Fazendo as pazes com o corpo

19 de dezembro de 2017 | por Editora Sextante

Sem medida e sem remédio

Eu tinha a impressão de que as pessoas magras eram mais felizes e plenas pelo simples fato de não precisarem se preocupar com o que comem. Queria que minhas refeições fossem um momento sem preocupação, sem ansiedade, um instante de paz, não de sofrimento.

Ao despertar, meu primeiro pensamento era: O que eu vou comer? E o segundo: Não! Eu não posso comer porque vou engordar. Cada vez mais fragilizada, eu sentia um medo terrível e inexplicável da comida, mas mesmo assim não conseguia me controlar diante dela. Comigo era extrema restrição ou exagero, não havia meio-termo. Ou fazia dieta restritiva ou comia sem nenhum controle. E, quando comia, o pavor de engordar me consumia, fazendo com que eu me sentisse imensamente frustrada. E nessa época, sem os remédios para controlar o apetite, essa situação estava ainda mais complicada.

A comida controlava minha vida, meus pensamentos, minhas ações. Sempre que eu engordava ficava com vergonha das pessoas, cancelava compromissos, mentia que estava doente para não ir trabalhar ou comparecer a festas. Também já fingi que tinha ido viajar para escapar de um compromisso e não aparecer gorda na frente dos outros.

Não era só pela forma do meu corpo. É que junto com a “gordura” vinha um sentimento de fracasso, de inferioridade. Como se só os magros conseguissem controlar o que comem, e isso fizesse deles pessoas mais capazes e felizes.

 

Sucesso profissional

Dos 23 aos 26 anos, muita coisa mudou na minha vida. Enquanto minha relação com a comida piorava, minha vida profissional decolava com uma rapidez incrível. Ainda na faculdade de Jornalismo, recebi um convite para trabalhar em outra estação de rádio da minha cidade, a Miriam de Farroupilha. Deixei o emprego na Prefeitura e fiquei um ano na rádio. Foi um período muito bom e guardo ótimas lembranças de todos com quem trabalhei.

Um ano antes de me formar, comecei minha carreira no jornalismo de televisão. Trabalhei dois anos como repórter na TV Educativa da Universidade de Caxias do Sul. Em janeiro de 2008, aos 26 anos, fui contratada pela RBS TV de Caxias do Sul, uma emissora local afiliada da Rede Globo. Em outubro desse mesmo ano, o que parecia um sonho se tornou realidade: fui convidada para trabalhar na TV Globo em São Paulo.

Minha vida profissional ia de vento em popa e eu me sentia muito realizada. A guria de Farroupilha tinha chegado mais longe do que sempre sonhou. Meu salário, na época, quadruplicou!

Sabe como comemorei toda essa alegria? Do único jeito que eu sabia lidar com meus sentimentos: comendo, comendo, comendo…

Em São Paulo, dividi o aluguel de um apartamento com duas amigas e, no meu primeiro ano na cidade, comi muito. Foi a fase da minha vida em que mais comi. Fiquei louca por restaurante japonês, uma culinária que nunca havia experimentado, porque não havia em Farroupilha. Eu me empanturrava nos rodízios. Comia até a barriga doer de tão cheia, comia até ficar sdjonfa! Comia a alegria de ter conquistado o emprego dos sonhos e também a ansiedade e o medo que isso gerava em mim.

Eu agora trabalhava ao lado dos maiores jornalistas do Brasil, dos profissionais cuja trajetória eu tinha estudado na faculdade, dos meus ídolos. Queria ser boa repórter como eles, ter o texto perfeito como o deles, queria tudo logo, rápido. Comecei a me cobrar sobre os próximos passos: Será que um dia farei uma grande cobertura? Será que vou ser correspondente internacional? Quem sabe apresentadora?

Então comia para anestesiar a insegurança dos primeiros meses no emprego e na cidade nova, comia para aplacar a solidão e a saudade de casa, porque era a primeira vez que morava longe da minha família, em uma cidade tão grande. E também para amenizar a ansiedade e o medo do futuro.

Existe uma expressão americana, “freshman 15”, para explicar o ganho de peso dos estudantes do primeiro ano da faculdade. Freshman é calouro em inglês e 15 tem relação com as 15 libras que eles costumam engordar, o que corresponde a cerca de 7 a 8 quilos. Acho que foi isso que aconteceu comigo. O meu freshman 15 foi aos 26 anos. Aquela mudança radical na minha vida, apesar de ter me deixado muito feliz, gerava uma grande insegurança e até angústia.

E quando estou insegura, eu como. Feliz, eu como. Triste, eu como. Ansiosa, eu como. Em todas as situações, eu como. E assim segui comendo, sem medida e sem remédio para emagrecer. Claro que engordei. Em 2009 cheguei aos 70 quilos. Hoje sei que esse peso, considerando a minha altura, é perfeitamente normal. Mas, na época, me senti péssima. Minhas roupas ficaram justas e tive que comprar calças e camisas de tamanhos maiores. Passei a usar um sutiã que apertava os seios para parecer mais magra.

Minha luta contra o espelho se acirrava enquanto minha carreira deslanchava. No meu primeiro ano na TV Globo, participei de coberturas importantes e entrava ao vivo nos telejornais todos os dias. Falar ao vivo sempre foi o que mais gostei de fazer. Sabia que era uma boa profissional e isso me deixava confiante. Para disfarçar meu corpo no vídeo, porém, eu precisava recorrer a alguns truques.

Primeiro, só usava roupas escuras e camisas de mangas compridas, mesmo no calor. Em pouquíssimas ocasiões usei roupas claras ou camisas de mangas curtas. Acho que só apareci com os braços de fora umas três ou quatro vezes em oito anos de televisão. Eu implorava para que os cinegrafistas fizessem enquadramentos que me deixassem mais magra. Aliás, como a TV “engorda”, esse é um artifício usado por quase todas as repórteres.

Além disso, usava sempre o cabelo solto e truques de maquiagem para afinar o rosto. Quando precisava prender o cabelo por causa do vento ou por algum outro motivo, era uma tortura, pois me sentia muito exposta. Achava meu rosto muito redondo. Então com o cabelo solto eu me sentia mais protegida, mais escondida. Pode parecer loucura, mas sempre tive a impressão de que com o cabelo solto eu parecia mais magra.

Quando não tinha certeza de que a filmagem tinha ficado como eu queria, pedia para ver antes de mandarem para a edição, e, se me achasse muito gorda, gravava novamente quantas vezes fossem necessárias até achar um enquadramento que escondesse o máximo possível do meu corpo. Detestava aparecer na TV de corpo inteiro e evitava isso a todo custo.

Por mais que amasse meu trabalho, diversas vezes pensei em desistir de ser repórter de televisão por causa do meu problema de autoimagem. Era muito difícil me ver no vídeo. Por outro lado, eu queria ser uma boa jornalista e me esforçava para não deixar que meu sofrimento atrapalhasse minha carreira. Eu sabia que não poderia deixar a situação chegar a esse ponto.

Até porque, para mim, uma jornalista e repórter de TV devia ter profissionalismo, talento, ética, comprometimento, bom texto, excelente apuração dos fatos, boa voz, dicção perfeita, segurança e naturalidade para falar ao vivo. O corpo em forma, eu acreditava, não estava nessa lista. Só que eu estava enganada. Logo descobri que o cruel padrão de beleza que eu me impunha não era só coisa da minha cabeça.

 

Cruel padrão de beleza

No fim de 2009, ao completar um ano no emprego novo, minha chefe me chamou na sala dela. Foi a primeira vez que fui chamada. Será que errei em alguma informação ao vivo? Será que falei algo que não devia? Meu texto estava ruim? Ou foi minha dicção? No caminho para a sala fui pensando qual seria o motivo da conversa.

Entrei e logo fui informada de que aquela reunião era para uma avaliação de desempenho. Minha chefe elogiou muito meu trabalho, disse que eu era uma ótima repórter, o que me deixou muito satisfeita. Então ela disse a frase que jamais vou esquecer: “Daiana, você é uma excelente profissional, tem uma carreira brilhante pela frente, mas precisa fazer as pazes com a balança. Você sabe como é, TV engorda… eu sei que isso é delicado, mas nós percebemos que você engordou este ano.”

Fiquei arrasada. Jamais pensei que me pediriam para emagrecer.

Mantive uma expressão séria, firme, fiz a maior força do mundo para não chorar na frente dela e saí da sala. Por sorte, estava no fim do meu expediente, então peguei minhas coisas e fui direto para o estacionamento da empresa. Entrei no carro e desabei. Chorei até chegar em casa e depois chorei até dormir.

Apesar de viver em crise com o meu corpo, aquela exigência vinda de cima foi profundamente chocante. Uma jornalista não precisa ser magra para ser competente. Um profissional tem que ser avaliado pelo seu trabalho e não por seu peso ou por suas medidas.

Além de me deixar indignada, ouvir aquilo foi muito doloroso. Escutar que eu precisava emagrecer tornou reais todos os meus medos e sentimentos de fracasso. Eu era mesmo muito gorda. Não era só eu que achava.

Antes desse dia, eu me sentia um desastre no nível pessoal, mas acreditava que pelo menos profissionalmente era bem-sucedida. A partir dali, no entanto, passei a me sentir um fracasso total. E agora tinha praticamente um atestado de que estivera certa sobre o meu corpo o tempo todo. Aquela reunião oficializou que, para a empresa em que eu trabalhava, meu corpo era inapropriado. Todas as qualidades profissionais que sempre tive não bastavam. Eu precisava corresponder a um padrão de beleza para ser considerada uma boa jornalista.

Essa época foi um pesadelo. Parecia não ter sobrado nada de bom na minha vida. Os fantasmas da minha mente agora habitavam o mundo real e me assombravam dia e noite.

Chorei por vários dias e refleti muito sobre o que fazer. Pensei em pedir demissão, mas não podia – nem queria – desistir da minha carreira assim. Além disso, precisava pagar o aluguel, a prestação do carro, as contas… Eu não teria como me manter em São Paulo sem aquele emprego. E se eu demorasse para achar outro trabalho? Pensei, pensei, pensei muito, e decidi: vou emagrecer. E rápido.

Voltei a tomar remédios. Experimentei de tudo. Fórmulas para tirar a fome, calmantes, diuréticos, laxantes, soníferos (afinal, com tanto medicamento misturado ficava impossível pregar o olho, e eu acordava às 4 da manhã para trabalhar). Tentei também aquele que reduz a absorção da gordura dos alimentos e que produz efeitos colaterais constrangedores, como diarreia, incontinência fecal e flatulência. Qualquer remédio para emagrecer que lançavam eu tomava. E fiz diversos tratamentos estéticos para reduzir medidas e perder peso, todos caros e praticamente ineficazes ou com efeitos que duravam muito pouco.

E assim foram mais três anos castigando meu corpo. Sabe quanto eu emagreci? Nada. Zero. Hoje posso dizer que nem os remédios nem os tratamentos adiantaram para aplacar minha angústia, porque o corpo que eu queria ter era impossível para mim.

Depois de um tempo, surgiu a oportunidade de fazer um teste para ser a apresentadora da previsão do tempo no jornal local. Entrei no estúdio, fiz o teste e, quando saí, perguntei para a minha chefe da época se tinha ido bem. Ela respondeu, sem cerimônia: “Sim, mas precisa emagrecer mais.” Claro que não passei no teste. Nova pancada na minha autoconfiança.

E não parou por aí: em mais duas ocasiões ouvi que eu deveria perder peso. Quando me dei conta de que já tinha ouvido quatro vezes, de quatro chefes diferentes, que eu era boa profissional, mas que precisava emagrecer, fiquei completamente desiludida com minha carreira e com a profissão de jornalista de TV.

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