A história secreta da criatividade

17 de outubro de 2017 | por Editora Sextante

Um fim para o gênio

A crença renascentista de que a criação é reservada ao gênio sobreviveu durante o Iluminismo do século XVII, o Romantismo do século XVIII e a Revolução Industrial do século XIX. Somente em meados do século XX, a partir dos primeiros estudos do cérebro, surgiu a visão alternativa de que todo mundo é capaz de criar.

Na década de 1940, o cérebro era um enigma. Os segredos do corpo haviam sido revelados por vários séculos de medicina, mas o cérebro continuava sendo um quebra-cabeça. Esse é um motivo para as teorias da criação fazerem uso da magia: o cérebro, trono da criação, era um quilo e meio de mistério cinza e impenetrável.

Enquanto o Ocidente se recuperava da Segunda Guerra Mundial, surgiam novas tecnologias. Uma foi o computador. Essa mente mecânica fez com que o entendimento do cérebro parecesse possível pela primeira vez. Em 1952, Ross Ashby sintetizou a empolgação em um livro chamado Design for a Brain (Projeto para um cérebro). Ele resumiu com elegância o novo pensamento:

Os fatos mais fundamentais são que a Terra tem mais de 2 bilhões de anos e que a seleção natural vem peneirando os organismos vivos de forma incessante. Como resultado, hoje estes são altamente especializados nas artes da sobrevivência. E uma dessas artes é o desenvolvimento do cérebro, um órgão que foi aprimorado na evolução como um meio de sobrevivência especializado. O sistema nervoso, e a matéria viva em geral, será considerado por essência semelhante a todas as outras matérias. Nenhum deus ex machina será invocado.

Dito de modo simples: os cérebros não precisam de magia. Um morador de São Francisco chamado Allen Newell chegou à idade acadêmica nesse período. Atraído pela energia da época, abandonou o plano de se tornar guarda florestal (em parte porque seu primeiro serviço foi o de alimentar trutas com fígado gangrenoso de bezerro) e se tornou cientista. E então, na tarde de uma sexta-feira em novembro de 1954, vivenciou o que mais tarde chamaria de “experiência de conversão” durante um seminário sobre reconhecimento de padrões mecânicos. Decidiu dedicar a vida a uma única pergunta científica: “Como a mente humana funciona no universo físico?”

“Agora sabemos que o mundo é governado pela física”, explicou, “e entendemos como a biologia se aninha de modo confortável nesse mecanismo. A questão é: e como a mente faz isso? A resposta deve trazer os detalhes. Preciso saber como as engrenagens rodam, como os pistões se movem e todo o resto.”

Enquanto embarcava nesse trabalho, Newell se tornou uma das primeiras pessoas a perceber que a criação não exigia genialidade. Num artigo de 1959, intitulado “Os Processos do Pensamento Criativo”, ele revisou os poucos dados psicológicos existentes sobre o trabalho de criação, expondo em seguida sua ideia radical: “O pensamento criativo é simplesmente um tipo especial de comportamento para a solução de problemas.” Ele argumentou, na linguagem moderada que os acadêmicos usam quando sabem que estão descobrindo alguma coisa:

Os dados hoje disponíveis sobre os processos envolvidos no pensamento criativo e no não criativo não mostram diferenças específicas entre os dois. É impossível distinguir, olhando as estatísticas que descrevem tais processos, o criador altamente habilidoso do amador comum. A atividade criativa parece ser apenas uma classe especial de atividade para a solução de problemas caracterizada pela novidade, pelo não convencionalismo, pela persistência e pela dificuldade na formulação dos problemas.

Era o início do fim do gênio e da criação. Fazer máquinas inteligentes forçou um novo rigor no estudo do pensamento. A capacidade de criar estava começando a parecer uma função inata do cérebro humano – possível com equipamento comum, sem necessidade da genialidade.

Newell não afirmou que todo mundo era igualmente criativo. Criar, como qualquer capacidade humana, existe num espectro de competência. Mas todos estão aptos a fazer isso. Não existe uma cerca elétrica entre os que podem e os que não podem criar, com o gênio de um lado e a população em geral do outro.

O trabalho de Newell, junto com as obras de outros participantes da comunidade da inteligência artificial, questionou o mito da criatividade. Como resultado, alguns membros da geração seguinte de cientistas começaram a pensar na criação de modo diferente. Um dos mais importantes foi Robert Weisberg, um psicólogo cognitivo da Temple University, na Filadélfia.

Weisberg era estudante de graduação nos primeiros anos da revolução da inteligência artificial e passou o início da década de 1960 em Nova York, antes de obter seu Ph.D. em Princeton e entrar para o corpo docente da Temple em 1967. Passou a carreira provando que a criatividade é inata, comum e presente em todos.

O ponto de vista de Weisberg é simples. Ele parte da afirmação de Newell, de que o pensamento criativo é a mesma coisa que a solução de problemas, depois a amplia dizendo que o pensamento criativo é o mesmo que o pensamento em geral, mas com um resultado criativo. Nas palavras de Weisberg, “quando alguém diz que uma pessoa está ‘pensando criativamente’, está comentando sobre o resultado do processo, e não sobre o processo em si. Ainda que algumas vezes o impacto das ideias criativas e de seus produtos possam ser profundos, os mecanismos pelos quais uma inovação aparece podem ser bastante comuns”.

Dito de outro modo, o pensamento normal é rico e complexo; tão rico e complexo que às vezes produz resultados extraordinários – ou “criativos”. Não precisamos de outros processos. Weisberg mostra isso de dois modos: com experiências cuidadosamente projetadas e detalhados estudos de casos de atos criativos – desde Picasso pintando Guernica até a descoberta do DNA e a música de Billie Holiday. Em cada exemplo, usando uma combinação de experimentos e história, Weisberg demonstra como a criação pode ser explicada sem recorrer ao gênio e a grandes saltos da imaginação.