O amor é a resposta para tudo

6 de outubro de 2017 | por Filipe Isensee

É preciso falar sobre o amor. Mas não só. É preciso praticar o amor. Talvez mais. É preciso cultivá-lo. De dentro para fora também. Aí quem sabe. Amor é o simples-complexo que não cabe aqui e transborda, fascina, arranha, morde, descortina, desfaz, faz, corre, dribla, cega, chega (quiçá, fica) e transforma. Amor corta e mata, mas sem amor não se vive bem. Os relatos de Trago seu amor de volta sem pedir nada em troca, de Ique Carvalho, ligam-se a alguns desses verbos. Insisto no termo “relato” porque me parece o melhor para ressaltar o coloquialismo do livro, o que permite uma leitura fácil e encadeada, com a qual é inevitável se identificar. Dois fatos desconcertantes – um fim de namoro e a descoberta de que o pai tinha uma doença degenerativa – impulsionam a escrita e, eventualmente, se entrelaçam. A despeito da tristeza, da perversa matemática da morte, ele nos lembra do amor, o perdido e o eternamente preservado.

Não custa reforçar: o amor costura e ensina. Parte do aprendizado de Ique sobre o assunto vem justamente da relação com a família, especialmente com o pai, Juarez Carvalho – ele, aliás, assina o penúltimo relato do livro, o emotivo “Um recado para a vida”. Nos textos, um por vez, o leitor acompanha a severa progressão da doença que tirou os movimentos, a capacidade de falar e de piscar os olhos de Juarez. Nas fotos que vi dele, contudo, a fragilidade imposta pela doença tem como par a alegria de viver. O sorriso que jamais se perde no rosto parece estar ali também como um recado de que a felicidade é possível e, mais até, necessária. Mesmo debilitado, ele vibrou com as conquistas do seu time, o Atlético Mineiro, campeão da Libertadores e da Copa do Brasil, e ao realizar o sonho de conhecer o mar. Frase a frase, Ique dimensiona o amor que os une.

“Em junho de 2013, meu pai foi diagnosticado com uma doença rara. Os médicos disseram que a estimativa de vida dele seriam aproximadamente 90 dias. Em 19 de junho de 2015, quando escrevo este texto, 730 dias depois, meu pai continua vivo”, escreve ele. Nas páginas seguintes, a notícia cortante: “Em um domingo pela manhã, meu pai partiu”. O fim do relato é outro e, de certa forma, cristaliza o verdadeiro percurso proposto pelo livro: “Por mais que eu sinta falta, sei que ele nunca mais vai voltar. Durante anos, pensei que não poderia viver com essa ideia. Mas hoje eu posso sentir que ele pode viver com as estrelas, e eu aqui. Porque uma parte do nosso amor está com ele, mas a outra ficou em mim”. A escritora Adélia Prado, mineira como Ique, já havia sacramentado: “O que a memória ama fica eterno”. Não é também sobre isso que ele fala?

Juarez, pai de Ique, com a bandeira do Atlético Mineiro

Além das histórias sobre o pai, a cumplicidade e o carinho entre ele e a mãe, Ique faz uma espécie de balanço da sua vida sentimental, uma ciranda de amor e desamor. Recorda-se de Mariana, que “levou embora um sutiã, duas calcinhas e a minha vontade de viver”, e de Daniela, a quem disse certa vez: “Eu não posso continuar”. Defende o romantismo, a honestidade nos relacionamentos, ataca machistas-moralistas e, tomando para si o posto de conselheiro ocasional, postula sempre a favor do amor: “Se você for a pessoa mais sortuda desse planeta, a pessoa que você ama irá te amar de volta. E quando isso acontecer, nem você nem ela vão querer ir embora”.

O que é mesmo o amor?

Se ainda não ficou claro, ele instiga: “O amor não é uma pergunta. É a resposta para tudo”.

 

Trago seu amor de volta sem pedir nada em troca em cinco momentos:

“Meu pai me ensinou que ser feliz não é ter uma vida perfeita. Ser feliz é agradecer, reconhecer que vale a pena viver e, mesmo com todas as dificuldades, ainda é possível chorar de felicidade. Então, aproveite a vida. E lembre-se: todo dia é um milagre”.

“Eu descobri que amava a minha namorada quando eu comecei a me preocupar mais com ela do que comigo. Quando ela me fez ver coisas que sozinho eu nunca teria visto. Quando ela me ensinou a importância dessas pequenas coisas, de acreditar em mim mesmo, vencer os medos, abrir mão das minhas chatices, dos meus traumas, do meu egoísmo (…) Ser um cara melhor para ela e para o mundo. Isso é amor. E isso é tudo”.

“A pessoa que irá marcar a sua vida é aquela por quem você se apaixona duas vezes por dia. Quando ela abre os olhos e, de cara amassada, diz: ‘Me abraça!’, é incrível. Num piscar de olhos, aquele toque te leva para o céu. Você fica todo enrolado, dentro daquele abraço apertado. E aquele peito vira um travesseiro para o seu coração descansar. E não há outro lugar no mundo em que você queira estar”.

“Pare de tomar Viagra. Não finja ser o que não é. Não é isso o que uma mulher quer. Ela quer parar. Parar de ser enganada, traída e trocada. Ela quer se apaixonar. Respirar livremente e confiar. Mas isso tudo não interessa. Vocês querem apenas a resposta. Por que as mulheres não amam mais? Não sei. O coração de uma mulher, como muitos instrumentos musicais, depende de quem o toca”.

“Em vida, meu pai amou as pessoas em vez das coisas. E agora que ele partiu, em vez de chorar, vou agradecer por todo o tempo que eu tive ao lado dele, aprendendo, vivendo, e por ele ter deixado a única coisa que realmente tem valor: o amor”.

 

Conheça a página de Ique Carvalho no Facebook: The Love Code

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