Carlos Burle: o homem por trás do mito

11 de janeiro de 2018 | por André Sequeira

Em geral, ao ler uma biografia você já imagina o que pode esperar. Não pelo conteúdo todo, mas pelo tipo de história, pelo tema ou pelo estilo do próprio biografado. Em Carlos Burle – Profissão: surfista, é exatamente o oposto que ocorre.

Burle é um dos surfistas mais importantes de todos os tempos, principalmente, entre aqueles que se aventuram em ondas gigantes. Desde cedo, ele lutou pelo sonho de ser atleta profissional – nascido de forma inesperada quando jovem – e, para isso, enfrentou várias dificuldades: falta de dinheiro, pressão do pai para largar o surfe, poucas oportunidades, uso de drogas e muito mais. E, antes que alguém pense tratar-se de uma história de sofrimento com uma grande redenção no fim, a vida de Carlos Burle é “apenas” a de um homem que lutou por suas aspirações e que teve sucesso na profissão que escolheu seguir.

Um dos pontos que mais vai agradar os leitores nesta autobiografia, escrita em conjunto com o jornalista André Viana, é a honestidade com que são abordados temas espinhosos, como o uso de maconha e de ácidos até o egoísmo em relação à família, que em muitas ocasiões, foi deixada em segundo plano. Burle também é sincero ao opinar sobre várias pessoas ligadas ao surfe, positiva ou negativamente. Na obra, ele não tenta sair como uma herói perfeito de filmes ou livros de ficção, mas como um ser humano como qualquer outro, que erra e acerta diariamente.

Fábio Quencas, Júnior Pimpa, Sérgio Dom, Carlos Burle e Paíque numa viagem a Serrambi, Porto de Galinhas. (Acervo pessoal)

A carreira deste biografado começou de forma rápida: aos doze, teve o primeiro contato com o surfe. Um ano depois, viajou, pela primeira vez, para surfar fora de Recife. Dos quinze aos dezesseis anos, participou de competições amadoras em outros estados da região Nordeste. E, já com dezessete, conseguiu seu primeiro patrocínio, o que possibilitou viagens por todo o país.

Burle conta sobre seus maiores feitos, fala da relação com outros surfistas, abre o coração a respeito da família e dos filhos, narra episódios incríveis, como o acidente de Maya Gabeira, em que foi considerado culpado por muitos do esporte. Sempre balanceando com seus sentimentos e atitudes em cada uma das etapas de sua história e sem meias palavras. Em muitas passagens, Carlos é altamente duro consigo mesmo.

Fora isso, a obra é um verdadeiro guia turístico. Nela, conhece-se praias e países exuberantes, com dicas mais do que especiais. Ao fim, a vontade é embarcar no primeiro voo disponível para o Havaí, Califórnia, Portugal, Austrália e, é claro, para toda a costa brasileira.

Crédito: Scott Stemm

Carlos Burle – Profissão: sufista é muito mais do que uma ode ao esporte e é perfeita, inclusive, para aqueles que não são conhecedores profundos do assunto. O livro aborda a vida de um atleta dedicado que há tempos merecia ter sua história gravada na literatura. Quem imaginaria que Carlos Burle, ainda criança, passava as férias bem longe do mar, no engenho do tio, e curtia os dias tirando leite de vaca e roubando frutas dos pomares? Ou que adotou a urinoterapia – ingestão da própria urina para fins medicinais? Ou até que abandonou, por falta de patrocínios, o surfe e foi trabalhar, em Recife, na loja de peças automotivas do pai? Essa época, talvez tenha sido o período mais depressivo de sua vida.

A desconstrução de um herói nacional é o grande feito de Carlos Burle – Profissão: surfista. É muito fácil o endeusamento dos ídolos do esporte e imaginá-los sem defeito e acima do bem e do mal. Cria-se um indivíduo imaculado, muitas vezes potencializado por reportagens de jornal e livros que os colocam de tal forma. Burle, como dito acima, desejou mostrar todos os seus lados, sendo taxativo quanto a esta postura frente aos atletas: “… se um dia escrevesse um livro sobre a minha vida, ele deveria ser o mais honesto e sincero possível. Se, no fim, eu me tornasse um hipócrita como foram os adultos da minha infância, que exemplo de moral eu seria para os jovens?”

Um dica: leia sempre perto de um computador ou com um celular à mão. Se não for possível, marque as passagens preferidas para conferir depois na internet, principalmente no Youtube. Vale a pena assistir aos vídeos de várias ondas pegas por Carlos Burle, como a maior de todas, em Nazaré, Portugal em 2013. Ou a primeira grande conquista: o título do campeonato mundial de ondas grandes, em Todos Santos, México. Ou as grandes baterias narradas, que renderam vitórias e derrotas inesquecíveis para ele.

Crédito: Hugo Silva

Aliás, para dar água na boca, curta alguns links de histórias narradas por Carlos Burle!

A maior onda da carreira, em Nazaré, Portugal: https://www.youtube.com/watch?v=2vyqvs-inBA

Pegando onda no Havaí: https://www.youtube.com/watch?v=6icNdOuAa7Y

O acidente de Maya Gabeira em 2013: https://www.youtube.com/watch?v=-ACNkqOpHKc

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