Coração: manual do proprietário

10 de janeiro de 2018 | por Editora Sextante

Pule, coração, pule

Apesar de o noticiário sempre mostrar histórias de esportistas que tiveram morte súbita cardíaca, nenhum médico afirmaria que atividade física não faz bem para o coração. Aliás, a opinião unânime é de que o condicionamento físico é crucial para a saúde cardíaca. Diversos estudos comprovam que esportes regulares diminuem o risco de morte prematura causada por doença cardiovascular. Além disso, quem pratica esportes é mais tolerante ao estresse, o que faz bem ao coração. Mas qual é o melhor tipo de esporte para nós? Afinal, queremos fazer algo de bom pelo corpo, e não causar danos permanentes às articulações ou a outras partes.

O importante é que a atividade física escolhida seja diversificada e que não seja uma obrigação. E, claro, que seja divertida. De resto, cada indivíduo sabe melhor o que lhe traz felicidade e o que lhe faz bem.

Para muitos, o esporte ideal é correr. Outro dia um amigo me contou sobre o tal “barato de corredor”, uma espécie de sensação de euforia muitas vezes sentida por atletas de resistência, corredores de longas distâncias. O responsável por isso é o hormônio da felicidade, a endorfina, que faz o atleta se sentir leve e acreditar que pode continuar correndo para sempre sem jamais se cansar. Eu, sedentário, também quis sentir isso uma vez na vida. E para isso só existia um jeito: pôr a mão na massa… ou melhor, o pé na massa!

Saí de casa supermotivado, ansioso por uma corridinha no parque. Quinze minutos depois de começar a correr, porém, eu já estava de volta, me arrastando, completamente exausto.

Queria que alguém tivesse me dito antes que nem todo mundo sente o “barato de corredor”; que os que sentem são, em sua maioria, atletas bem treinados e geralmente ele só aparece quando um corredor em plena forma leva seu corpo até o limite do esforço.

Eu me consolo com a ideia de que não quero quebrar o recorde olímpico, só exercitar o coração e o sistema circulatório, mesmo que não sinta o “barato de corredor”. Uma coisa é certa: com treinamentos constantes, o coração reage como qualquer outro músculo. Ele cresce e se fortalece. Isso significa que pode bombear mais sangue e que, durante a corrida, supre melhor nossos músculos ávidos por oxigênio. Além de tudo, um coração bem treinado não só trabalha melhor durante o exercício, como bate com menos frequência para abastecer o corpo de forma ideal durante o repouso.

Pensando no coração como um motor, fica fácil explicar por que a expectativa de vida de quem pratica esportes é maior do que a de sedentários (mesmo se levarmos em conta as mortes súbitas cardíacas). Um motor que está sempre girando no máximo de rotações por minuto estraga mais rápido que outro em velocidade baixa. O mesmo vale para um coração fora de forma, que, para abastecer o corpo, precisa bater mais rápido que um coração em forma.

Mas, talvez, a melhor forma de explicar isso seja com um simples cálculo. Digamos que um coração fora de forma bata, em média, 80 vezes por minuto, enquanto um em forma bate 50 vezes. Após 70 anos, o coração fora de forma terá batido quase 3 bilhões de vezes, contra 1,8 bilhão de vezes do coração treinado – ou seja, cerca de 40% menos batimentos. Parece ótimo, mas é mesmo?

Tem gente que diz que o esporte faz mal – afinal, sempre ouvimos histórias de atletas (sobretudo os que estão no fim da carreira, que já não treinam tanto quanto antes) que sofrem uma miocardite e morrem precocemente. Mas a verdade é que isso só vale – se é que vale – para atletas de altíssimo desempenho. Para atletas amadores, os especialistas são unânimes em dizer que praticar esportes não faz mal. Pelo contrário: é fundamental para um coração forte e saudável. E, para quem tem medo de desenvolver uma “síndrome do coração de atleta”, meu conselho é: evite abandonar a prática de forma abrupta e procure “destreinar” de forma lenta e segura, reduzindo o ritmo e a frequência de exercícios aos poucos. Dessa forma, nada de ruim poderá acontecer.

Um grupo de pesquisadores de Manchester investigou os efeitos do esporte nas células marca-passo do coração de ratos. Colocaram um grupo de “ratos atletas” para correr em uma esteira por uma hora por dia durante 12 semanas, enquanto os “ratos sedentários” tiveram permissão para evitar qualquer esforço. No fim do experimento, os roedores fisicamente ativos tinham uma frequência cardíaca em repouso mais lenta do que o de seus colegas preguiçosos.

Os pesquisadores descobriram que essa diferença se dá por causa de alterações no nó sinusal, o principal marca-passo do coração, onde correntes de íons que atravessam canais de membranas especiais fazem as células marca-passo se estimularem de forma independente. Quando investigaram o código genético dessas células, os cientistas descobriram que os ratos atletas possuíam menos genes para esses canais iônicos do que as células dos animais sedentários. Ou seja, a prática esportiva regular modificou de forma permanente a estrutura interna do principal marca-passo do coração.

A prática regular de exercícios não só deixa o coração maior, mais forte, mais eficiente e mais lento – melhor no geral –, mas influencia o código genético das células do nó sinusal, que, como consequência, produzem claramente menos impulsos para o batimento cardíaco.

Foi uma pena eu não ter conseguido sentir o “barato de corredor” com meu experimento. Eu era muito bom nisso lá pelo quinto ano do ensino fundamental. Sempre que eu abria a boca e falava besteira para os garotos mais velhos da escola, precisava correr feito uma bala para chegar em casa em poucos minutos!