Renato Aragão: Do Ceará para o coração do Brasil

4 de dezembro de 2017 | por Editora Sextante

Os “sofisticados” insociáveis

Quando Didi e Dedé entravam ao vivo nos programas da emissora de Paulo Machado de Carvalho, a TV Record de São Paulo, o índice de sucesso era aferido pelo auditório. Os mais queridos eram os mais ovacionados. E, quando entrava a dupla, a plateia aplaudia quase toda de pé. Não havia dúvidas: na opinião popular, o quadro deles era sempre o melhor.

Paulo Machado entendeu o recado: “Quando o Renato entra, eles gritam. Vamos fazer um programa com ele!” O convite foi feito, mas isso significava que absolutamente tudo ficaria sob os cuidados de Renato. “Meu Deus, como é que eu vou fazer? Vou ter que fazer uma historinha, numa sala…”

O trapalhão não sabia quem chamar, pois não conhecia outros atores. Escarafunchando a memória, lembrou-se de um programa do Chico Anysio, na Globo. Era um esquete com os Originais do Samba, com temas sobre negros. Viam-se umas mulatas bonitas. E tinha um tal de Mussum, com uns “zóião” assim, de fundo branco. Pareciam umas pedras de dominó, e o ator meio que gemia: “Oúúúú!” Era engraçado. E todos riam.

“Dedé, vai buscar esse negão. Eu conheço o empresário dele, é um tal de Corumba. Mas avisa que eu não vou querer desmanchar nada nem tomar o artista dele.” Quando Mussum chegou, Renato perguntou:

– Quer trabalhar com a gente?

A reação dele foi a mesma de Dedé:

– Hein? Como?

Preocupado, Renato ainda avisou o novo parceiro:

– Mas tem uma coisa: você não vai deixar os Originais do Samba de jeito nenhum. Vocé vem fazer biscate aqui comigo. Se quiser, é assim!

Ele ficou preocupado.

– Mas o que é que eu vou fazer? – perguntou.

Renato o tranquilizou:

– Deixa que eu escrevo pra você.

E assim se formou o trio. Renato escrevia todo o programa. Dedé era o parceiro ideal. Mussum entrava em momentos estratégicos, fazia somente piadas na mosca. A questão mais complicada foi mesmo o nome do programa.

Na verdade, Renato chegou para Paulo Machado e explicou: “Eu vou fazer Os Trapalhões aqui.” Mas o dono da emissora tinha outra visão. Para ele, usar esse nome “queimaria o filme” do programa, pois Renato já tinha feito Os adoráveis Trapalhões noutra emissora, a TV Excelsior do Rio.

Não teve jeito: Paulo Machado vetou a escolha e disse claramente para o trapalhão: “Não quero esse nome aqui não. Deixa que a minha equipe cuida disso.”

E aí eles botaram Os insociáveis. Renato se irritou, pois acreditava que o público do programa não tinha um perfil sofisticado, como o nome dava a entender. Mas resolveu não entrar em embate por causa disso. O importante era que Renato estava fazendo aquilo que sabia fazer e, ainda por cima, com salário fixo.

Os insociáveis era exibido ao vivo, nas quartas-feiras à noite, e tinha três atores fixos: Renato, Dedé e Mussum. De acordo com o roteiro e as necessidades da história, outros atores eram convocados para interpretar mocinhas, vilões, galãs…

 

Ô, psit!

Nos tempos em que o programa Os Trapalhões era feito diante de uma plateia, Didi, sempre que queria debochar do jeito enervado (leia-se afetado) dos parceiros, batia as mãos, soltava os braços no ar, meio que desmunhecando, e cravava, olho no olho do público: “Peruas!” Ninguém conseguia segurar o riso. Não havia criança nem adulto que não embarcasse na troça, reproduzindo esse e outros bordões, como “Ô, psit!”, usado para chamar as pessoas. O público também se divertia com a expressão usada por Didi ao atender o telefone: “Arô!”

Quando queria ganhar a adesão dos outros trapalhões ou de alguém cuja simpatia precisava conquistar, o trapalhão virava para a câmera e dizia: “Aguarde e confie.” Era só esperar que algum golpe ia ser armado – e ia funcionar – de modo a dar o troco em quem tentava passar a perna nesse herói pícaro do Ceará. Às vezes, expressava essa mesma (auto)confiança ao olhar para o telespectador – a quem falava diretamente, rompendo a quarta parede da ficção: “Ô da poltrona!” – e fazer um gesto característico, autoral: passar a mão em frente da boca e estalar os dedos no ar, como se fosse um beijo solto ao vento, todo pimpão. Esse repertório de bordões, seja em palavras, seja em ações, marca a trajetória de Didi desde Os adoráveis Trapalhões.

Como o programa era ao vivo, muita coisa se criava de improviso, na bucha. Um dia, Ivon Curi deixou a peruca cair, por acidente, durante um esquete, para surpresa dos fãs. O incidente clamava por uma gozação. Daí em diante, sempre que farejava uma deixa para o deboche, Renato exclamava “Pelas perucas de Ivon Curi!”, como forma de demonstrar espanto.

Por onde passou na TV, Renato criou bordões, por vezes usando expressões previamente existentes como “Som na caixa!” ou “Sabe tudo!”. Às vezes, do nada, aparecia com expressões como “Audácia da pilombeta!”. “Não me pergunte de onde tiro isso: quando preciso, a ideia vem”, diz Aragão, que celebrizou sinônimos para encrenca (“é fria!”), dinheiro (“bufunfa”), bumbum (“poupança”) e mulher (“bicho bom”).

Em tempos de menor correção política, Didi brincava com quem tivesse trejeitos mais exagerados, exclamando: “Esse aí camufla! Ele escamoteia!”, numa sugestão de que o sujeito fosse homossexual. “Rapaz alegre” ou “santa” também cabiam nessa provocação. Entre neologismos e livres variações, Renato ainda se divertia nas cenas com mágicos ou hipnotizadores, como no filme Os saltimbancos Trapalhões (1981), em que diz: “Eu vou popotizar você.”