2018 bate à porta: o que esperar do novo ano?

27 de dezembro de 2017 | por Filipe Isensee

Foi em março que ouvi pela primeira vez: “Nossa, já estamos em março!?”. Algo semelhante aconteceu em abril, maio, junho… E, cá estamos, não sem espanto, com os pés em dezembro e os olhos em janeiro. Ou seja: quase em março de novo. O assombro de março ganha outro sentido em dezembro, quando o ciclo de 365 dias se fecha, nos expulsando gentilmente para outro ano, quiçá outra vida. Antes da contagem regressiva, somos compelidos a extrair lições: o que aprendemos nesses 12 meses? Não falta quem leve a sério o exercício. As respostas estão espalhadas pelas redes sociais – como de praxe, histórias vitoriosas -, eventualmente acompanhadas de uma foto-tô-bem-na-fita e de hashtags folclóricas. Não basta ser feliz, é preciso convencer o outro disso o ano todo. Em março, inclusive, especialmente após o carnaval, quando se começa a duvidar que essa tal felicidade existe mesmo. E, então, dezembro aparece, quente e furioso. Não existe infelicidade em dezembro. É simples: ou você se cura ou você se esconde. Ou finge, esperando janeiro e o recomeço que supostamente ele proporciona.

Se os problemas do Natal parecem restritos à encenação da ceia – O que enfiar dentro do peru? Arroz com ou sem uva-passa? É pavê ou pacomê? Contar ou não a verdade sobre Papai Noel? -, o Ano Novo, ao contrário, nos mastiga diante de questões existenciais: quem eu sou e o que eu quero ser? Disso saem todas essas mandingas com caroços, uvas, ondas, calcinhas e cuecas. Medo entrelaçado à esperança. Isso é fé ou é dezembro?

Tentei fugir das previsões e ignorei sumariamente o livrinho do horóscopo para 2018. Minha mãe foi atrás e me disse que será uma boa fase para ganhar dinheiro. Dinheiro? Ma oe (leia imitando o Silvio Santos). Ri por dentro. Um amigo pessimista, de olho nas eleições, disse que devemos nos preparar. Qualquer ano que comece em janeiro e termine em dezembro requer atenção. Com eleições, então… Elas costumam acontecer em outubro. Outubro, como se sabe, é o março do fim de ano. “Nossa, já estamos em outubro!?”. Vai vendo. E já é dezembro.

No Whatsapp da família, pipocam imagens das crianças recém-nascidas, algumas já vestindo gorrinhos vermelhos. Em menos de um mês já tinham mais fotos que qualquer outro ser vivo de infância analógica. Sem demora, terão um tablet de estimação e assistirão em looping o desenho da porquinha rosa de nariz fálico. Nada contra. Seus pais provavelmente seguraram e amarraram o tchan trocentas vezes antes de se tornarem caretas. Depois de nove meses, viram o resultado. O resultado já usa gorrinho vermelho, olhe só. É dezembro! Também no aplicativo, descobri que segundo a numerologia – algo que envolve somar os números da data de nascimento – devo vestir azul claro na virada. Visto ou não visto? Por enquanto desisto.

Nesse fim de ano, voltei a pensar em Tia Olga, uma querida tia-avó. Foi ela quem me perguntou certa vez, um tanto encucada, a diferença entre notebook e Facebook. Tentei explicar, sem muita certeza de que ela havia entendido. A possibilidade de ver a foto logo após ser feita também a intrigava. Sua irmã, outra tia-avó, adorava fazer poses, embora sem sorrisos e de débeis olhos baixos. Ao ver o resultado, Tia Olga era taxativa: “Parece uma presidiária”. Em outra ocasião, voltou contrariada porque precisava encaminhar com urgência documentos para outro estado. Mas o tal lugar não recebia fax, apenas e-mail (ela dizia emaíl), o qual me prontifiquei a enviar. “Mas vai chegar a tempo?”. O funcionamento do celular, mesmo o mais primitivo, era enigmático: “O verdinho atende e o vermelho desliga, certo?”. Logo esquecia.

Parte das ferramentas contemporâneas permaneceram estranhas a ela, mas não sei se isso a fez mais ou menos feliz. Insistiu até o fim nas letras cursivas escritas com caneta azul ao invés daquelas nascidas ao toque de teclas. Provavelmente veio dela o último cartão que recebi pelos Correios. Cuidou de três gatinhos – Loirinho (medroso), Suzy (diabética e magricela) e Ritinha (espevitada) – e dividia até mesmo a cama com um deles, embora tivesse medo que as unhas afiadas ferissem sem querer suas pernas cheias de varizes. Como inventava ser mais nova, morreu aos 86, mesmo tendo 92. Enterrou muitos irmãos. Viveu sem pressa.

O tempo. A canção diz que ele não para e, no entanto, nunca envelhece. Seria essa a origem dos sentimentos conflitantes diante da virada?

Quando dezembro aponta e somos conduzidos a pensar sobre o que ainda não sabemos, cogitar futuros intocáveis, talvez o melhor caminho – o mais difícil também – seja se desprender das expectativas e tratar a virada como o que ela é – um dia que some para outro surgir -, sem subtrair dela os vestígios de alegria. Tia Olga me lembra que o mundo tem fartos mistérios para incomodar e encantar crianças e velhos, de dezembro a dezembro, ano após ano.

Num dos capítulos do livro Eu maior – um texto sobre ele pode ser lido aqui -, me deparei com um poema de Fernando Pessoa até então desconhecido. É sobre nossa relação com o mistério que o poeta português escreve. Estamos novamente diante dele, numa espécie de epifania popular repetida tradicionalmente. O que esperar de 2018? Não importa a resposta, tudo (re)começa seguindo esse pacto: uma contagem regressiva que nos tira de um dia 31, nos coloca num dia primeiro e, consequentemente, num ano novo.

Que 2018 venha sem pressa. Março pode esperar.

 

Para além da curva da estrada

Para além da curva da estrada
Talvez haja um poço, e talvez um castelo,
E talvez apenas a continuação da estrada.
Não sei nem pergunto.
Enquanto vou na estrada antes da curva
Só olho para a estrada antes da curva,
Porque não posso ver senão a estrada antes da curva.
De nada me serviria estar olhando para outro lado
E para aquilo que não vejo.
Importemo-nos apenas com o lugar onde estamos.
Há beleza bastante em estar aqui e não noutra parte qualquer.
Se há alguém para além da curva da estrada,
Esses que se preocupem com o que há para além da curva da estrada.
Essa é que é a estrada para eles.
Se nós tivermos que chegar lá, quando lá chegarmos saberemos.
Por ora só sabemos que lá não estamos.
Aqui há só a estrada antes da curva, e antes da curva
Há a estrada sem curva nenhuma.

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