Ouse crescer

14 de agosto de 2017 | por Editora Sextante

Recebi muitos elogios pelos meus textos na infância. Era a aluna cujas redações e poemas eram lidos em voz alta pelo professor para a turma. Ganhei prêmios e ouvi todos os tipos de comentários superlativos vindos dos professores e dos meus pais.

No começo, isso não era um problema – não interferia no meu prazer nem em minha capacidade de escrever. No 3º ano do ensino fundamental, quando minha melhor amiga, Judy, e eu decidimos espontaneamente escrever juntas um livro de poesia, nos dedicamos ao trabalho com satisfação e leveza. O fato de nossos professores e pais nos encherem de elogios foi apenas um bônus. Quando eu escrevia ensaios ou contos como trabalho escolar, adorava o processo em si, e o fato de os professores gostarem do resultado era apenas um prêmio adicional.

Com o tempo, porém – na adolescência e nos primeiros anos de minha vida adulta –, isso mudou. Eu estava tão acostumada a escrever com a recompensa do elogio que, quando ele não vinha, eu me sentia um fracasso. E, quando recebia críticas, elas doíam como ferroadas. Faziam com que eu me sentisse insegura, incompreendida ou uma fraude – como se meu talento para escrever tivesse acabado ou minha falta de talento houvesse sido revelada. Depois de receber qualquer tipo de crítica, ou mesmo quando um texto meu não era alvo dos mais generosos louvores, eu me sentia confusa e não conseguia voltar para a escrivaninha e escrever com espontaneidade.

À medida que fui amadurecendo e passando a encarar com mais seriedade o ato de escrever, o problema se agravou. Comecei a frequentar ambientes mais críticos – oficinas avançadas de escrita, processos seletivos rigorosos – em que o feedback implacável era o padrão. Passei a me dispersar com as perguntas: será que realmente escrevo bem? Será que os professores e colegas na oficina vão gostar disso? Sentia medo ao me sentar para escrever, o que, evidentemente, tornava meus textos pesados e artificiais, transformando o que antes era uma paixão em uma tarefa penosa e excessivamente estressante.

Com o passar do tempo, o medo de não ser boa o bastante tornou-se tão intenso que parei de escrever. Vejo essa fase como sete anos sabáticos patrocinados por minha censora interior. Ao longo dos anos, senti muita falta de produzir textos e de me expressar criativamente. Eu queria voltar a essa atividade, mas minha insegurança tornou o processo muito doloroso, pois eu estava consumida pela preocupação com a recepção que meu trabalho teria.

Um dia, quase no fim dessa lacuna de sete anos, estava sentada diante do computador, tentando mais uma vez retomar a rotina de escrever. A essa altura, eu sabia que isso era parte do meu caminho. Sabia que minha mentora interior era uma escritora. Sabia que o trabalho que eu ansiava por fazer tinha a criatividade em seu âmago e incluía a expressão de minhas ideias para o mundo. Mas eu não sabia como recuperar o prazer que antes tinha em escrever.

De repente, um pensamento me passou pela cabeça: “Tara, se você quiser escrever, terá de parar de se preocupar com o que as outras pessoas vão pensar. Terá de se libertar desse negócio de ‘me ame, me elogie’. Você terá de fazer isso de uma forma diferente de como vem fazendo. Vai ter de escrever para si mesma – para sua alegria, seu prazer, sua autoexpressão, não em busca da aprovação dos outros.”

Naquele dia, escrevi, porque sou uma mulher que adora escrever. E fiz algo que descrevo como recuperar a autoridade em relação a meu trabalho. Até então, via a mim mesma como a escritora, e as outras pessoas como juízes do meu trabalho. De repente percebi que eu também poderia ser árbitra do meu trabalho, que eu tinha o direito – tanto quanto as outras pessoas – de analisar os meus textos e determinar o que considerava bom, o que precisava ser melhorado, do que eu me orgulhava.

Tive vontade de expulsar as pessoas do território imediato em torno do meu trabalho, um espaço íntimo que subitamente eu percebia que havia deixado aberto demais para os caprichos e sentimentos alheios. Comecei a reclamar esse lugar para mim mesma e a empurrar as reações das outras pessoas para uma área mais afastada, onde não podiam penetrar meu coração.

Isso me permitiu voltar a escrever, me permitiu clicar no botão “Publicar” e compartilhar meu trabalho no blog algumas vezes por semana, todas as semanas, faz mais de cinco anos. Permitiu que passasse a submeter trabalhos para serem publicados em mídias populares. E me permite agora escrever este livro. Mais importante: reabriu o canal da minha criatividade.

Outro aspecto da minha decisão naquele dia foi importante: eu não pedi a mim mesma que parasse de me importar com o que as outras pessoas pensam. Não tentei evitar esperar elogios, querer muitos leitores, comentários no blog, uma reação positiva do público. Não desisti de desejar a mágica da conexão humana que pode acontecer entre um autor e um leitor. Isso não teria sido realista e, acho, teria negado minha condição humana. O anseio em cada um de nós de saber que somos importantes para os outros é saudável. O desejo de saber que nosso trabalho é eficaz, que realiza o que pretendemos, é relevante. A parte de nós que quer saber que somos apreciados e aceitos é fundamental, uma parte que deve ser honrada. Mas deve ser apenas uma parte e – atenção – não a força motriz.

Para mim, ainda há certa doçura, certo prazer, em receber feedback positivo. A grande mudança foi que o elogio passou a ser um complemento agradável, mas a noção de realização vem do trabalho em si. Esse é o ponto principal.