Sobrevivência a qualquer custo: “A incrível viagem de Shackleton”

5 de setembro de 2017 | por Filipe Isensee

“Mais que qualquer outra impressão isolada nessas horas finais, o que chocou a todos, deixando-os quase horrorizados, foi a maneira como o navio se comportava, lembrando um animal gigantesco nos estertores da morte”.
(Trecho de A incrível viagem de Shackleton, de Alfred Lansing)

Enfim, após meses de agonia, os membros da Expedição Imperial Transantártica abandonaram o Endurance, como fora batizada a imponente embarcação de madeira cujo nome significava “resistência”. Não havia dúvidas, o pouco que restava dela estava se quebrando. O desfecho melancólico – ser esmagado por um banco de gelo – parecia mesmo inevitável naquele 27 de outubro de 1915. Em seus momentos derradeiros, o navio tampouco parecia um navio, mas sim “uma criatura sendo sufocada” ou “um animal gigantesco nos estertores da morte”, como descreve Alfred Lansing, estabelecendo-o como personagem central da primeira parte do livro. A narrativa que interessa ao autor, contudo, não é a da fatalidade anunciada e cumprida, mas aquela que se contorna a despeito de todas as perspectivas ruins e apesar das cicatrizes. É quando o crível se torna incrível, ou seja: surpreendente, difícil de acreditar. História real, A incrível viagem de Shackleton não se chama assim à toa.

 

História de sobrevivência

Antes de mais nada, é preciso apresentar o homem citado no título da obra. Sir Ernest Shackleton era o chefe da expedição, responsável pela decisão de deixar o Endurance e por conduzir os seus 27 companheiros de viagem até o fim da jornada, todos com vida. De família de classe média, filho de médico, Shackleton é descrito como imaturo e irresponsável – fama alcançada em parte devido ao seu entusiasmo diante de empreendimento irrealistas –, mas também obstinado e capaz de exercer uma liderança genuína, sendo estas duas características elementares para entender como a ação dele foi determinante para transformar a tragédia de Endurance numa história de coragem, sacrifício e sobrevivência.

Já pensou se Shackleton fosse o comandante do Titanic? Pois “o navio que nem Deus poderia afundar” foi engolido pelas águas do Atlântico em abril de 1912, apenas três anos antes dos episódios relatados com Endurance. Mas não adianta nem pensar em Jack e Rose, firula romântica na proa e músicos tocando clássicos para acalmar passageiros desesperados à beira da morte… As quase três horas entre a colisão do Titanic contra o iceberg e sua submersão total não chegam perto do intervalo de quase dois anos entre o fim e o início da viagem dos que embarcaram no Endurance. Vão-se os navios, ficam os passageiros… E as histórias sobre eles.

A tripulação do Endurance

 

A luta de todos, a luta de cada um

O objetivo da empreitada, iniciada em dezembro de 1914 e interrompida em janeiro do ano seguinte, era cruzar o continente antártico passando pelo Pólo Sul. O incrível aqui se revela justamente pelas dificuldades impostas. Afinal, o grupo estava isolado numa imensidão de tons brancos de gelo, com fome e frio. “Não havia helicópteros, veículos a motor capazes de se deslocar sobre o gelo e a neve ou aviões que conseguissem voar naquelas condições. Assim, a situação daquele grupo de homens era simples e aterrorizante em sua simplicidade. Se pretendiam de algum modo sair dali, teria que ser por sua conta própria”, reforça Lansing o contexto desesperador.

Em outras palavras: a neve impedia grandes locomoções; a temperatura constantemente ficava abaixo de zero, por vezes chegando aos dois dígitos nas noites mais frias; as barracas onde os homens dormiam eram superpovoadas e desconfortáveis. Enquanto Shackleton desenhava a rota de fuga, embora a ação dependesse de uma melhoria nas condições climáticas, os homens se ocupavam com a caça e o aperfeiçoamento de pequenos barcos. Essas atividades talvez justifiquem a sensação de bem-estar que muitos relataram nas primeiras semanas após o abandono do Endurance. A aparente tranquilidade, no entanto, foi tão efêmera quanto o navio que os levou até ali. O tempo da espera se impôs e, com ele, a fome se tornou implacável. Numa ação extrema, todos os cães que acompanharam os homens na viagem foram sacrificados.

Os detalhes dessa jornada foram resgatados e reconstituídos por Lansing a partir de entrevistas com os sobreviventes e do acesso aos diários de muitos deles. Essa carga de “verdade” parece potencializar no leitor o que o relato tem de mais emocionante e, como contraponto, de mais cruel também. Frequentemente nas histórias de sobrevivência um e outro são inseparáveis.

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