A fantasia de Rogéria não se esgota com a morte

5 de setembro de 2017 | por Filipe Isensee

Embora certa e derradeira, a morte é um assombro, um fim de fôlego, um fim em si – para alguns, sim, um recomeço. Ironicamente, escrevo sobre ela – a tal morte – para chegar em Rogéria, cuja vida vivida sempre foi motivo de festa e querer bem. A artista múltipla, ao menos publicamente, esquivou-se das tristezas e dos pesares, aliando-se à beleza, à exuberância, à comicidade afiada, marcas suas. Pouco se sabe sobre seus choros. Os percalços ela tratou de pontuar com humor. Num mundo de homens, e sendo aparentemente um deles, ousou ser mulher. Fez isso sem deixar de ser Astolfo Barroso Pinto, como fora batizada. A liberdade de existir fez dela resistente, causou admiração e estranheza. Com aura de diva, porte de senhora altiva e voz grave, Rogéria tinha respostas ensaiadas para saciar curiosidades mundanas: “Se a tábua estiver abaixada, sento e faço xixi. Se estiver levantada, faço em pé”, repetiu inúmeras vezes, sem perder a graça.

 

A morte dela – ontem à noite, dia 4 de setembro – deixa como possível consolo o rastro de memórias, que, com sorte e afeto, serão perpetuadas. Sua imagem forte está cristalizada no imaginário popular em entrevistas sinceras e debochadas, participações num sem-fim de programas e atuações esporádicas na TV e no cinema, quando eventualmente conteve as marcas reconhecidas de sua persona – foi assim na breve e elogiada participação em “Lado a Lado” (2012) como Alzira Celeste, uma atriz de teatro. Ano passado, confirmando sua relevância artística, lançou a biografia Rogéria – Uma mulher e mais um pouco e fez parte do documentário “Divinas Divas”, dirigido por Leandra Leal. Grande parte desses trabalhos e registros de vida são acessíveis. Aos que já a descobriram, vale a redescoberta.

 

Sagaz, Rogéria criou seu próprio slogan – “A travesti da família brasileira” -, justificando o carinho que recebia das pessoas. Mas, com o tempo, tratou de remodelá-lo, como me contou numa entrevista em 2015: “Outro dia, uma senhora disse: ‘Você não é mais a travesti da família brasileira, você é a artista da família brasileira’. Consigo juntar católicos, evangélicos, muçulmanos e judeus. O povo me aceita, ou não viveria mais aqui”. À sua maneira, destemida e esvoaçante, abriu fendas generosas por onde, desde então, escapam fios de muitas cores. Ao brigar para ser quem era ajudou que outras fizessem o mesmo. Não se pode perder de vista, no entanto, que ela gozava de um privilégio, tão querida no país que mais mata transexuais e travestis no mundo.

 

Na biografia escrita por Marcio Paschoal – um texto sobre o livro pode ser acessado aqui -, ela relembrou a infância e a relação de carinho com a mãe, detalhou suas primeiras experiências sexuais, revisitou o dia que se tornou Rogéria e explicou por que não fez a cirurgia de redesignação sexual. Nas derradeiras páginas, ao recordar a morte de uma amiga de infância a quem viu no caixão – uma imagem que a acompanhou até a velhice -, vislumbrou o seu próprio velório. Ali, mais uma vez, foi de mãos dadas com a fantasia. Não poderia ser diferente.

 

“Se eu pudesse, gostaria que a morte me avisasse umas três horas antes. E que não viesse na forma de caveira, com foice, mas como o fantasminha Pluft. Eu me arrumaria toda. Com um capuz vermelho, toda maquiada, num caixão lindo, de vidro, como Kirsten Dunst, aquela vampirinha linda, presa para sempre num corpo infantil, no filme ‘Entrevista com o vampiro’. Só dispensaria aquelas presas, claro. Antes que a pele do rosto endurecesse, as bichas me esticariam, num lifting urgente. Meu irmão Flávio Barrozo escolheria a maquiagem. Na lápide, por favor, a inscrição: ‘Aqui jaz a maior estrela do transformismo nacional’. Outra hipótese seria morrer, não contar a ninguém e fazer somente uma missa de sétimo dia. Chiquérrimo”.

 

Agora, não importa mais que os fatos sejam diferentes. Rogéria, tal como Blanche DuBois (personagem de “Um bonde chamado desejo”, citada por ela na biografia), nunca quis mesmo o realismo banal. Que a artista da família brasileira jamais perca a pose.

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