O homem mais feliz da história

6 de novembro de 2017 | por Editora Sextante

Jerusalém era um museu a céu aberto, o pulmão dos acontecimentos mundiais. Nenhuma outra cidade do planeta – Nova York, Xangai, Tóquio, Paris, São Paulo – produzia tantas informações para as agências de notícias. Pelas suas artérias circulavam asiáticos, europeus, americanos, latinos, africanos, todos desesperados para respirar o oxigênio da história. Milhões de pessoas afluíam para os locais por onde passou, há dois milênios, um carpinteiro que abalou o mundo.

“Ele andou por aqui”, diziam alguns guias turísticos, comovidos, acompanhando grupos de japoneses, chineses, coreanos.

“No Jardim das Oliveiras ele foi traído”, proclamavam outros guias, acompanhando grupos de franceses, alemães, italianos.

“Eis o Santo Sepulcro”, falavam ainda outros guias, com entusiasmo, acompanhando norte-americanos, latinos, africanos.

As pessoas se emocionavam ao descrever seus comportamentos, mas não tinham a menor ideia de que Jesus foi a mente mais complexa que pisou nesta Terra. Não entendiam que, com uma das mãos, o carpinteiro entalhava madeiras, com a outra, a personalidade humana. Ele usou códigos de gestão da emoção únicos que objetivavam revolucionar a história da humanidade.

Os códigos de Jesus ficaram encobertos aos olhos não apenas dos cientistas, mas também de bilhões de religiosos que o admiraram ao longo da história. Jamais um homem tão elogiado foi tão desconhecido.

Todavia, um ousado pensador da psiquiatria, Dr. Marco Polo, ateu declarado, pesquisador determinado, estava em Jerusalém, em pleno século XXI, não para visitar sítios arqueológicos, mas para realizar algo impensável, uma jornada épica que as ciências e as religiões não tiveram coragem ou habilidade de fazer: estudar a sofisticada mente de Jesus sob o prisma da ciência.

“Se tivesse vivido nos tempos da Inquisição, Dr. Marco Polo, você seria o primeiro a ser atirado na fogueira”, diziam as pessoas que o encontravam.

Marco Polo procurava ansiosamente encontrar incoerências nas teses de Jesus, debilidades em seus pensamentos e fragmentações em sua personalidade. Mas, quanto mais pesquisava, mais ficava atônito, perplexo, assombrado. Tal qual o aventureiro veneziano que há muitos séculos explorou o mundo antigo, Marco Polo era também um explorador, só que de outro mundo, mais complexo e mais acidentado: o intelecto humano. Nunca um ateu tão famoso e destemido se abalou tanto. Suas análises sem viés religioso desse enigmático personagem o levavam a
mapear as insanidades da humanidade, bem como as próprias fragilidades e “loucuras”.

“Tenho caído do pináculo do meu orgulho”, dizia para seus amigos íntimos.

Certa noite de lua minguante, fria, silenciosa e aparentemente sem surpresas em Jerusalém, o audacioso psiquiatra teve uma crise de terror enquanto dormia. Marco Polo acordou desesperado, taquicárdico, ofegante, pingando suor. Tivera pesadelos sobre algo incomum: o futuro da família humana. Nesses pesadelos viu o assassinato da infância das crianças, uma epidemia de suicídios, violência nas escolas, discriminação de todas as ordens, a ditadura da beleza, a solidão tóxica na era digital…

“O que está acontecendo com a espécie humana? A humanidade está se tornando inviável!”, disse assombrado para si mesmo ao despertar. Seus olhos estavam embebidos em lágrimas. E completou: “Estamos aprendendo a nos odiar, a nos distanciar, a nos alienar, quando deveríamos aprender a amar, abraçar, incluir…”

O grande pensador da psiquiatria parecia estar sendo devorado por predadores. Suas ideias o consumiam por dentro. Seu pânico era alimentado por duas equações emocionais que afetavam o futuro de nossa espécie e que estavam lhe perturbando o sono.

“Por que estamos diante da geração mais triste de todos os tempos se temos a mais poderosa indústria para financiar o prazer da história?” Assim, angustiado, elaborou a primeira equação. Em seguida, proferiu a segunda: “Por que toda a humanidade está adoecendo emocionalmente se a medicina, a psiquiatria e a psicologia deram saltos surpreendentes?” Era uma tarefa dificílima compreender as causas que entristeciam a humanidade e que nutriam altos índices de ansiedade, esgotamento cerebral, depressão, suicídios e violência social. Poucos enxergavam ou se importavam com essas duas questões.

O Homo sapiens da era digital era egocêntrico, lutava por seus países, partidos políticos, universidades, religiões, enfim, por seus currais ideológicos, mas raramente pensava como humanidade e chorava por ela. Diante disso, apesar das próprias imperfeições, Marco Polo vertia lágrimas pela família humana.