Trago seu amor de volta sem pedir nada em troca

28 de agosto de 2017 | por Editora Sextante

Amor completo

Hoje um cara me falou:

“Ique, eu vi que você escreveu alguns textos para uma campanha do Dia dos Namorados. Eu acho o amor tão complicado. Ainda mais neste mundo cheio de regras e exigências. Não é uma crítica, mas a campanha se chama amor completo, e em nenhum dos textos você disse o que era esse tal de amor completo.”

Em junho de 2013, poucos dias antes do Dia dos Namorados, minha namorada terminou comigo. Eu fiquei sem entender. Voltei pra casa e, ao longo de todo o caminho, me perguntava: “Por quê?”
A única coisa que vinha na minha cabeça era a voz dela dizendo:
“Eu amo você.”
Passei um mês sofrendo, procurando respostas para o que estava acontecendo.
Um dia, entrei no quarto do meu pai chorando e perguntei:
“Pai, ela dizia que me amava. Então por que ela terminou comigo?”
Ele respondeu:
“Meu filho, quando alguém entra na sua vida e depois de algum tempo vai embora, pode ser qualquer coisa, menos amor.”
Eu disse:
“Não dá para entender. Um dia existe amor e, no outro, tudo acabou.”
Ele me alertou:
“Você nunca vai superar seus traumas se continuar procurando no amor uma lógica. Construa uma nova história.”
Eu perguntei:
“E de onde vem essa força pra começar algo novo?”
Ele respondeu:
“Não se preocupe com isso. Todo começo vem de um final.”
Uma semana depois, meu pai recebeu o diagnóstico de uma doença rara e degenerativa que iria matá-lo em alguns dias.
Minha mãe não o abandonou. Ela ficou.
Meu pai saía toda sexta-feira para comer pizza com dois irmãos.
Quando ele parou de andar, meus tios começaram a trazer a pizza aqui em casa.
Eles diziam: “Sem seu pai não tem graça.”
E ficavam a noite inteira dando gargalhadas.
Hoje, meu pai não consegue mais comer.
Mesmo assim, toda sexta-feira meus tios passam aqui em casa.
Meu pai estudou em Ouro Preto, Minas Gerais.
Na formatura, ele combinou com três amigos de se encontrarem de cinco em cinco anos.
Este ano, meu pai não pôde ir porque ele não anda mais.
Os amigos dele saíram do interior de Minas e vieram até aqui em casa.
Todo formando tem uma foto pregada na parede da república em que estudou.
Os amigos do meu pai trouxeram a foto dos quatro.
Pregaram a foto de cada um na parede do quarto e disseram:
“Agora, a nossa república é a sua casa.”
E combinaram que, dentro de cinco anos, estariam de volta.
Meu pai chorou.
Meus pais completaram 47 anos de casados dia 2 de junho de 2015.
Eles sempre dançaram nesse dia.
Meu pai não consegue mais se levantar.
Minha mãe entrou no quarto e colocou a música que eles dançavam.
Ela disse: “Meu filho, traz a cadeira de rodas.”
Eu perguntei: “O que você vai fazer?”
Ela respondeu: “Vou fazer o que seu pai faria por mim.”
Eu busquei a cadeira de rodas.
Minha mãe colocou meu pai na cadeira.
Ela se ajoelhou ao lado dele e disse: “Vamos dançar.”
Abraçou meu pai e fez a cadeira girar.
Ela ficou ajoelhada a música toda. Meu pai chorava e ria ao mesmo tempo.
Eles ficaram ali dançando e se divertindo.
Eu voltei para o meu quarto chorando. Abri o notebook e resolvi escrever este texto.
Porque vejo o mundo distorcendo ou complicando demais o amor.
Um monte de gente dizendo:
“Fique com alguém que faz isso, que faz aquilo, que te dê isso, que não sei o que mais.”
Esse monte de regras e exigências são coisas criadas pela cabeça.
E, meu velho, não sei se você sabe, mas o amor é criado pelo coração.
O resto é ilusão.
Então, acredite: o amor, o amor completo, é quando você quer o outro sempre perto.
Só isso.