Renato Aragão: um homem tímido na pele do trapalhão Didi

10 de janeiro de 2018 | por Filipe Isensee

Deve existir, para além da rima, um laço de ternura entre humor e amor. Talvez isso – mas não somente – explique a relação de carinho possível entre aquele que ri e aquele que provoca o riso. No Brasil, poucos fazem isso há tanto tempo quanto Renato Aragão, nobre palhaço cearense. Se Chico Anysio, seu saudoso conterrâneo, destacou-se pela notável capacidade de se desdobrar num sem-fim de personagens, Renato brincou na elasticidade graciosa de um único sujeito, tipo bem brasileiro, doce trapaceiro, enfim, trapalhão: Didi Mocó Sonrisépio Colesterol Novalgino Mufumbo, nome nascido do improviso e presente no imaginário popular desde então. O livro Renato Aragão: Do Ceará para o coração do Brasil apresenta histórias marcantes desse criador capricorniano, prestes a completar 83 anos no dia 13 de janeiro.

Embora o sucesso possa eventualmente ter provocado certa confusão no público, é bom deixar claro: Renato não é Didi. Pai de cinco filhos, o artista é um homem tímido e polido, de fala tranquila, distante da eletricidade debochada de seu principal personagem, uma espécie de Carlitos nacional, ainda que lhe faltem o chapéu coco, a bengala e o bigodinho marcante do persona criada por Charles Chaplin, uma de suas grandes influências, ao lado de Oscarito e Carmen Miranda. “Não sou a pessoa engraçada que o Didi é. Talvez por isso eu enxergue o Didi como um anjo. Não porque ele faz coisas que eu não conseguiria, com a timidez que eu tenho, mas porque o Didi é uma criança eterna. E essa criança, que me apareceu como inspiração no dia em que escrevi o meu primeiro esquete para a televisão, na TV, no Ceará, em 1960, virou meu amigo-imaginário”, ressalta Antonio Renato Aragão, como foi registrado.

Após mais de cinco décadas de vida pública dedicada ao riso alheio, com 50 filmes na bagagem e a venda estimada de 130 milhões de ingressos no cinema, fica evidente que infâncias foram esticadas sob sua batuta, especialmente após a criação de Os Trapalhões, intrépido quarteto também composto por Dedé, Mussum e Zacarias (os dois últimos, mortos nos anos 1990).

Autor do livro, Rodrigo Fonseca revela o impacto que filmes como Os Trapalhões e o Mágico de Oróz (1984) e Os Trapalhões no Reino da Fantasia (1985) tiveram na sua formação. No meu caso, rendido à programação da Sessão da Tarde nas férias, vi com entusiasmo as exibições de Os Saltimbancos Trapalhões (1981), o meu preferido do grupo, e Os Trapalhões na Terra dos Monstros (1989), entre muitos outros. A cada trabalho, uma nova isca de fantasia era jogada no mar lúdico da infância destinada a ser fisgada pelas crianças.

É bem provável que esse sentimento reverbere em outros leitores, de gerações distintas, e os filmes e programas da trupe pertençam às preciosidades desse passado ainda vivo, muito vivo, graças às graças provocadas por palhaços populares e incansáveis como Didi. Que não nos esqueçamos de rir e de quem nos fez e faz rir. Longa vida ao trapalhão.

 

Curiosidades do livro

Herança de mãe para filho

Mãe de Renato, Dona Dinorá permaneceu nas memórias do filho com o sorriso sempre estampado no rosto, uma de suas marcas. Ela, professora exigente e mãe zelosa, é uma das ligações do eterno Didi com o humor. Dinorá possuía uma maquininha de choque, usada para pregar peças em algum parente distante ou em alguma visita desavisada. “O choque fazia a pessoa largar a máquina, assustada, tremendo das cabeças aos pés – para deleite de Dona Dinorá, que mal conseguia disfarçar o riso enquanto se prontificava a ajudar o eletrocutado. Já o pequeno Renato não se continha e caía na gargalhada de cumplicidade”, descreve Fonseca.

O casal Aragão, Dinorá e Paulo

 

Memória triste

Um grave acidente de avião, com 13 mortos, é um dos episódios mais traumáticos da vida de Renato Aragão. Ainda estudante de Direito, ele fazia parte do time de futebol da universidade e participava de um torneio. Após perder o primeiro jogo, realizado em Belo Horizonte, e ver o time desclassificado, ele e um amigo decidiram voltar para a capital cearense. “Na noite de 5 de setembro de 1958, o Curtiss Commando prefixo PP-LDX chocou-se com a mata densa da serra do Bodocongó, perto de Campina Grande, na Paraíba. Mesmo hoje, Renato ainda sente no peito o impacto e a dor que quase lhe tiraram a vida”, narra o autor da biografia. Quando abriu os olhos, Renato estava de ponta-cabeça, preso pelo cinto da poltrona. Mesmo com alguns ferimentos, conseguiu sair de onde estava e encontrou seu amigo também com vida. Ali mesmo, ajoelhados, os dois agradeceram a Deus por estarem vivos.

 

Outros trapalhões

Antes da parceria com Dedé, Mussum e Zacarias, Renato Aragão fez parte de outro quarteto de humor. Atração da TV Excelsior, “Os Adoráveis Trapalhões” estreou em 1966 e contava também com Wanderley Cardoso, Ted Boy Marino e Ivon Curi. Após a saída de Ted Boy, a cantora Vanusa foi chamada para fazer parte do grupo. A trupe completa – dessa vez, com Dedé, Mussum e Zacarias – apareceu pela primeira vez na TV Tupi, em 1974, mudando-se para Globo três anos depois. “O segredo para o quarteto funcionar tão bem (…) era um não querer ser maior do que o outro. Se eu tinha alguma liderança, era apenas porque escrevia os quadros. Mas o nosso peso, em cena, era o mesmo”, afirma Renato.

O programa “Os adoravéis Trapalhões” com Wanderley Cardoso, Ted Boy Marino, Ivon Curi e Renato Aragão

 

A fã que virou companheira

Renato e Lilian são casados desde 1995 e têm uma filha, Lívian, hoje com 18 anos. Mas a história do casal começou muito antes do enlace amoroso se concretizar e remonta à época que Lilian era apenas uma fã e o trapalhão, parte do imaginário de sua infância. Quando tinha 6 anos, levada por uma tia, Lilian conseguiu um autógrafo do ídolo. Tempos depois, os dois se reencontraram: Renato fazia ainda mais sucesso na pele de Didi e Lilian, que trabalhava com eventos numa associação de funcionários do Banco do Brasil, contratou um show dos Trapalhões. “Ela se apresentou no camarim, contou que era aquela menina de anos antes e entregou-lhe um cartão profissional com seus dados. Renato ficou entusiasmado com a beleza da jovem”. As conversas entre eles se tornaram mais frequentes e o amor, sem muita demora, se impôs com companheirismo e cumplicidade.

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