Desacelerar para encontrar a felicidade

11 de dezembro de 2017 | por Filipe Isensee

A percepção de que a felicidade é um escudo contra o sofrimento é uma das bases de As coisas que você só vê quando desacelera, livro de Haemin Sunim. Não é uma ideia nova, mas nunca pareceu tão urgente. No fim das contas, estamos todos em busca dessa proteção. A almejada plenitude, contudo, é também alvo constante e eventualmente danificada. O senso comum nos faz olhar para a fora e culpar o mundo – em outras palavras, o que está ao nosso redor, – por essa felicidade constantemente adiada. Sunim, um monge zen-budista e professor universitário nascido na Coreia do Sul, subverte a lógica e atenta para o elo entre mente e mundo.

“O mundo existe porque temos consciência dele. Não podemos viver numa realidade da qual não estejamos conscientes. O mundo depende da nossa mente para existir, assim como nossa mente precisa do mundo para ter consciência dele. Pode-se dizer que a consciência da mente confere existência ao mundo. Aquilo que a mente presta atenção se torna o nosso mundo”, frisa o autor.

Um mundo caótico espelha uma mente caótica. A raiz de nossas angústias não está em outro lugar senão em nós mesmos. Por isso, todas as teorias sobre felicidade e bem-estar passam necessariamente pelo conhecimento de si. Não é um capricho, tampouco um papo de egocêntricos. A autoconsciência nos leva também a compreender o outro, a conviver, a não esperar que todas as respostas e belezas venham de fora, a entender que o olhar, sim, muda e revela outras paisagens.

 

O mundo dentro de nós 

Da pele para dentro, todo mundo é um mundo, e você precisa se encontrar para ter consciência dele, aprendendo sobre suas fragilidades e potências, sobre o que você pode e o que não pode controlar. O convite que se faz, portanto, não é o da imobilidade ou letargia. Ao contrário. Desacelerar é uma maneira de domar seu ritmo. Desacelerar é ter a coragem de parar, dar um passo para trás e, assim, observar melhor as coisas – ordinárias e extraordinárias – que nos escapam. E, assim, seguir em frente, revigorado, mais forte, menos incompleto. Nessa vida fragmentada, escorregadia, é você quem escolhe como experimentar o mundo, o de dentro e o de fora. Portanto, cuide do seu tempo.

“Quando a mente descansa, o mundo também descansa”, afirma o monge. Sunim explica que muitas vezes tentamos lidar com sentimentos indomáveis, muitos deles negativos, e que na ânsia de controlá-los, eles são reprimidos, guardados dentro da gente até uma nova erupção. E ela não demora a acontecer. Para enfrentar o caos, o silêncio é vital. Ele destaca:“Para tentar entender alguma coisa, costuma ser mais eficaz deixar de lado suas ideias preconcebidas sobre o assunto e observá-lo em silêncio, de modo que o objeto examinado possa revelar o que deve ser compreendido. Em vez de mergulhar nas águas escuras de sua emoção tentando controlá-la, você deve apenas observá-la e deixar que se sedimente e se transforme por si só”.

 

Conviver 

A desaceleração é essencial também quando lidamos com nossas paixões. Muitas vezes o entusiasmo excessivo depositado nas ações do outros nos levam a decepções certeiras. Isso é notado em muitos campos dos relacionamentos, da vida amorosa à profissional. “Na empolgação, cometemos o erro de igualar nossa própria ânsia com eficácia. Fazer bem um trabalho é mais importante do que achar que se fez bem um trabalho”, exemplifica.

Num dos trechos do livro, Sunim conta que ao fazer 30 anos percebeu três coisas importantes sobre a vida. Chamou-as de “ideias libertadoras”. De maneira bem resumida, eis o trio: 1) não devemos passar a vida preocupados com o que os outros pensam de nós; 2) nem todo mundo tem que gostar da gente; 3) descomplique a vida e siga o seu coração.

O primordial nessa busca, em ter êxito nessas três ideias fortes, é alcançar o equilíbrio. Desacelerar, coordenar seu ritmo e aproveitar os ganhos da vida nova, tudo isso é significativo, mas não se deve perder de vista o outro. Desacelerar não implica atropelar quem caminha em outra cadência. Do que valem essas conquistas se não for para viver bem consigo e com os outros? A felicidade está nisso também. “Devemos aprender a não levar nossos pensamentos tão a sério e a moderar nosso ego para enxergar o panorama mais amplo. Estar certo não é nem de longe tão importante quanto ser feliz com alguém”, ressalta o monge.

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