Somos todos criativos. E agora?

3 de agosto de 2017 | por Filipe Isensee

“Mesmo sem recorrer aos números, é fácil ver que a criação não é domínio exclusivo de gênios raros com inspiração ocasional. A criação nos rodeia. Tudo que vemos e sentimos é resultado dela ou foi tocado por ela. Existe criação demais para que ela seja pouco frequente” (Trecho de A história secreta da criatividade)

Kevin Ashton desmonta logo nas primeiras páginas do livro o senso comum de que a criatividade é algo inalcançável, fruto do mistério profundo, queira ou não queira. O mundo seria, por essa perspectiva obsoleta, dividido entre os criativos e os frustrados por não serem tocados pela criatividade. Aos primeiros, o mundo. Aos segundos, o fundo… do poço. E de nada adiantaria ensinar o povo de humanas a fazer miçanga. Mas, opa, o buraco é mais em cima. A criatividade está aqui e aí, lá e acolá, no verso e no inverso, e nos intervalos entre um e outro. Mas é preciso cuidado. A criatividade é como um peixe capturado com iscas específicas. E não se trata de um peixe qualquer! Pense na Dory, com constante perda de memória e crises de identidade, fácil de sumir em meio ao oceano de tantas coisas e ideias. Pense no Nemo. Ou melhor, no pai do Nemo em sua louca viagem para encontrar o filho perdido.

Sim, a criatividade é como filho e somos todos parideiros potenciais. Haja dilatação!

Mas o que Ashton nos diz?

Em parte, ele diz o que você, “ser-que-não-se-acha-criativo”, quer ouvir e ler: todos são criativos. E agora? Num mundo onde todos são o que são, é preciso buscar e lapidar ferramentas para ser algo mais, ir um pouco além. E “ferramenta” não aparece aqui à toa. O impulso criativo que acompanha a transformação de mulheres e homens ao longo da história está relacionada justamente ao momento decisivo em que algo se torna outra coisa, adquire outras funções. A pedra que é pedra, mas pode cortar, riscar, desenhar, quebrar e, quiçá, deixar de ser pedra. Pedra pode até ficar no meio do caminho e ser poema, como fez o grande Drummond.

“A capacidade de modificar qualquer coisa foi o gatilho que transformou tudo. A ânsia de fazer ferramentas melhores nos deu uma vantagem gigantesca sobre as outras espécies, inclusive as espécies humanas rivais (…). O que torna nossa espécie diferente e dominante é a inovação. O que existe de especial em nós não é o tamanho do cérebro, a fala ou o fato de usarmos ferramentas. É que cada um de nós, a seu modo, é impelido, a melhorar as coisas”.

Bonito isso, né? Mas para além do discurso motivacional, Ashton destaca conselhos e aponta caminhos para encontrar o ser criativo que habita em cada pedaço de corpo-alma:

“Nós somos especiais”

É uma frase perigosa, ainda mais numa época marcada pelo narcisismo potencializado no eu-virtual das redes sociais, dos discursos felizes, das fotos paradisíacas, da selfie, da belfie (selfie da bunda.rs), da pós-verdade. Eita! Mas, sim, Ashton escreve: “Nós somos especiais”. E complementa: “Mas no momento isso não importa”. Importa, na verdade, derrubar o mito da genialidade e retirar o fardo dos que se reviravam desgostosos por não tê-la.

O autor repete o que você já deve ter ouvido de pai-mãe-cachorro-professora-namorado-papagaio-amigos-gretchen-anitta: “Só é necessário começar”. O primeiro passo, o difícil, temido e necessário primeiro passo. Porque ouvir é diferente de agir. “A virtude de um primeiro esboço é que ele rompe a página em branco. É a fagulha da vida no pântano”, ressalta o autor.

“Tudo resulta de passos, não de saltos”

O mundo criativo é do bicho-preguiça e não do canguru. Ok, talvez esse não seja o melhor exemplo, mas vamos lá. O que Ashton reforça é que a criação pressupõe esforço, etapas, investimento de tempo, erros e acertos. É da ordem da execução, não da mera inspiração. É preciso erguer as mãos… E dar glória a Deus? Não, não, erguer as mãos, retirar as ideias que pairam sobre nossa cabeça e trabalhá-las. “Ter ideias não é o mesmo que ser criativo”, ele frisa.

Parece óbvio, mas quantas vezes você afundou no banco das ideias incríveis e levantou sem nada – a força do pensamento não ajuda nessas horas, tampouco uma música do Padre Marcelo Rossi. O caminho da execução pode ser tão misterioso quanto um labirinto, mas sem ele é impossível encontrar a saída. E foram muitos os que saíram dele vitoriosos. Alguns saíram voando ou com uma descoberta importante para a ciência ou até com o primeiro parágrafo de uma história. Esse “ou” é infinito.

“A fé é o modo como encaramos o fracasso”

Não se deve permanecer no erro, por mais tentador que possa parecer. O samba, já cantado por Elza Soares e Beth Carvalho, ensina: “Levanta, sacode a poeira/ E dá a volta por cima”. Antes de aumentar o volume e sair dançando, fique ligado: a fé da qual Ashton fala é a crença de que existe um caminho adiante – um novo labirinto, talvez, mas um caminho.

O fracasso não é fim, motivo de vergonha eterna ou qualquer coisa que exale pessimismo. Inclusive e sobretudo, o fracasso é útil. O erro é o irmão siamês do acerto, quase sempre compartilha com ele um mesmo órgão vital.

“Ver não é o mesmo que olhar”

Se a criação está muitas vezes relacionada a uma transformação – a mais básica dela, passar da coisa-pensada à coisa-executada -, é primordial ampliar os sentidos para a vida que nos cerca e envolve. As transformações tecnológicas redimensionaram nosso espaço no mundo de tal modo que outros mundos parecem mais possíveis e próximos, embora a distância real não tenha sofrido grandes alterações. “Sabemos que essas coisas existem porque desenvolvemos instrumentos que as sentem”, explica o autor. É necessário desbravar as fronteiras das terras já conhecidas, ultrapassá-las, explorá-las e ressignificá-las. Identificar o que antes não era visto, reorientar o olhar, mas questioná-lo também. “Seja amigo da dúvida. Quando você se permite mudar de ideia, pode mudar qualquer coisa”.

O livro A história secreta da criatividade está repleto de outros conselhos, sempre ancorados em desdobramentos históricos, mas vale lembrar: a despeito de todas as crises, erros e tropeços, não esqueça a lição de Dory: “Continue a nadar, continue a nadar, continue a nadar”.

TAGS: