Você pode falar com Deus

9 de outubro de 2017 | por Editora Sextante

Rezar com fé

A mera leitura dos princípios espirituais descritos nas páginas deste manual não conduzirá você ao resultado desejado. Recitar fórmulas da boca para fora ou agir mecanicamente não tem o condão de atingir o Pai Celestial. Rezar com fé é requisito para o sucesso de qualquer oração. Foi o próprio Jesus quem ensinou essa verdade: “E tudo o que vocês, na oração, pedirem com fé, vocês receberão” (Mateus 21, 22).

Durante a vida pública de Jesus, percebemos que os milagres aconteciam conforme a fé do povo. A Bíblia nos conta que, enquanto o Mestre esteve em sua própria pátria, não operou muitos milagres por causa da falta de fé das pessoas de lá (Mateus 13, 58).

Lembro-me de um senhor, F., que desde as primeiras reuniões acompanhava o terço. Tinha um amor todo especial por Nossa Senhora da Rosa Mística e, como não havia uma imagem dela na igreja onde ocorriam os encontros, costumava trazer uma de casa. Aproveitava para colocar rosas brancas, amarelas e vermelhas aos pés dela. No final, muito gentil, deixava que os fiéis levassem as rosas.

F. dizia-me que um de seus maiores desejos era ver Nossa Senhora. Durante as orações conduzidas por mim, ele se emocionava, pois sentia a presença de Maria, mas queria vê-la “com seus próprios olhos”. Fazia esse pedido em todas as suas orações, sem obter resposta.

Ao término de cada reunião, vinha me perguntar:

– Pedro, é possível ver Nossa Senhora? Eu queria tanto! Peço sempre a Deus que a revele a mim, mas Ele não atende meu pedido. Hoje, de novo, não a vi.

Respondia que, se Maria Santíssima quisesse e Deus permitisse, poderia aparecer para qualquer pessoa e isso não dependia de mim. Ele abria um sorriso largo e afirmava que, um dia, iria alcançar seu objetivo.

Alguns integrantes do grupo de oração achavam ridículo que o homem desejasse ver Nossa Senhora, pois acreditavam que Ela só apareceria a uma pessoa que tivesse uma vida de santidade. Eu falava que não, pois, se eu a enxergava, outros poderiam ter tal experiência, já que não tenho nada de santo.

Anos se passaram, até que F., já por volta dos 80, adoeceu gravemente. Um câncer fez com que ele fosse internado em um hospital no Rio de Janeiro. Os médicos informaram à família que não havia chance de sobrevivência. Um dos parentes me avisou da situação e comentou que o último desejo de F. era uma visita minha, para rezar com ele, já que tinha me acompanhado nas reuniões por mais de dez anos. Prometi que iria.

Como estava muito atarefado, o tempo foi passando e não conseguia ir ao hospital. Um dia, enquanto estava em meu carro, me dirigindo ao trabalho, I. apareceu e sentou-se no banco do carona. Perguntei o que queria comigo e ele disse que F. faleceria na madrugada do dia seguinte. Era urgente que eu cumprisse minha promessa. Repliquei que provavelmente haveria um horário de visitas e não me deixariam entrar àquela hora. Ele insistiu:

– Vá agora!

Logo que o anjo me deu a ordem, meu celular tocou. Encostei o carro para atendê-lo: era uma pessoa da família de F. Ela explicou que os médicos achavam que ele não conseguiria passar daquela tarde. Sem pestanejar, respondi que estava em meu carro rumo ao hospital. A mulher não acreditou. Afirmei que era verdade, que o encontraria vivo e rezaria com ele. Ela, então, me deu o número do quarto, mas avisou que desconhecia o horário de visitas.

Quando cheguei ao hospital, meu anjo apareceu novamente. Recomendou que eu não parasse ao balcão de atendimento e que pegasse determinado elevador no lado oposto à entrada. Passei pelos seguranças e enfermeiros sem que ninguém questionasse minha presença – era como se eu estivesse invisível. Cheguei à porta do quarto e, ao abri-la, notei que F. estava dormindo, sozinho. Toquei seu braço e ele, de pronto, me reconheceu.

– Pedro, não acredito! Estava rezando o tempo todo para que Deus me mandasse você. Gostaria que me dissesse alguma coisa. Sobre a doença…

Ele se pôs a chorar. Esperei que se acalmasse e disse:

– Meu amigo, você serviu Nossa Senhora durante tantos anos… Ela vai socorrê-lo. Para Deus, você cumpriu sua missão e está na hora de voltar para sua verdadeira casa.

Ele entendeu o recado e voltou a chorar muito.

Pensei que F. estivesse com medo da morte, o que seria absolutamente natural.

– Não tenha medo: todos nós vamos passar por esse momento. O mais importante é que você serviu a Deus e os anjos vêm aqui para acompanhá-lo. Não é bom?

Para minha surpresa, ele respondeu:

– Não estou com medo. Sei que é minha hora. Estou emocionado porque sua presença significa que eu vou ter a companhia de Nossa Senhora! Mas tenho uma queixa.

Preocupado com a frase inesperada, perguntei o que era.

– Ela nunca se mostrou para mim. Não a vi com meus olhos, como gostaria que tivesse acontecido.

Achei aquilo muito interessante e desafiei o homem:

– Mas você não tem fé? Duvida que não vai vê-la? Pode ser que Ela mesma venha buscá-lo. Aí, você terá uma surpresa.

Ele se pôs a rir, parecendo estar feliz.

Aproveitei o bom momento e peguei meu terço no bolso da calça jeans. Ele estava com um de madeira enrolado no punho direito, em meio ao emaranhado de tubos injetados em suas frágeis veias.

– Vamos rezar os mistérios gloriosos? São os que dizem respeito à ressurreição, experiência pela qual você passará.

Ele me deu um belo sorriso. Começamos a rezar e, ao lado da janela do quarto, através de um forte clarão de luz, vi Nossa Senhora vestida de branco. Não disse nada a ele. De repente, F. começou a chorar. Perguntei o que tinha acontecido. Ele falou que sentira a mesma presença que estava acostumado a sentir no grupo de oração e que, pelo odor de rosas que havia penetrado em suas narinas, achava que Nossa Senhora da Rosa Mística estava ali, junto ao seu leito.

Fiquei muito impressionado. Como um homem moribundo podia perceber que Nossa Senhora tinha acabado de entrar no quarto? Como ele esperava que eu dissesse algo, assegurei:

– Meu amigo, Ela está aí mesmo, do seu lado esquerdo, perto da janela aberta. Está sorrindo para você e garantiu que tudo se dará de modo suave.

Ele não conseguiu mais pronunciar nenhuma palavra e chorou copiosamente de alegria.

Quando terminamos o terço, entrou no quarto uma mulher que alegou ser a acompanhante do doente e ficou assustada com a minha presença, pois não era horário de visitas. Perguntou pela enfermeira que deveria estar lá, cuidando de F. durante sua ausência. Eu não sabia do que ela estava falando. Apenas me identifiquei e pedi que avisasse à família que eu estivera lá rezando com ele.

No dia seguinte, recebi uma ligação da mesma parente de F. Ela contou que ele conseguira atravessar todo o dia, que estava muito sereno, mas havia acontecido um fato inusitado, pouquíssimo antes do falecimento.

Perguntei se tinha ocorrido algum acidente. Ela, então, narrou o seguinte:

– Ele havia passado um dia muito tranquilo. De madrugada, começou a se agitar e a apontar na direção dos pés, mas ninguém conseguia entender o que ele queria dizer. Em certo momento, F. respirou fundo e conseguiu, com um fio de voz, perguntar se as pessoas ao redor não estavam sentindo o perfume das rosas. Ficamos todos confusos: perfume de rosas? No quarto do hospital, onde não havia flor? Pensamos que estava delirando, mas ele, firme, voltou a apontar para o mesmo lugar e, lúcido, afirmou que Nossa Senhora se achava lá aos pés de seu leito. Logo depois, faleceu.

F. me deu um grande exemplo de fé: queria ver Nossa Senhora e, o mais importante, acreditava que isso era possível, pois tinha um amor verdadeiro pela Mãe de Jesus e o declarava para quem quer que fosse. No último dia que teve sobre a terra, Maria, com as rosas que ele por tantos anos havia depositado a seus pés, apareceu para F. Uma vitória sensacional!

Ao desligar o telefone, veio à minha mente a carta de São Tiago (capítulo 1, versículos 6 a 8): “É preciso pedir com fé, sem duvidar, porque aquele que duvida é como a onda do mar, que o vento leva de um lado para outro. Quem é assim, não pense que vai receber alguma coisa do Senhor, pois é indeciso e instável em tudo o que faz.”

F. demonstrou que tinha grande fé. Se alguém, todavia, perguntasse a ele o que era a fé, não saberia defini-la. Pouco importava! O que realmente vale para Deus é o seu exercício diário, e não um mero conceito. Algumas vezes, quando enalteço a importância da fé, há gente que não consegue compreendê-la e questiona se é um tesouro tão valioso assim.

Costumo reafirmar sua grande valia e gosto de provocar:

– Alguém saberia explicá-la com exatidão?

Às vezes, aparece algum letrado que me apresenta postulados de homens sábios a respeito do tema. Logo que indago como se faz para aplicar a teoria, não recebo resposta. Percebi que conhecer definições sobre a fé não é pré-requisito para tê-la no coração.

Muita gente gosta de proclamar as belas palavras de São Paulo: “A fé é um modo de já possuir aquilo que se espera, é um meio de conhecer realidades que não se veem” (Hebreus 11, 1). Suas vidas, contudo, não as refletem! Se os problemas se apresentam, sucumbem à tristeza, não encontram uma saída. Por isso, não me canso de repetir nas reuniões do terço que, quando alguém reza com fé, age como se já soubesse que vai receber o que está pedindo a Deus. Tem a certeza de que vai vencer, não importando quão ruim é a situação atual.

Sem a fé, as palavras daquele que faz uma oração caem no vazio. Com a fé, serão alçadas ao mais alto, subindo pelas mãos dos anjos de Deus, sendo entregues na Sala do Trono do Pai. Serão flechas de fogo que atingirão, certeiras, o alvo. Ter fé é uma virtude das mais apreciadas por nosso Criador. Devemos cultivá-la e fortificá-la um pouco mais a cada dia.