Os brasileiros esquecidos pela história

4 de janeiro de 2018 | por Filipe Isensee

As histórias silenciadas fazem parte da herança escravista do Brasil. Formam uma ausência – tristemente pesada – carregada por mulheres e homens negros, quase sempre desvinculados de sua origem. O passar das décadas e séculos pode sugerir que a época dos navios negreiros, das torturas e das humilhações já se foi. Apenas parte disso é verdade, já que perversidade se transformou. Ironicamente, embora 2018 comece a despontar no horizonte, fica evidente que os tempos pré-1888, ano da abolição, não foram completamente superados.

Assim, Achados & Perdidos da História: Escravos, escrito por Leandro Narloch, é uma narrativa de resgate. Resgate de brasileiros cuja cor da pele sacramentou o esquecimento. Alguns poucos escaparam da sina. Os que fizeram ainda vivos são minoria. Talvez por isso, essa mirada ao passado é, ao mesmo tempo, desconfortável e importante.

O livro apresenta a biografia de 28 brasileiros. Abaixo, você conhece quatro deles. Os desdobramentos dessas histórias são por vezes complexos e imprevisíveis, ressaltando a antecipação feita por Narloch logo nas primeiras páginas: “A conclusão a que o leitor provavelmente chegará ao final é que não houve só uma escravidão no Brasil”.

Casa de negros. Litografia de Laurent Deroy com base em desenho de Rugendas.

Em tempo: 8,2% do total de brasileiros se autodeclararam pretos, segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD), divulgada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em novembro deste ano. Trata-se de um aumento de 14,9% em relação aos números de 2012. Os pardos são maioria e agora representam 46,7% da população. Uma matéria sobre o assunto pode ser lida aqui.

 

Mulher livre decide ser escrava

Filha de uma índia com um escravo negro, Joanna Batista registrou a compra e venda de si própria num cartório de Belém, no Pará, em 1780. Tinha 19 anos quando decidiu ser escrava. Com a morte dos pais e sem condições de sobreviver sozinha como mulher livre, vendeu-se por 80 mil-réis (metade em dinheiro e metade em joias e acessórios de ouro). A quantia valia mais de dez anos de salário de um empregado doméstico. A escritura determinava que, caso tivesse filhos, eles nasceriam em liberdade; além disso, Joanna poderia pedir para ser vendida a outra pessoa se o senhor não cuidasse dela com respeito. Historiadores relatam que a decisão provocou assombro à época. Narloch, por sua vez, aponta um caminho possível para justificar a motivação da moça: “Joanna deveria estar tão faminta e miserável que viu na escravidão uma forma de conseguir o básico – roupas, comida e abrigo. Hoje em dia acreditamos que a classificação mais importante do Brasil escravista era ‘escravo’ ou ‘livre’. Mas para muitos brasileiros pobres da época a distinção mais relevante era entre ter e não ter comida”.

 

Escravo escolhe seu próprio dono

No livro, Narloch explica que, mesmo não sendo recorrente, era possível um escravo pedir demissão e procurar outro dono – os senhores, quando aceitavam, o faziam por medo de o descontentamento culminar em fuga, sabotagem ou revolta. Um desses casos foi noticiado no Correio Mercantil, de Salvador, em 1839. Insatisfeito com o excesso de trabalho provocado pelo aumento da família para quem trabalhava, um escravo encontrou um novo comprador e foi vendido. Mas não ficou muito tempo, como relatou o “novo dono” ao jornal: “Eis que o escravo entra em casa (…), chega-se a mim e me diz: ‘Meu senhor, eu disse que lhe queria servir persuadido que V. era solteiro, mas agora vejo que é casado, tem filhas e filhos, e como a defunta minha senhora, velha, sempre cantava a seguinte quadra (‘Infelizes são aqueles que servem a muitos senhores, um manda, outro desmanda, cada qual com seus rigores’), eu não o quero servir’”. O escravo pediu e sua antiga família o aceitou de volta.

Mercado de escravos em Zanzibar, 1882.

 

Negra liberta em busca da filha

Felicidade foi separada da mãe e vendida para trabalhar como escrava em outro lugar – um tipo de conduta muito comum no período, especialmente a partir de 1850, quando a importação de africanos chegou ao fim. Na década de 1860, com ajuda de um comerciante, Maria Ana do Bonfim descobriu que a filha estava em Ouro Preto, Minas Gerais. Ela, uma negra liberta, deu 300 mil-réis ao sujeito para que comprasse a moça. Ele conseguiu adquirir uma procuração para negociar a escrava e a levou para a mãe, no Rio de Janeiro. O problema é que o comerciante pagou 2 contos de réis pelo documento, valor muito superior ao ofertado por Maria do Bonfim. Embora estivessem juntas, as duas teriam que pagar a diferença imediatamente, ou Felicidade seria vendida a outro senhor. Numa tentativa de contornar a situação, Maria do Bonfim tomou empréstimo com outro comerciante, Antônio Costa, que, como garantia, passou a escrava para o seu nome. Sem conseguir quitar essa dívida também, Felicidade foi apreendida pelo comerciante. A mãe entrou na justiça, e o caso foi encerrado com um acordo. A filha voltaria a viver com Maria do Bonfim e o débito poderia ser saldado de duas maneiras: pagando 42 mil-réis por mês, durante três anos, a Costa, ou prestando serviços a ele durante esse mesmo período. Não se sabe qual opção elas escolheram.

 

Ex-escravo se torna traficante de escravos 

Há três casos parecidos retratados no livro. O primeiro deles é o de Gbego Sokpa, africano vendido como escravo no Brasil no século 19. Ao chegar a Salvador, ele passou a servir um pernambucano chamado Manoel Joaquim d’Almeida, que trabalhava como mercador de escravos e capitão de navios negreiros. Ao conquistar a confiança do seu senhor, Gbego foi escolhido para acompanhá-lo nas viagens. Após alguns anos, conquistou a alforria – não existe confirmação se ele mesmo comprou, após juntar dinheiro, ou se foi um presente do dono. Homem livre, aproveitou seus contatos e a experiência no tráfico de escravos pelo Atlântico para seguir a profissão de seu senhor. Converteu-se ao catolicismo e decidiu se batizar com um nome cristão. Homenageou o antigo dono e, por fim, se tornou Joaquim d’Almeida.

Fabricants de jacas (Paniers) [Fabricantes de jacás]. Litogravura de Jules-Joseph-Augustin Laurens a partir de fotografia de
Victor Frond, 1861.

TAGS: