Viver a vida é viver o amor: o propósito segundo Prem Baba

18 de setembro de 2017 | por Filipe Isensee

Amor. Talvez nenhum outro substantivo-sentimento seja mais citado, escrito, falado e desejado do que ele. Desde os tempos imemoriais, o amor é o clichê essencial. Para Sri Prem Baba, é matéria de salvação. Parece óbvio, e talvez seja mesmo, mas não são dessas obviedades esquecidas que o mundo carece? O que Cecília Meireles grafou sobre liberdade traduz também o que o amor é: “uma palavra que o sonho humano alimenta, não há ninguém que explique e ninguém que não entenda”. A despeito da beleza incontestável, é comum ler e ouvir sobre sua falta. Propósito, livro do mestre espiritual, propõe um resgate, nos lembra justamente do evidente invisível. “O amor é a semente, a seiva e o sabor do fruto. Despertar o amor é o motivo de estarmos aqui”, destaca Prem Baba.

No prefácio escrito por Reynaldo Gianecchini, ele explica como o enfrentamento do câncer – o ator teve linfoma não-Hodgkin e se submeteu a um autotransplante de medula em 2011 – o deixou mais atento às questões existenciais e aguçou sua busca pelo sentido da vida. O encontro com Prem Baba, ele pontua, o ajudou “a me abrir para ouvir o comando do meu coração”, um dos ensinamentos contidos no livro. Esse aprendizado tem como elo forte o autoconhecimento.

Em síntese, a expansão da consciência – ou o “despertar do amor” como Prem Baba costuma dizer – é o propósito da alma de cada um e é completamente diferente do propósito do ego, que representa nossa superfície e casca. Para alcançá-la é fundamental lidar com os desafios do crescimento e entendê-los como instrumentos de aprendizado. “Saber qual é o propósito é saber o que viemos fazer aqui. E o que viemos fazer aqui está intimamente relacionado àquilo que somos em essência”, ele destaca.

No livro, dividido em sete capítulos, o guru explica as ideias que sustentam o propósito, estabelecendo etapas importantes do percurso. Abaixo, você confere alguns aprendizados:

 

Quando a mudança é necessária

Para Prem Baba, muitas vezes o sofrimento gera o impulso necessário para a transformação. Crises são bem-vindas, mas certamente são resultados de escolhas equivocadas no passado. Essa sensação costuma ser descrita de diversas maneiras, como o império (construído seguindo os anseios do ego) que começa a desmoronar ou a vida que não faz mais sentido. O que fazer? À beira do abismo, dê alguns passos para trás e simplesmente não perca a oportunidade de aprender. “A crise é a exposição de algo que estava submerso, mas que vinha se fortalecendo por maus hábitos, condicionamentos e comportamentos contaminados pelo medo. Olhando por esse ângulo, a crise é uma bênção, pois, se examinarmos o que está por trás dos sintomas, teremos a chance de reconhecer e tratar a doença em sua origem. Portanto, ela é uma oportunidade de cura e crescimento”.

 

É preciso sentir

Se o mundo eventualmente parece um lugar hostil, é natural que procuremos maneira de nos defender ou, pelo menos, de evitar que a realidade ríspida e rasteira nos machuque. Daí nascem as tais “pedras na mão”, as carcaças forjadas, a armadura que mantém nosso interior protegido e inacessível. Tornar-se insensível é, mais que rima, uma consequência previsível e perigosa. Para amortecer a dor, criamos um muro, mas é preciso quebrá-lo. É preciso sentir e somente assim será possível lidar com os sentimentos. “Tanto a tristeza quanto o êxtase passam pelo mesmo canal. Portanto, ao bloquear os sentimentos para não sentir dor, você também impede a possibilidade de sentir prazer”, endossa Prem Baba.

 

Sei que nada sei

A nossa verdadeira identidade está condicionada ao autoconhecimento, um percurso cujo requisito é a coragem. Em nome de uma falsa ideia de segurança, muitos abandonam os comandos do coração. Conhecer a si próprio é um risco. O caminho mais fácil é não ter contato com os medos e as insatisfações, impulsos verdadeiros da mudança. O desafio é deixar a comodidade aparente e se lançar para longe do mundo das aparências. A incerteza, como sustenta o mestre espiritual, é repleta de sabedoria e torna a vida uma grande aventura. “Ao permitir-se confiar na sabedoria da incerteza, você acessa esse espaço no qual nós somos um com o Mistério; esse espaço de Unidade, no qual as suas necessidades são naturalmente supridas pelo Universo”.

 

Rescisão de contrato

Prem Baba chama de “pactos da vingança” os acordos feitos inconscientemente entre o ego e o eu inferior. Segundo o guru, sempre que existe um bloqueio no fluxo da energia vital (depressão, tristeza, preguiça, raiva, medo, etc), há também um pacto estabelecido. Identificá-lo é o primeiro passo para desfazer a auto-sabotagem. “Mas esse monstro ainda é somente um soldado raso do batalhão do eu inferior. Certamente, há um general por trás dele, dando as ordens. Então, você precisa se aprofundar no processo de autoinvestigação para que possa conhecer esse general e desfazer esse contrato com o mal”.

 

Questões sobre o propósito

O livro resgata um pensamento de Budda – “a dor é inevitável, mas o sofrimento é desnecessário” – para indagar o peso atribuído a certos episódios da vida. A dor é uma ferramenta que faz parte do processo evolutivo, mas não se pode esquecer que o corpo que habitamos tem um prazo de validade muito curto e que o prazer é um direito natural. Prem Baba questiona ideias do senso comum, e suas variações, de que é preciso sofrer para ser feliz: “O modelo de vida no qual as pessoas precisam trabalhar muito, receber pouco e relaxar menos ainda é, sem dúvida, um produto do esquecimento do propósito da vida”. Da mesma forma, desmonta o pensamento de que o propósito da alma só pode ser feito através de trabalho social e caridade. “É possível servir e estar alinhado com o propósito maior trabalhando em uma grande empresa e recebendo um ótimo salário por isso. Você pode fazer seva (ou serviço desinteressado) em qualquer lugar. Nem todo serviço voluntário estará alinhado com o propósito da alma, principalmente se você usa esse serviço como forma de fugir do mundo ou daquilo que de fato precisa fazer”.

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