O que a vida quer da gente é a coragem de ser imperfeito

2 de outubro de 2017 | por Filipe Isensee

Se o mundo ao redor parece instigar uma busca incessante por perfeição, a autora Brené Brown pede vulnerabilidade. Vulnerabilidade, por favor, para viver melhor neste mundo, que é vasto e, por enquanto, o único habitável que se tem notícia. A coragem de ser imperfeito defende a valorização das miudezas singulares que nos fazem ser aquilo que somos – um pedaço de vida ritmado sabe-se lá por qual mistério, frágil do princípio ao fim. Por alguma razão, fomos convencidos de que a maquiagem social nos faria progredir, subir ou descer degraus rumo ao que desejamos. Não há nada de errado nessa busca, mas talvez seja o caso de repensarmos os custos dessa jornada e atentarmos para o risco de, em nome dela, nos descolarmos de nós mesmos.

Não deve ser mais segredo para ninguém que a ideia de perfeição – ou melhor, sua caça incessante e inconsequente – tem como rima natural a frustração, cada vez mais ampliada pelas janelas virtuais. Abandoná-la não significa, em contrapartida, acomodar-se diante de um aparente acordo tácito entre você e a vida cujo desdobramento o leva do trabalho para casa, do trabalho para casa, do trabalho para casa, do trabalho para casa até… Bom, até quando mesmo? Aceitar-se como imperfeito, portanto, não suprime o risco belo de viver. Tampouco apaga a chance diária que temos de nos melhorarmos à procura de quem e do que nos faz bem. Uma das chaves dessa compreensão é o amor-próprio.

Esse sentimento é sintetizado por Brown logo nas primeiras páginas do livro: “Viver plenamente quer dizer abraçar a vida a partir de um sentimento de amor-próprio. Isso significa cultivar coragem, compaixão e vínculos suficientes para acordar de manhã e pensar: ‘Não importa o que eu fizer hoje ou o que eu deixar de fazer, eu tenho meu valor’. E ir para a cama à noite e dizer: ‘Sim, eu sou imperfeito, vulnerável e às vezes tenho medo, mas isso não muda a verdade de que também sou corajoso e merecedor de amor e aceitação”.

A sensação de não dar conta da própria vida é sufocante e, infelizmente, parece ser um hino cantado em uníssono por uma geração que está batendo cabeça para se entender e entender qual parte lhe cabe nesse mundo, se é que cabe. A maturidade passa por aí. A surpresa é que ela precisa ser reconquistada, redescoberta e ressignificada por homens e mulheres ditos maduros e também por aqueles que estão na flor da idade, arrancando pétala por pétala, como se repetissem: “Não sou bom o bastante”. É o que Brown chama de escassez, condição relacionada à vergonha, à comparação e à desmotivação. “O oposto de viver em escassez não é cultivar o excesso (…) É o que eu chamo de plenitude. Em sua essência, é a vulnerabilidade: enfrentar a incerteza, a exposição e os riscos emocionais, sabendo que eu sou o bastante”.

Em momentos de negação da própria vida – muitas vezes ancorado na percepção que o jardim do vizinho é mais verde – é necessário ter a astúcia de compreender a ficção que nos rodeia. Não falo apenas da onda de super-heróis ocupando narrativas audiovisuais, mas da ficção dos filtros embelezando fotos espontaneamente forjadas, das poses calculadas, das frases de efeito instantâneo sem eco. Compreender a ficção para reconhecer suas estratégias e, quem sabe, humanizar os criadores dela. Ninguém sai por aí contando derrota. Esses também, assim como você, são imperfeitos, vulneráveis e estão também tentando se encontrar. “Quando analiso o narcisismo sob esse ponto de vista [da vulnerabilidade], enxergo o medo da humilhação de ser alguém comum. Identifico o receio de nunca se sentir bom o bastante para ser notado, amado, aceito ou para perseguir um objetivo. Algumas vezes, o simples ato de humanizar problemas lança uma luz importante sobre eles, luz que muitas vezes se apaga no minuto em que o rótulo estigmatizante lhe é lançado”, sustenta a pesquisadora em A coragem de ser imperfeito.

O livro traz inúmeros ensinamentos que destrincham os temas da imperfeição e da vulnerabilidade, nos lembrando da beleza de ser o que se é, sem mascarar sentimentos. Conheça alguns deles:

 

Vulnerabilidade não é fraqueza

“Sentir é estar vulnerável. Acreditar que vulnerabilidade seja fraqueza é o mesmo que acreditar que qualquer sentimento seja fraqueza. Abrir mão de nossas emoções por medo de que o custo seja muito alto significa nos afastarmos da única coisa que dá sentido e significado à vida (…) Acordar todos os dias e amar alguém que pode ou não nos retribuir, cuja segurança não podemos garantir, que pode estar em nossas vidas um dia e partir sem avisar no outro, que pode ser fiel até a morte ou nos trair no dia seguinte – isso é vulnerabilidade. Sim, é assustador e, sim, nós podemos ser magoados, mas você consegue imaginar a sua vida sem amar ou ser amado?”.

 

Liberte-se da vergonha

“Quando nossa autoestima não está em jogo, estamos muito mais dispostos a ser corajosos e a correr o risco de mostrar nossos dons e talentos. Minha pesquisa com famílias, escolas e empresas deixou claro que as sociedades que não são prisioneiras da vergonha geram pessoas muito mais abertas a pedir ajuda, aceitar ajuda a dar retorno. Essas sociedades também desenvolvem indivíduos comprometidos, ousados, que estão dispostos a tentar sempre de novo até verem tudo dar certo – muito mais aptos a se tornarem inovadores e criativos em suas atividades”.

 

Julgamento

“A ironia é que a pesquisa revela que julgamos as pessoas nas áreas em que nós mesmas somos vulneráveis à vergonha, atingindo sobretudo quem está fazendo as coisas pior do que nós. Se me sinto bem em relação à educação dos filhos, não tenho interesse em julgar as opções de outras pessoas. Se me sinto confortável com meu corpo, não saio por aí zombando do peso ou da aparência de ninguém. Somos cruéis umas com as outras porque usamos essas mulheres como alvos de nossas próprias insatisfações com as deficiências vergonhosas que carregamos”.

 

Sinta a alegria

“A alegria nos visita em momentos comuns. Não corra o risco de deixar a alegria passar despercebida mantendo-se ocupado demais perseguindo o extraordinário. A cultura da escassez pode nos manter temerosos de adotar estilos de vida simples e comuns, mas quando se conversa com pessoas que sobreviveram a grandes perdas, fica claro que alegria não é uma emoção permanente (…) Não se desculpe por sua alegria. Seja grato por ela e compartilhe sua gratidão com os outros”.

 

Espiritualidade

“Não estou falando de religiosidade, mas da crença profundamente arraigada de que estamos inexoravelmente ligados uns aos outros por uma força maior do que nós mesmos – uma força que é amor e compaixão. Para alguns essa força é Deus, para outros é a natureza, a arte ou até a emotividade. Acredito que assumir o nosso valor é o ato de reconhecimento de que somos sagrados. Talvez a vulnerabilidade e vencer o entorpecimento tenham a ver com cuidar e alimentar nosso espírito”.

 

Se quiser conhecer um pouco mais da fala de Brené Brown, vale a pena assistir à palestra que ela fez no TEDxHouston, citado no livro – o vídeo possui legenda 🙂

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