Autoconhecimento é fundamental

28 de novembro de 2017 | por Filipe Isensee

Me desculpem os descrentes, mas autoconhecimento é fundamental. Taí uma palavra que não se pode perder de vista. Certamente, está entre as mais repetidas neste blog, revisada e endossada por autores com histórias de vidas díspares entre si. Sim, o autoconhecimento mora na filosofia – basta lembrar o aforismo milenar “conhece-te a ti mesmo”, inspiração para as ideias de Sócrates -, mas não se restringe a ela. Longe de ser vocábulo da moda, com validade obsoleta, é árvore frondosa e resistente, cuja raiz está instalada no mistério de quem somos. “O campo que se abre na dimensão do Ser é tão fértil que não há como o ego seguir imperando”, diz Fernando Schultz, responsável por editar e organizar os relatos que compõem Eu maior.

O livro é um desdobramento do documentário homônimo lançado em 2013, dirigido pelos irmãos Fernando e Paulo Schultz, e apresenta depoimentos que ficaram de fora do longa. Mantém, contudo, a proposta de reflexão coletiva, costurada como numa conversa, dividida em 18 capítulos – o trabalho minucioso de entrelaçamento de falas durou um ano. Com isso, quer oferecer a oportunidade de ultrapassar a palavra para se aproximar do seu significado e, a partir da experiência de outras pessoas, estabelecer possibilidades de aprofundamento da essência.

Tema central, o autoconhecimento abraça muitas outras causas e o livro tenta dar conta delas. Assim, a troca de ideias passa também por discussões sobre felicidade, sentido da vida, dor, Deus, amor etc, permitindo o contraditório e as opiniões diferentes. Algumas histórias, ancoradas em dramas íntimos, destacam-se por seu tom confessional; outras se constroem de forma bem-humorada e leve; há também aquelas espertamente didáticas. O lugar de fala, de qualquer modo, é heterogêneo, ocupando espaços da arte, do esporte, da política e da religiosidade, entre outros. O diálogo confeccionado para o livro inclui participações de 30 nomes, como o filósofo Mario Sergio Cortella, o mestre espiritual Sri Prem Baba, a atriz Letícia Sabatella, o escritor Rubem Alves, a cineasta Laís Bodanzky, o surfista Carlos Burle e o músico Marcelo Yuka.

No primeiro capítulo, Schultz recupera a mensagem de Prem Baba, que explica justamente o significado do Eu Maior. “É a nossa verdadeira identidade. É Deus em nós. Costumo dizer que, enquanto a pessoa acredita ser qualquer outra coisa que não esse Eu Maior, ela vive num estado de sono. Ela está dormindo e sonhando. Às vezes o sonho é bom; às vezes é ruim, mas inevitavelmente ele nos leva ao sofrimento, pelo fato de se manifestar no plano da mente, que é dual, gerando a ilusão de que somos separados do Todo. Essa ilusão de separação é que dá origem ao egoísmo, a doença do ego. O Eu Maior está além da dualidade e da separação, portanto está além da mente e do ego”. Esse é apenas o ponto de partida.

Abaixo, você confere a seleção de cinco depoimentos contidos no livro. Quem se interessar pelo tema pode ver o filme no site do projeto.

 

Os gritos de Marcelo Yuka

No capítulo sobre o sentido da vida, ele recorda o episódio em que foi baleado durante um assalto, em novembro de 2000: “A lesão na minha coluna foi grave o suficiente para me fazer perder os movimentos das pernas, mas não o suficiente para eu deixar de sentir dores. Eu senti- ainda sinto – muitas dores, mas, por incrível que pareça, piores que as dores físicas são as dores psicológicas (…) Para você ter uma ideia, há coisa de dois, três anos atrás, eu ainda gritava dormindo. No dia seguinte, os meus enfermeiros diziam: “Marcelo, você gritou a noite toda”. E eu nem lembrava que tinha tido pesadelo. Talvez nem tivesse sido um pesadelo, mas eu gritava do mesmo jeito. Certamente, era alguma coisa que estava me incomodando no meu inconsciente. Foi só quando eu comecei a me sentir mais no controle de uma possível mudança e a curva começou a subir de novo que consegui dormir melhor. Aí, sim, os gritos sumiram”.

 

A felicidade para Rubem Alves

“Um dia eu estava conversando com uma amiga, no interior de Minas, e ela disse o seguinte: ‘Rubem, eu faria um trato com Deus. Eu daria um ano de minha vida se ele me desse de volta uma das noites da minha infância. Porque de noite, lá em casa, tinha fogão a lenha. A gente ficava na cozinha e estava o pai, estava a mãe, tinha pipoca. E a mãe falava: “Eu vou lá fora pegar umas folhas de laranja pra fazer um chá para nós’. E o meu pai dizia: ‘Mulher, você vai ficar estuporada’. Toda noite era assim, e olha que ela nunca ficou estuporada! Isso, para mim, é parte do céu, e o que a gente quer no céu não é o novo; a gente quer recuperar a felicidade efêmera que tivemos em certos momentos da vida’. Como cada um tem um céu diferente, talvez seja por isso que haja tantos tipos de felicidade”.

 

Deus, segundo a budista Monja Coen

“Muita gente que conhece o budismo acha que, para os budistas, Buda é Deus. Na verdade, Buda era um ser humano, como eu e você, com a diferença de que ele despertou para a Verdade. Meditando, ele experienciou a realidade do Absoluto, do Todo. Só que uma experiência como essa não pode ser traduzida em palavras. Ela precisa ser vivenciada na primeira pessoa, e, para que isso ocorra, é melhor que a mente esteja livre de ideias preconcebidas. É por isso que no budismo não há um conceito de Deus. Quando perguntavam a Buda sobre Deus, ele permanecia em silêncio”.

 

Carlos Burle e a morte

“A minha experiência mais próxima da morte foi uma queda que sofri no Havaí, surfando a onda de Jaws. Enquanto estava debaixo d’água, vi o filme da minha vida passando na minha frente. O que mais me surpreendeu foi que não fiquei com medo de morrer. Pelo contrário, me veio até uma sensação de alívio, como se a morte significasse que eu não ia sofrer mais. Falando assim, pode até parecer que eu não gosto de viver ou não tenho pelo que viver. Nada disso: eu adoro viver! Aliás, não faço a menor ideia do que me espera do outro lado, mas nem por isso fico com medo. Essa experiência em Jaws me mostrou que a morte pode ser um descanso desta vida e a oportunidade de um novo começo”.

 

A atuação de Letícia Sabatella

“Já fiz personagens que vão da mulher santa à mulher mais diabólica. Algumas delas me abarcaram de tal forma que a minha saúde ficou prejudicada e precisei de um longo período para me reorganizar. Daí a importância de se buscar equilíbrio fora do palco também (…) Eu procuro viver esse processo como se fosse uma aventura – uma caça ao tesouro ou um mergulho mítico numa determinada história. Tecnicamente falando, a minha preparação começa com um esvaziamento de mim mesma. Procuro abrir espaço para que essa energia venha e me utilize. Em alguns trabalhos, eu sou mais feliz nesse exercício. Quando o projeto me dá mais tempo de preparação, consigo me esvaziar plenamente. Aí a energia passa por mim sem filtros e eu me surpreendo o tempo inteiro com o que está vindo. É como se eu tivesse experimentando, na atuação, aquela liberdade que se experimenta no sonho, quando o ego não está interferindo”.

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