Nasce a primeira capital do Brasil: antes do axé, Salvador

27 de julho de 2017 | por Filipe Isensee

É natural que as escolas de Salvador insistam em promover, especialmente entre alunos de ensino fundamental, um passeio pelos pontos históricos da cidade. O ritual, quase obrigatório, inclui visitas ao Pelourinho e ao Mercado Modelo, este localizado próximo à Baía de Todos-os-Santos e ao Elevador Lacerda, ligação entre a Cidade Baixa e a Alta. São também belos clichês, tradicionalmente captados por turistas com câmeras analógicas e digitais, com tripés ou paus de selfie (aliás, alguém mais usa isso?). Obviamente, o nascimento da capital baiana antecede ao das máquinas de fazer retratos e o começo da sua história está melhor registrado nas pinturas, na arquitetura, nas palavras cristalizadas em papéis que sobreviveram ao tempo, alçadas a documentos históricos. Primeira capital do Brasil, Salvador é o princípio do país. Um princípio, vale lembrar, sem muitos de seus cartões postais.

A fundação da cidade é contada num dos capítulos de A coroa, a cruz e a espada, quarto livro da Coleção Brasilis escrita por Eduardo Bueno. A chegada de Tomé de Souza em 1549 estabelecia “o início de uma nova era na história do Brasil”. O modelo de capitanias hereditárias fracassou; Pedro Álvares Cabral – o descobridor oficial – estava morto há mais de duas décadas; o controle da colônia era ameaçado pelos franceses.

Primeiro governador-geral do país, Tomé de Souza não desembarcou aqui a passeio. E, tampouco, veio sozinho.

 

Um novo país nas embarcações

Sim, Tomé de Souza não veio sozinho. Pouco mais de 500 homens vieram na frota – entre navios, naus e caravelas – rumo ao Brasil. Além disso, parte do material necessários para as primeiras obras na cidade ocupou convés e porões.

 

A construção da cidade

 

Cidade Alta, Cidade Baixa e o Elevador Lacerda. (Christian Knepper/Embratur Brasil)

O nascimento de Salvador foi marcado por conflitos entre o novo e o antigo, ou entre a tradição e o futuro que se desdobrava na metade do século XVI. A construção da cidade, cujo vislumbre era ser a capital do império português no Novo Mundo, espelhou essa contradição em sua arquitetura – a divisão entre Cidade Baixa e Cidade Alta, por exemplo –, e também na condução econômica, social e política. Citado por Bueno, o professor Cid Teixeira traduz esse cenário: “em uma só cidade, dois tempos da história do Ocidente se encontram e se completam”.

Oito meses após a chegada de Tomé de Souza, era relativamente pequeno o número de edificações construídas – entre elas, armazém, muralhas, hospital e Casa da Câmara e Cadeia. No começo, eram apenas oito as vias que cortavam a cidade.

 

Religião

Padre Manuel de Nóbrega, chefe da missão jesuítica no Brasil

Simbolicamente, a presença mais importante desse novo capítulo da história era a da Igreja, personificada pelo jesuíta Manuel de Nóbrega. Segundo Bueno, “a colônia se desenvolveria sob o signo do dogmatismo: sem livros, sem universidades, sem imprensa e sem debates culturais – em síntese, sem a diversidade e o frescor do humanismo renascentista”.

A comunhão entre poder e religião era reforçada na arquitetura. Por isso no centro de Salvador, tendo como modelo as cidades portuguesas, foram construídas igrejas. Não demorou muito até o vigário Manuel Lourenço, que viera na armada de Tomé de Souza, levantar uma pequena capela coberta de palha, a primeira da Cidade Alta.

Um dos episódios retratados no livro é a ação da igreja diante do comportamento sexual na colônia. As nativas circulavam peladas e depiladas pela cidade. Nóbrega exigiu ao menos uma camisa para cada mulher. O jesuíta relatou sua perplexidade: “Se contarem todas as casas dessa terra, todas acharão cheias de pecados mortais, adultérios, fornicações, incestos e abominações (…).Não há obediências, nem se guarda um só mandamento de Deus e muito menos os da Igreja”.

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