Dez curiosidades sobre “História da riqueza no Brasil”

18 de dezembro de 2017 | por Filipe Isensee

Por si só, o título História da riqueza no Brasil sugere uma empreitada ambiciosa. Como resumir o percurso tão vasto de uma nação cujo princípio oficial remonta ao que certamente era outra vida? Pois, os mais de 500 anos do país estão nas mais de 500 páginas do livro escrito por Jorge Caldeira. O autor não se restringe à economia ou ao economês. Os cinco séculos foram reescritos e fragmentados em quatro grandes capítulos, numa perspectiva atenta aos números e às datas, mas também às pessoas e ao contexto que tornaram esses números e datas relevantes. Em crítica publicada na Folha de S.Paulo, História da riqueza no Brasil foi saudado como um dos grandes lançamentos de não ficção do ano.

Os trechos abaixo estão concentradas no derradeiro capítulo, que costura o período entre 1930 e 2017. Num dos textos, Caldeira desmonta a ideia de milagre econômico vivenciado no regime militar, algo ainda muito difundido. “A ditadura entregou o governo federal de porteira fechada, nas condições lastimáveis em que estava: um futuro que era cada vez mais passado, um passado que tinha cada vez menos futuro”, assegura o autor. Necessário, esse olhar para a nossa história é ferramenta para interpretar o tempo presente e compreender os dias que virão.

 

1) Tudo nas mãos de um poderoso chefão

A vida política no Brasil de 1930 deu uma guinada em comparação ao período republicano iniciado em 1889. Por decreto ficou decidido que as instituições políticas seriam organizadas em torno de um comando pessoal, um chefe de governo provisório. Assim, foram abolidos os poderes legislativos em todas as instâncias, desde as câmaras municipais até o congresso nacional. “Nem mesmo o imperador que acumulara maiores poderes discricionários – D. Pedro I antes da abertura do Parlamento – se comparava com isso: afinal, ele governou com câmaras e poderes municipais autônomos”, compara Caldeira. Sabe quem era o poderoso chefão desse governo provisório? Getúlio Vargas, então com 48 anos. O termo “provisório”, aliás, não poderia ser mais irônico, já que o político ficou no poder até 1945 de forma ditatorial. Anos depois, em 1954, matou-se com um tiro no peito. Quis sair da vida para entrar na história. Conseguiu. Mas, definitivamente, não precisava de uma bala para isso. Continue lendo…

 

2) Ter inimigo é fundamental

Na escalada do poder, ter um inimigo é essencial. Ambicioso, Vargas viu em Luís Carlos Prestes a chance de se fortalecer politicamente. A estratégia já havia dado resultado na Alemanha – infelizmente, não custa lembrar, trata-se de um modelo de liderança abominável. “Para chegar aos níveis de poder central que desejava, era preciso uma situação como a que levara Hitler ao poder: a ação dos comunistas”, explica o autor. Integrante do Partido Comunista brasileiro, Prestes também se tornou presidente de honra da Aliança Nacional Libertadora. Ao obter informações de que ele estava ilegalmente no país, Vargas decretou o fim da ANL com estardalhaço, ajudou a criar um clima de paranóia e medo no país. “Em menos de duas semanas conseguiu do Parlamento uma ampliação dos poderes que o tornava ditador quase sem contraste”, reforça Caldeira.

Luís Carlos Prestes

 

3) Índio não quer apito… Quer cidadania

Após a primeira queda de Vargas, em 1945, foi promulgada uma constituição em 1946 – o presidente era Eurico Gaspar Dutra. Caldeira considera que a única mudança real trazida pelo documento foi “a incorporação dos silvícolas à vida nacional”, como definido no artigo sobre os poderes da União. Para o autor, o acréscimo é curioso, pois os índios eram considerados cidadãos brasileiros desde a Constituição Imperial e dominavam a maior parte do território do país, especialmente no Amazonas e no Centro-Oeste. A menção “abria caminho para que o Estado iniciasse uma política para garantir aos povos indígenas o controle das terras que ainda ocupavam: um projeto republicano conduzido a duras penas pelo pioneiro Cândido Rondon”. Como se sabe, a luta indígena permanece atual e urgente.

Eurico Gaspar Dutra

 

4) O crescimento da indústria brasileira

As décadas de 1940 e 1950 mantiveram a tendência iniciada com a República. Assim, o crescimento da indústria consolidou um ritmo muito superior ao das demais atividades, como a agricultura. Nessa época, a economia brasileira estava entre as mais dinâmicas do planeta. Apesar disso, o comércio internacional tinha um crescimento próximo a zero. Era o mercado interno o grande responsável pelo bom desempenho. Essa característica é fundamental para entender os desafios dos anos seguintes.

 

5) O fim de Vargas e a chegada de JK

Olha ele novamente. Sim, Getúlio Vargas voltou ao poder em 1950, dessa vez escolhido democraticamente. Aliás, elegeu-se com facilidade e arriscou uma nova estratégia: decidiu apagar a imagem de ditador e ser o pai dos pobres. Próximo ao fim do mandato, elevou através de decreto o salário mínimo em 100% e ajudou a criar uma empresa estatal monopolista na área de petróleo (a Petrobrás). Essas escolhas o levaram a perda de apoio político e do controle do Congresso, demarcando um caminho que o levaria ao suicídio. O período turbulento foi superado anos depois com as ações de Juscelino Kubitschek, que “soube se aproveitar da recuperação no cenário internacional para alargar as portas da felicidade industrial, atraindo capital estrangeiro de risco para a montagem da indústria automobilística. Ao mesmo tempo construiu Brasília (…) em clima de Bossa Nova e modernismo”.

Juscelino Kubitschek

 

6) Relaxa, está tudo sob controle

A estatização é considerada a grande mudança promovida pelo regime militar, no poder após o golpe de 1964, expandindo a presença do governo federal na economia. “Em apenas três anos, a instância central do poder passou a abocanhar uma fatia da riqueza nacional 43% maior”, informa Caldeira.

 

7) Quanto vale um milagre?

Entre 1970 a 1973, o Brasil – ou melhor, parte dele – conheceu o “milagre brasileiro”, nome dado aos entusiastas do regime militar diante da taxa de crescimento do PIB, sempre superior aos 10%. O sucesso era creditado justamente à participação do governo na economia. Quem quer dinheiro? Peraí, que o buraco é um tantinho mais embaixo e cabe nele uma pergunta melhor: para quem vai o dinheiro? Segundo Caldeira, em 1960, a metade mais pobre da população tinha 17,4% do total da riqueza nacional; em 1970, essa fatia caiu para 14,9%. Já os 20% mais ricos aumentaram sua participação de 54,9% para 65,2%.

 

8) Dívida e inflação, amigas nos tempos de chumbo

Outra obra da ditadura: a elevação dos preços do petróleo em 1979 substituiu o “milagre” por um rombo retumbante. Pagava-se mais pelo petróleo (4 bilhões em 78; 6,2 bilhões em 79; e 9,5 bilhões em 83), mas esse gasto não era superado. A saída poderia vir do aumento das exportações, cujos recursos seriam usados para saldar essa despesa adicional, mas o crescimento da área foi mínimo. Assim, a dívida externa – essa, sim – só cresceu: 43,5 bilhões em 78; 50 bilhões em 79; e 81,3 bilhões em 83. Como se não bastasse, outra velha conhecida deu as caras: a inflação. Adivinha quem está pagando a conta?

 

9) O de cima sobe, e o de baixo…

Do ponto de vista da economia brasileira, a década de 1980 foi norteada pela inflação. Em 1987, ela ficou em 15%, o mínimo no período. Dois anos depois, em 1989, chegou a 1.782%, o máximo histórico. Fernando Collor de Mello assumiu a presidência e recorreu aos “métodos dos desesperados”. Caldeira recorda a lista: confisco de poupança, fechamento de setores inteiros da economia estatal, empréstimos compulsórios etc. O pesadelo se desdobrava em recessão. O autor, porém, aponta conquistas desse período: a entrada do Brasil no Mercosul e a participação nas discussões sobre meio ambiente, culminando na Rio 92.

Fernando Collor de Mello

 

10) Chance real 

Sobre isso, parece existir consenso: o Plano Real, lançado no final de fevereiro de 1994, fez com que a economia fosse estabilizada após décadas de inflação crônica e hiperinflação. “A diferença se fez com o esforço subsequente para impedir gastos do governo sem receitas prévias, inclusive com cortes no aparato estatal e a abertura da economia. Os métodos arbitrários e os poderes excepcionais do governo federal começaram a ser domados”, analisa o autor.

Fernando Henrique Cardoso e o Plano Real

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