Achados & Perdidos da História: Escravos

17 de novembro de 2017 | por Editora Sextante

A depressão e o suicídio dos escravos brasileiros aparecem em diversos relatos de médicos e viajantes do século 19. Falava-se muito na época sobre o banzo, “um ressentimento entranhado por qualquer princípio, como a saudade dos seus, de sua pátria, o amor devido a alguém, a ingratidão, a aleivosia que outro lhe fizera, a cogitação profunda sobre a perda da liberdade, a meditação continuada da aspereza (…) que com o tempo os leva à sepultura”, como escreveu o médico Luís Antonio de Oliveira Mendes em 1793.67 Sobre africanos vindos do Gabão, o viajante Henry Koster afirmou que “são muito sujeitos ao desânimo e ao suicídio subsequente. Sucede que há exemplo de que dez ou vinte desses negros, adquiridos juntos, em pouco tempo todos morrem de desgosto, ou puderam encontrar um fim para suas vidas de maneira mais sumária”.

Mais recentemente, estudiosos analisaram os dados sobre suicídios em cidades brasileiras e constataram uma quantidade desproporcional de escravos entre os suicidas. Em Salvador, por exemplo, os escravos eram 27% da população, mas 60% dos suicidas entre 1847 e 1860.69 Analisando 319 notícias de suicídio publicadas na Gazeta de Campinas entre 1871 e 1877, uma psiquiatra e um biomédico encontraram pistas sobre o motivo que levou os escravos a tirarem a própria vida. Entre eles, a insatisfação com o cativeiro, problemas mentais ou amorosos e a recusa de se separar da família e acompanhar o patrão para outra cidade. Como nesta notícia de 1879:

Consta-nos que no município do Atibaia, no dia 5 para o 6 do andante, suicidaram-se, atirando-se a um tanque, quatro escravas, sendo duas mães e duas filhas; tentando suicidarem-se mais três, que foram imediatamente socorridas. Segundo informaram-nos foram levadas àquele ato de desespero por não quererem acompanhar seu novo senhor, fazendeiro, residente no município do Amparo, que as veio buscar. Ignoramos os pormenores do fato.

Outro caso registrado como suicídio foi o da escrava Juliana, morta em 1862 numa fazenda em São Caetano do Chopotó, Minas Gerais. A polícia abriu um inquérito de rotina, ouviu escravos e o dono de Juliana, João Dantas, e concluiu que ela havia se matado tomando veneno que guardava numa caixa.

Seis anos depois da morte, porém, quatro escravos de João Dantas procuraram a Justiça para denunciar o dono. Contaram que, na verdade, o fazendeiro matou Juliana a pauladas e depois convenceu dois escravos a confirmarem a versão de suicídio durante o depoimento à polícia. Segundo os denunciantes, tudo começou com uma briga entre Juliana e sua senhora. A mulher de João Dantas deu um tapa na escrava, que reagiu com um tição (um pedaço de lenha em brasa). “Então o réu pediu um relho [uma correia para tocar bezerros] e deu na mesma escrava três relhadas” nas costas, contou uma das testemunhas. Juliana também teria levado cacetadas na cabeça.

Ao consultar os registros, os policiais perceberam que uma contusão de mais de uma polegada de diâmetro na cabeça tinha sido registrada pelo legista seis anos antes. Com essas evidências nas mãos, a polícia confiou no depoimento dos escravos e prendeu o fazendeiro João Dantas. Ele recorreu dias depois, mas a Justiça negou sua liberdade. Não se sabe o desfecho do caso, mas a impressão é que a morte de Juliana acabou sendo vingada. De uma forma ou de outra, o caso de Juliana mostra que talvez as altas taxas de suicídio dos escravos não sejam só consequência de desilusão ou depressão – muitos assassinatos podem ter sido disfarçados de suicídio para livrar os senhores da condenação.