Entre o choro e a saudade

4 de outubro de 2017 | por Editora Sextante

A lembrança daquele 4 de maio volta fácil, mesmo seis anos depois. No meio da noite, a voz do outro lado do telefone fala a frase infelizmente já esperada: “Oi, Caio. O vovô morreu.” Mesmo com todo o preparo construído após as visitas ao CTI e a esperança renovada após uma breve melhora, tudo isso parece em vão após as palavras que ninguém deseja ouvir. Dias depois, no enterro, tudo segue parecendo um sonho estranho, em câmera lenta. Entre o choro e as lembranças, uma pessoa se destaca entre rostos chorosos: vejo meu pai, sereno, contido, como se estivesse lidando de uma forma diferente com a partida do próprio pai.

Ao ver a expressão em seu rosto, recordo de uma conversa que tivemos, onde meu pai, adepto do espiritismo, me explicou um pouco sobre como os espíritas lidam com um momento natural e previsível, mas que em muitas situações é inesperado e incompreendido. Ao ler o relato de Alexandre Caldini Neto em A morte na visão do espiritismo, relembrei muito do que foi dito pelo meu pai algumas semanas antes da morte de meu avô. No livro, Alexandre mostra como a morte deve ser encarada, para que possamos lidar melhor com a partida daqueles que amamos e com a nossa própria morte, quando ela (novamente) chegar. Dos diversos temas relacionados no livro, dois me chamam a atenção de forma mais especial: A continuação da vida após a morte e como lidar com a saudade.

A lógica da encarnação, um assunto controverso para os que não são adeptos da religião, diz que aqueles que praticam o bem, evoluem mais rapidamente, e os que praticam o mal, recebem novas oportunidades de melhoria através das inúmeras encarnações. Pela teoria, todos os seres humanos são espíritos reencarnados na Terra para evoluir, com a morte sendo apenas a passagem da alma do mundo físico para a sua verdadeira vida no mundo espiritual. Ao ler essas palavras, tenho certeza de que a trajetória de meu avô pelo mundo físico foi repleta de momentos bons, e que ele chegou ao mundo espiritual com um alto nível evolutivo.

Já a saudade, bem…mesmo com toda a racionalidade do espiritismo, é um assunto difícil. Alexandre fala sobre a saudade azeda, aquela que lamenta a morte. Ao ver a família reunida em um momento tão difícil, a reação natural era uma mistura de tristeza e dor. Porém, à medida em que os anos passaram, a imagem que ficou do meu avô é de amor e gratidão. A saudade, antes azeda, agora é alegre. De todas as lições aprendidas nestes anos, uma ficará guardada na mente: Todos temos que nos esforçar para deixar de sofrer e sobretudo para não sermos causa de sofrimento para outros. Essa é a busca. Essa é a essência da evolução.

Caio, o avô e a irmã

TAGS: