“Eu me sentia uma baleia gorda e disforme”: o sofrimento de Daiana Garbin em busca do corpo perfeito

23 de janeiro de 2018 | por Filipe Isensee

Daiana Garbin traz características de um ideal de beleza europeu, com o cabelo louro modelando o rosto de pele clara e olhos azuis. O sotaque gaúcho é o mesmo das modelos bem-sucedidas das passarelas. Não ficou conhecida do público por desfiles, é verdade, mas como repórter da maior emissora do país, algo associado ao sucesso profissional. De longe, aos que viam de fora, parecia mesmo uma princesa – o primeiro nome, aliás, é uma homenagem a Lady Di -, e qualquer desconforto consigo mesma soava como mero capricho. Às vezes ela mesma acreditava nisso. Se a beleza é muitas vezes entendida como harmonia dos traços, Daiana se via desarmônica e desafinada. Um problema do espelho? Ela demorou a descobrir que não. O corpo era um campo de batalha e também seu pior inimigo. Sentia-se gorda e queria ser magra, com ossos em erupção sob a pele. “Eu me sentia uma baleia gorda e disforme”, confirma a imagem que tinha de si. Na verdade, ela estava doente e ainda não sabia disso.

Fazendo as pazes com o corpo é tanto confissão quanto alerta. Daiana entendeu que não poderia escrever um relato desses protegida pela distância racional exigida pelo jornalismo. Era preciso se expor. Aqui, ela diz sobre si, sem enfeitar a dor, para chegar no outro. O livro existe porque persiste nela uma doença – o transtorno alimentar -, que a fez percorrer caminhos tortos em busca da forma física perfeita, um reflexo invariavelmente inalcançável. Para quem vive com essa angústia, o número na balança sempre pode ser menor e a caça desse objetivo costuma ser dilacerante. O título sugere, se não redenção, a consciência desse processo. Mais segura, ela vasculha o passado de desconfortos impulsionados por um sentimento de inadequação presente desde a infância.

 

Conheça cinco passagens marcantes do livro Fazendo as pazes com o corpo aqui.

 

Na travessia em busca desse corpo publicitário, a jornalista fez de tudo. “Tomei laxantes, diuréticos, calmantes, ansiolíticos, estimulantes, soníferos e também aquele medicamento que tira 30% da gordura dos alimentos, mas que, ao menor descuido, faz você sujar as calças sem perceber”, lista ela parte do perigoso malabarismo do emagrecimento. Houve também dietas malucas (numa delas, só podia comer entre 600 e 800 calorias por dia) e três lipoaspirações, às custas de empréstimos bancários e dívidas. Não se pode deixar de conectar o sofrimento vivido por Daiana com os anseios de uma parcela expressiva da população brasileira, especialmente as mulheres. Segundo a Sociedade Internacional de Cirurgia Plástica e Estética (Isaps), o Brasil é o segundo país do mundo que mais faz cirurgias plásticas, atrás apenas dos Estados Unidos. O procedimento mais comum é justamente a lipoaspiração – uma matéria sobre o assunto pode ser lida aqui.

Quando constatou estar num beco sem saída, Daiana estava com 60 quilos – seu peso na fase adulta oscilou entre 57 e 72 -, mas sofria para mantê-los. O descontrole na alimentação era o vilão da vez. “Cheguei a pesquisar na internet técnicas para não comer e encontrei as mais diversas barbaridades. Li em um blog que, toda vez que sentisse fome, deveria colocar a cabeça perto da lata do lixo – assim eu sentiria nojo e acabaria não comendo. Mas nada adiantou, porque não conseguia controlar minha vontade de comer. Esta é a principal diferença entre o meu transtorno e a anorexia: o anoréxico tem total controle de si mesmo e é capaz de suportar doses mínimas de alimento. Eu queria não comer, tentava não comer, mas não conseguia fazer isso por muito tempo”, relata ela, que tem 1,70m de altura. Os desdobramentos desta situação, que envolveu também excesso de atividades físicas e uma lesão no joelho, a fizeram se desacreditar novamente: “Não via mais sentido em nada, me achava um fracasso. Queria morrer”. Foi quando procurou um médico.

Outros médicos vieram até que em 2016 uma psiquiatra a diagnosticou com transtorno alimentar não especificado. Na época, ela já estava casada com o apresentador Tiago Leifert. Foi ele quem, semanas antes da cerimônia, havia dado um ultimato à mulher: “Ou eu, ou os remédios para emagrecer”. A discussão foi motivada por uma das loucuras que ela cometeu novamente em busca desse corpo perfeito – dessa vez, seguindo a recomendação de um médico, passou a tomar insulina intravenosa, o que alterou bruscamente seu comportamento. A discussão com o futuro marido a levou a agir: “Joguei todos os remédios no lixo e prometi a mim mesma que nunca mais tomaria remédio para emagrecer”.

Tiago Leifert e Daiana Garbin no lançamento do livro no Rio de Janeiro (Foto: Roberto Filho)

A história de Daiana com o transtorno não foi encerrada com essa decisão, claro. Como reforça em muitas passagens do livro, o equilíbrio é difícil e a luta para amansar o desconforto com a autoimagem ainda se mantém. Trata-se de uma vitória que se conquista dia após dia. Envolve ter autocompaixão e amor-próprio, forças interiores capazes de preencher o vazio causado pela insegurança e pela vergonha. “Não podemos mais viver escondidos por causa da vergonha, porque quando ela se torna um estilo de vida, o sofrimento é certo”, ela destaca.

Com o livro e o canal no YouTube, Daiana quer descortinar os preconceitos em torno da doença e de outras neuroses do corpo para evitar que mais mulheres recorram a ideias absurdas como a de colocar a cabeça perto do lixo antes das refeições para inibir o desejo de comer. E esse é apenas um detalhe num ritual muito mais corrosivo e complexo. Daiana sabe muito bem disso.

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