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13 de novembro de 2017 | por André Sequeira

Quando comecei a leitura de Fazendo as pazes com o corpo, de Daiana Garbin, esperava encontrar apenas um livro sobre distúrbios alimentares e suas consequências na vida das pessoas. Digo “apenas” não pela falta de importância do tema – muito pelo contrário –, mas porque percebi ser muito mais do que isso.

Corajosa e direta, Daiana relata sua jornada para vencer a relação doentia com a comida e sua obsessão pelo corpo perfeito – algo que ela, hoje, sabe não existir. Desde pequena ela convive com o chamado transtorno alimentar não especificado, no qual a pessoa apresenta comportamento nutricional desiquilibrado em relação à comida, gerando prejuízos à saúde. Ele é “não especificado” porque não se encaixa em todos os critérios de nenhum transtorno específico. Segundo Daiana, era a distorção da imagem corporal que fazia com que ela se enxergasse de uma maneira totalmente diferente de como outros a viam. As consequências desta visão distorcida foram a depressão, o vício em remédios e a solidão.

Ao realizamos que Daiana se vê gorda mesmo estando magérrima, devemos imaginar problema semelhante em pessoas que se veem feias mesmo sem motivo; ou exageradamente azaradas; ou profissionais ruins, etc. Esta é a prova de que vivemos em uma sociedade que nos faz a todo momento nos contestarmos e que nos exige excelência em todos os níveis. Com o surgimento das redes sociais, a importância da opinião alheia cresce mais a cada ano. Beleza exterior, felicidade aparente, emprego perfeito, entre muitos outros quesitos, tornaram-se fundamentais na vida de cada um. Diante de tal pressão, o número de pessoas sucumbindo psicologicamente aumenta a cada ano, segundo os médicos.

Agora pense: em quantas oportunidades você já se imaginou pior do que alguém ou, até mesmo, o pior em determinado assunto? Particularmente, percorri as páginas deste livro a todo momento refletindo sobre minhas fraquezas e, talvez pela primeira vez, contestando-me sobre a veracidade delas. O curioso é que lia a respeito de distúrbios alimentares e, na verdade, percebia assuntos distintos ao trazer todos as páginas para minha própria vida. Tenho certeza que todo leitor terminará a obra com vontade de dividir suas angústias com um amigo, um familiar ou um profissional.

Demorou décadas até que Garbin, ex-repórter da Rede Globo, aceitasse que o que ela tinha não era maluquice nem frescura ou vaidade, mas uma doença. Para isso, foram fundamentais o apoio do marido, o também jornalista Tiago Leifert, e a decisão de dividir com as pessoas, via internet, tudo por que ela passou e ainda passa na vida. Com seu canal no Youtube e perfis nas redes sociais, hoje ela troca experiências com centenas de milhares de pessoas que, assim como ela, possuem transtornos alimentares. A consequência é que, com isso, foi cada vez mais fácil para ela abordar a doença, além de ter percebido que não estava sofrendo sozinha no mundo. Fazendo as pazes com o corpo traz, inclusive, vários depoimentos marcantes de pessoas que relatam sua realidade dolorosa e como entraram numa espiral de sofrimento da qual não conseguem mais sair.

Daiana levanta a questão importante de aprendermos a lidar e gostar do corpo que temos, seja ele qual for. O importante é encontrarmos a melhor versão de nós mesmos e aprendermos a nos defender e nos blindar do que a sociedade impõe como perfeição. Isso vale, é claro, não só para o corpo, mas para tudo em nossa vida. A história da jornalista também mostra como é importante os pais identificarem possíveis distúrbios na infância, estando atentos para as reações dos filhos e se eles estão agindo naturalmente em seu dia a dia.

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