A voz do coração e o encontro da alma gêmea

13 de novembro de 2017 | por Filipe Isensee

Sob o aparente verniz de clichê que ronda conversas sobre alma gêmea – ela mesma, a tal metade da laranja – pulsa primeiramente um desejo de não ser só. É algo comovente em sua simplicidade, portanto é preciso olhá-la com menos desdém. Certos solitários, sem itinerário, estão em busca dela. Alguns comprometidos também. Ambos incompletos. De novelas a filmes, a ficção ensinou: mais que companhia ocasional, uma alma gêmea é o par que completa, entrelaçado a você com a desobediência do tempo, deliciosamente arteiro ao promover sem pudor desencontros vidas adentro. Parece devaneio? Brian Weiss, autor de Só o amor é real, afirma que não. A certeza do escritor e psiquiatra de 73 anos é fundamentada na experiência como terapeuta de vidas passadas. Dessa vivência, resgatou a história de Elizabeth e Pedro, pacientes cujos nomes verdadeiros manteve em sigilo; duas solidões atadas e desatadas por diversas reencarnações, ocupando novamente o mesmo tempo-espaço, tendo o médico como testemunha.

Além de narrador, coube a Weiss outro papel determinante. Responsável pelas regressões, ele precisou escolher entre contar ou não o que havia descoberto. Parte do livro é dedicado justamente à montagem desse quebra-cabeça do destino, da constatação da inusitada sintonia entre os “desconhecidos” à dúvida imposta por ela. A inconsistência de relacionamentos que padeciam sem cor e a angústia monocórdia levaram Elizabeth e Pedro a procurar ajuda. Mas foi a construção de uma história comum na Palestina, aparentemente soterrada pelo tempo, a iluminação necessária para o psiquiatra identificar as almas gêmeas desencantadas. “O processo de regressão é como a busca de petróleo. Nunca se sabe onde o petróleo está mas, quanto mais fundo se perfurar, melhores serão as chances de encontrá-lo”, sustenta Weiss, também autor de Milagres acontecem e Muitas vidas, muitos mestres.

Essas viagens ao passado ajudaram os dois a identificar a origem de certos medos e a extrair lições importantes. “Aprendi que a violência é uma profunda ignorância. Morri longe da minha pátria e de meus entes queridos. Morri em decorrência da cobiça alheia”, constatou Pedro durante uma das sessões. Em outra, descobriu ter sido uma mulher de grandes olhos azuis e roupas elegantes, uma prostituta muito requisitada na Alemanha após a Primeira Guerra Mundial. As dores crônicas no pescoço e no ombro, reclamações constantes dele, vinham dessa vida e, segundo o psiquiatra, desapareceram gradualmente após a revelação. “Muitos dos meus pacientes sofriam de profundo pesar, de medos e fobias, de relacionamentos frustrantes. Muitos haviam encontrado seus entes queridos em outros tempos e outros lugares. Muitos conseguiram curar suas aflições ao recordar vidas passadas e atingirem estados espirituais”, esclarece o autor.

A verdade sobre Elizabeth e Pedro foi tecida aos poucos. Após recordar as diversas existências da dupla, Weiss juntou as pontas de um lamento comum, ocorrido na Palestina. Numa regressão, ela contou ter sido filha de um oleiro morto por soldados romanos. Em sua sessão, por sua vez, Pedro descreveu um acontecimento idêntico e se emocionou ao recordar a despedida da filha que tanto amava. A coincidência intrigou o psiquiatra, que encontrou outras vidas compartilhadas pelo casal: “Pai e filha. Namorados de infância. Marido e mulher. Quantas outras vezes no decorrer da história eles haviam partilhado da mesma vida e do mesmo amor? Estavam juntos de novo e não sabiam disso. Ambos sentiam-se solitários, ambos sofriam a sua maneira. Ambos estavam sedentos e, no entanto, havia um banquete à sua espera, um banquete do qual eles ainda não podiam provar”.

Contar ou não contar? Era essa a questão para Brian Weiss. A resposta está no livro, mas para além dela, o médico reforça uma lição elementar: “Escute a voz do seu coração, do seu próprio saber intuitivo ao tomar decisões importantes, principalmente ao decidir quanto a uma dádiva do destino, como o reencontro de uma alma gêmea. O destino irá depositar a dádiva diretamente a seus pés, mas o que você decidirá fazer com ela depende de você. Se ouvir unicamente os conselhos de terceiros, pode cometer erros terríveis. O seu coração sabe do que você precisa”.

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