal, para além da importância política do líder da independência indiana, existia um avô de bigode branco e sorriso sem dentes a quem Arun chamava de Bapuji. O livro é também sobre esse homem escondido sob a pele do mito. Os relatos se concentram no período em que passaram juntos, dos 12 aos 14 anos do autor, hoje um senhor de 83, já com quatro bisnetos. Sim, o tempo passa. O que fica? O que a trajetória de Gandhi nos ensina?

“Nesse momento vejo que todos nós precisamos voltar ao satyagraha (princípio que norteou as ações de Gandhi), à força da alma, de meu avô. Ele criou um movimento que levou a uma enorme reviravolta política e trouxe autonomia a centenas de milhares de indianos. Porém o mais importante é que que Bapuji tentou mostrar que podemos alcançar nossos objetivos por meio do amor e da verdade e que os principais avanços acontecem quando abrimos mão da desconfiança e buscamos força na positividade e na coragem”, reforça Arun.

 

“Eu sinto raiva o tempo todo”

Usar a raiva para o bem é a lição que inspirou o nome do livro. De certa forma, soa surpreende, pois ela não parece conversar com o anseio pacifista tão caro a Gandhi. O indiano, porém, entendia a raiva como elemento inerente ao ser humano. A diferença se dá justamente em como você a aplica.

Como acontece em outros capítulos, essas ideias são destrinchadas a partir de histórias de vida do próprio Arun. Nesse caso, na dificuldade dele de lidar com a fúria interior, algo evidente nos corriqueiros confrontos com outros garotos nas escolas em que estudava. “Como sou de origem indiana e cresci na África do Sul, sempre fui atacado pelas crianças brancas por não ser branco o suficiente e pelas crianças negras por não ser negro o suficiente”, explica ele, que tinha fama de briguento. As conversas com o avô diante da roda de fiar eram particularmente convidativas às reflexões do tipo. Gandhi causou espanto ao neto ao dizer que ficou contente com a capacidade de ser abalado pela raiva e assegurou: “Eu sinto raiva o tempo todo”.

A perplexidade de Arun com a afirmação foi amansada pela fala seguinte: “Aprendi a usar minha raiva para o bem. A raiva, para as pessoas, é como o combustível para o automóvel. Ela nos dá energia para seguir em frente e chegar a um lugar melhor. Sem ela, não teríamos motivação para enfrentar os desafios. A raiva é uma energia que nos impele a definir o que é justo e o que não é”, destacou o líder.

Arun Gandhi

Gandhi lembrou que havia sido um jovem rebelde, com ímpetos de raiva: casou-se aos 13 anos com uma jovem da mesma idade – um matrimônio arranjado -, com quem brigava constantemente. Certa vez, tentou colocá-la à força para fora de casa. Insatisfeito com a pessoa que estava se tornando, começou a se moldar para encontrar a calma e o controle. Ainda que não seja simples, trata-se de um percurso necessário.“Percebi como nos tornamos irracionais quando nos irritamos e como sua avó amenizou a situação de maneira brilhante. Se ela tivesse reagido com raiva, teríamos embarcado num duelo de gritos… E quem sabe onde iríamos parar? Quanto mais eu pensava naquilo, mais me convencia de que precisava aprender a usar a raiva com inteligência”, confidenciou a Arun. Como deixou claro em sua revolução não violenta, Gandhi jamais considerou a vingança uma alternativa às injustiças de qualquer ordem. Ao neto, indicou que mantivesse um diário da raiva a fim de entender o que causou o conflito, sendo esse apenas o primeiro passo para o alcançar o controle da mente.

“Eu precisava me distanciar e ver o ponto de vista da outra pessoa. Não se tratava de uma receita para baixar a cabeça para o outro e ceder, mas de uma técnica para encontrar uma solução que não levasse a mais raiva e ressentimento (…) Bapuji me ensinou que ser capaz de entender o ponto de vista do outro e perdoá-lo é um sinal de verdadeira força capaz de entender”, pondera Arun, recordando também sobre a insistência de Gandhi de tratar a raiva como aviso de que algo está errado. “Use a sua raiva com sabedoria. Permita que ela ajude a encontrar soluções com amor e verdade”, aconselhou o avô ao neto.

 

Para guardar e pensar: cinco lições de Gandhi

– “Um ‘não’ dito com convicção profunda é melhor que um ‘sim’ dito apenas para agradar ou, pior, para evitar problemas”.

– “Um homem de poucas palavras raramente será descuidado em seu discurso, pois medirá cada uma delas”.

– “Sua mente deve ser como um cômodo com muitas janelas abertas. Deixe a brisa entrar por todas elas, mas não se deixe levar”.

– “Cada peça é importante e contribui para o todo. Assim como esta pequena mola é necessária para fazer a roca funcionar corretamente, cada indivíduo é vital para a sociedade. Ninguém é dispensável ou desimportante. Nós trabalhamos em uníssono”.

– “Primeiro eles ignoram você, depois riem de você, depois lutam contra você e, então, você vence”.

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