O caminho da criação sem sofrimento: salte e a rede vai aparecer

24 de outubro de 2017 | por Filipe Isensee

O que é arte? Para além da nebulosidade que envolve os tempos atuais, as respostas para essa pergunta aparentemente simples já dobraram séculos, quiçá milênios, sem jamais se ater a uma resolução apenas. Passado e presente, porém, confirmaram seu status incômodo e provocador. Ferreira Gullar arrematou: “A arte existe porque a vida não basta”. Desde nascida, ela parece ser mesmo escorregadia, embora não falte gente correndo atrás dela, capturando-a uma só vez (se muito) para depois vê-la fugir sem prestar contas ou queixas. É a sina de muitos artistas. A escritora norte-americana Julia Cameron aposta numa jornada menos árida para se chegar a esse êxtase iluminado. Ela criou e defende uma metodologia capaz de tornar firme o elo entre criadores e arte. Daí nasceu O caminho do artista, cuja primeira publicação é de 1992 – desde então, quatro milhões de livros foram vendidos.

“Artistas são visionários. Praticamos uma forma de fé, enxergando um objetivo criativo que reluz a distância e seguindo em sua direção. Muitas vezes ele é visível para nós, mas não para os outros à nossa volta”, frisa Julia. Já nas primeiras páginas do livro, ela afirma acreditar numa conexão entre a força criativa e um certo tipo de transcendência. Assim, entende esse caminho como uma jornada espiritual, sendo Deus a referência de criador. Aos que não compartilham desse sentimento, esclarece: “Não deixe que a semântica se torne mais um problema para você (…) O importante não é a palavra, e sim o que ela representa. Muitos pensam nessa energia como uma forma de eletricidade espiritual que serve de ponto de partida, uma plataforma de lançamento”.

Julia recorda sua própria vivência para fazer o método e relata, por muitos anos, ter tido sua criação condicionada à ingestão de bebidas alcoólicas. “Era criativa, sim, mas em jorros, como o sangue saindo de uma artéria cortada. Na semana em que parei de beber, havia acabado de publicar duas matérias em revistas de circulação nacional e concluído o roteiro de um filme. Por outro lado, o álcool havia assumido o controle sobre minha vida”. Um olhar mais atento sobre seus processos, a luta contra a dependência e a convivência com pessoas que sofriam o temido bloqueio criativo ajudaram a formatar essa metodologia dividida em 12 semanas. Ao elaborar ferramentas úteis para a manutenção constante de ideias férteis, ela conseguiu romper uma lógica devastadora que associa criação ao sofrimento. Um clichê que precisa ser desmontado de vez.

As 12 semanas foram pensadas com o objetivo de recuperar sentimentos e valores que se fragmentaram ou se perderam, indo do “Recuperando o senso de segurança”, da primeira semana, ao “Recuperando o senso de fé”, da última. “À medida que você executa as tarefas semanais, muitas mudanças terão início. A principal será o desencadear da sincronicidade: nós mudamos e o Universo incrementa e expande ainda mais essa mudança. Tenho uma frase irreverente para isso que fica sempre colada na minha escrivaninha: ‘Salte e a rede vai aparecer’”, sintetiza Julia os passos de O caminho do artista.

Trata-se de uma jornada de autoconhecimento. Não há como escapar de você mesmo. O processo, claro, pressupõe uma investigação de anseios e medos, e um olhar mais cuidadoso tanto para si quanto para o que está a nossa volta. Entre as dicas, está a escrita diária de páginas matinais, exercício que Julia afirma realizar ininterruptamente há dez anos e que considera ser a principal ferramenta para a recuperação criativa. A proposta não poderia ser mais simples: “Três páginas escritas à mão, com pensamentos em livre associação”. Não há necessidade de tiradas inteligente ou elaboração demasiada no texto: o importante é escrever. Escreva, não mostre a ninguém e nem fique tentado a revisar, apenas vire a página, mude a folha, siga adiante. “Nada é mesquinho, tolo, estúpido ou esquisito demais para ser incluído”, ela destaca. De certa forma, esse exercício é uma das chaves para abrir portas durante todo o caminho.

A escritora chama a atenção para a presença constante do Censor, “nosso perfeccionista interior, um crítico maldoso e eterno”. O desafio é, pouco a pouco, contornar as projeções pessimistas dessa instância que confunde e embaça a criação. “Deixe que ele resmungue (pois ele o fará). Apenas mantenha sua mão preenchendo o papel. Escreva até os pensamentos do Censor, se quiser. Perceba como ele adora mirar na sua jugular criativa. Não se engane: o Censor está lá para pegá-lo. É um inimigo ardiloso”, Julia destaca. Sem dúvida, é uma lição fundamental para aproveitar melhor as 12 etapas propostas no livro e as muitas outras fora dele. Se não há uma única resposta para o que é arte, fica cada vez mais claro que sua manifestação genuína – dentro ou fora da gente – se perpetua num pacto com a liberdade. Não nos afastemos dela.

 

Principios básicos da criatividade, segundo Julia Cameron

1 – A criatividade é a ordem natural da vida. A vida é energia: pura energia criativa.

2 – Por trás de toda vida há uma força criativa que permeia tudo – inclusive nós mesmos.

3 – Quando nos abrimos à nossa criatividade, nós nos abrimos à criatividade do criador dentro de nós e de nossa vida.

4 – Nós mesmos somos criações. E fomos feitos para continuar a criação sendo nós mesmos criativos.

5 – A criatividade é uma dádiva de Deus. Usá-la é o presente que damos a Deus em retribuição.

6 – A recusa em ser criativo é uma escolha que contraria nossa verdadeira natureza.

7 – Quando nos abrimos a explorar nossa criatividade, nós nos abrimos a Deus: a direção boa e ordenada.

8 – Ao abrir nosso canal criativo ao criador, muitas mudanças sutis mas poderosas podem acontecer.

9 – É seguro nos abrirmos para uma criatividade cada vez maior.

10 – Nossos sonhos e desejos criativos vêm de uma fonte divina. Ao nos lançarmos rumo a nossos sonhos, nós nos lançamos à nossa divindade.

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