A arte de se transformar é a arte de perder

4 de dezembro de 2017 | por Filipe Isensee

O poema mais famoso da escritora norte-americana Elisabeth Bishop começa assim: “A arte de perder não é nenhum mistério”. De certa maneira, é isso que Sri Prem Baba comunica aos leitores de Transformando o sofrimento em alegria. “Perca um pouco por dia”, sugere a poeta. “Verdade é aquilo que permanece quando removemos todas as crenças, ideias e concepções”, ensina o mestre espiritual em seu livro. Tanto lá quanto cá parece existir o fluxo de uma ideia compartilhada: muitas vezes é necessário se desfazer de coisas – objetos, frágeis certezas, mentiras tolas, sentimentos contorcidos, camadas do ego – para acessar o sabor da essência. Se, como escreveu Bishop, tantas coisas contêm em si o acidente de perdê-las, a perda preserva em seus escombros algum aprendizado.

Nos dois textos anteriores, que podem ser acessados aqui e aqui, foram apresentadas parte da história do guru e algumas das principais ideias que regem seu pensamento. Como já foi registrado anteriormente, autoconhecimento, expansão da consciência e comandos do coração são buscas fundamentais, uma abotoada a outra. Temas como esses, chaves para uma mudança de estado de espírito, norteiam o movimento sugerido por Prem Baba. Não se enganem, transformação pressupõe ação sensível.

 

Ressignificação

Característica presente neste e em outros livros, a busca por conceituar palavras e sentimentos à luz de sua filosofia é primordial para Prem Baba. Essa lógica permeia toda a leitura de Transformando o sofrimento em alegria. O medo, por exemplo, é definido por ele como o “guardião dos sentimentos negados e suprimidos”. E é fundamental absorver essa noção para entender o percurso que pode nos levar ao momento oposto, ao da verdade – ou melhor, ao da verdade do amor. “Você é uma manifestação do amor divino, você é a fonte do amor – você é o próprio amor. Removendo o véu da mentira e podendo reconhecer-se como uma manifestação divina, o amor flui de você. Se o amor estiver fluindo com fartura de você, é natural que você também o receba com fartura. Essa é a lei de causa e efeito”, explica o Pai do Amor.

O mesmo ocorre com a (palavra) humildade. O senso-comum eventualmente associa seu significado à submissão, conotação refutada por ele, que assegura: “A verdadeira humildade surge através do perdão em relação ao passado”. Adiante, ele também questiona o fato de que muitos consideram sexualidade e espiritualidade como expressões antagônicas. “Se você tem dificuldade de se unir ao outro, significa que existe desunião em você”, pondera.

 

As três etapas

Na segunda das cinco partes do livro, o guru estabelece três estágios do desenvolvimento da consciência, caminho sem o qual a purificação da alma não acontece. No primeiro, os impulsos inconscientes dominam a pessoa, que se identifica com traumas, complexos e feridas do eu inferior. Depois, já na segunda etapa, a percepção de que o eu inferior não representa a realidade final começa a ganhar evidência – esse momento é marcado por uma compreensão mais aguçada da identidade, da existência de “eus” transitórios. O amadurecimento leva a pessoa ao terceiro estágio, quando é possível escolher dar passagem ou não para as manifestações do eu inferior. Nessa etapa, é preciso ter cautela para não se deixar enganar pelas armadilhas do ego, cujo poder ele deseja manter.

 

Sentimentos livres

O processo de purificação impõe desafios, especialmente no que diz respeito à dificuldade natural de acessar certos sentimentos. O confronto com seus próprios nós é tão delicado quanto imprescindível. É preciso descosturá-los, quebrar esse muro, libertar sentimentos, parar de fugir de fantasmas presos a um passado já caduco. Por que mantê-los vivos dentro de si? “Se você está retraído ou isolado, sua mente está presa ao passado (…) Procure o que você não consegue aceitar na sua vida. Se não aceitou o passado, não é possível aceitar o presente. Você tem vergonha de carregar um ponto escuro. Descubra qual é esse ponto. Então utilize a chave da aceitação. Quando você aceita, a vergonha se transforma”, escreve Prem Baba.

 

Transformação dos relacionamentos

Uma das principais propostas do livro é justamente ajudar o leitor a construir relacionamentos mais saudáveis, levando em conta que a intimidade com outra pessoa traz à tona aspectos pouco agradáveis da nossa personalidade. Aqui novamente a ideia da “arte de perder” é essencial. Para Prem Baba, as máscaras que usamos em nossos relacionamentos – fruto da necessidade de agradar a qualquer custo para forçar o outro a dar um amor exclusivo – acabam por impedir que esse amor seja vivido plenamente, abrindo brechas para a instalação do rancor. “Você está tão identificado com essa máscara que não percebe que a raiz do desconforto é justamente o fato de não poder ser você mesmo (…) É tempo de reconhecer e aceitar que é essa a estratégia do seu ego. Só assim será possível escolher outro caminho”.

 

Máscara do amoroso esconde dominador

Em outro momento dessa discussão acerca dos relacionamentos, o guru chama a atenção ao fato de que muitas pessoas se sentem culpadas por sentir prazer. Isso gera desconfiança. “Como não consegue enxergar a própria sombra, você vê a sombra somente no outro. Por exemplo: você carrega o desejo de ter vários parceiros, mas nega esse desejo. Inevitavelmente, você começa a projetar isso no outro e a desconfiar que ele vai traí-la”. É importante estar atento aos nossos sentimentos a fim de evitar a lógica de relações nutridas sob a sombra da dominação, que esconde dominadores em busca de escravos. “Você ama, mas se o outro sai da linha um centímetro a bela se transforma em fera. Todo o amor desaparece e o ódio emerge do lado negro”.

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