Pílulas de bem-estar para uma vida melhor

24 de julho de 2017 | por Caio Soares

Vivemos em um mundo imperativo que a toda hora nos martela o que devemos fazer para ter uma vida melhor: seja você mesmo, faça o que você ama. Além disso, sofremos diariamente com uma miríade de desafios, dificuldades, problemas pessoais e profissionais que afetam nossa felicidade e, naturalmente, nossa saúde. Exemplos não faltam: o instinto de comer tudo o que vemos pela frente – uma vantagem para nossos antepassados – hoje nos leva à obesidade. A tendência a poupar energia nos torna sedentários. O ato de dormir, um dos mais prazerosos, é interrompido com dispositivos móveis, telas iluminadas, ansiedade crônica…

Um dos nossos maiores problemas é o descompasso entre a nossa programação biológica e o contexto moderno em que nos inserimos. Para tentar combater este cenário pessimista, separamos algumas pílulas de bem-estar elencadas pelo Dr. Daniel Martins de Barros para reverter o complicado quadro. Aqui, você não vai encontrar soluções milagrosas. O segredo está na moderação e na construção de uma autoconsciência mais adequada às suas necessidades e desejos.

 

Tenha fé

Ciência e religião são conceitos que dificilmente se misturam. Por mais que a fé possa funcionar como uma proteção psicológica para momentos difíceis, renovando a esperança e diminuindo a angústia, é cientificamente impossível comprovar seus benefícios. No entanto, duas pesquisas feitas nos Estados Unidos revelaram uma surpreendente relação entre a expectativa de vida e a ida à encontros religiosos. Após cruzarem os dados das pesquisas, os cientistas descobriram que, conforme os entrevistados aumentavam as idas à igreja, crescia a expectativa de vida. Comparando quem ia duas vezes por semana à igreja com quem nunca ia, o segundo grupo tinha 87% a mais de chances de morte em relação ao primeiro. Cientistas franceses também procuraram evidências científicas dos benefícios da fé em idosos com sinais avançados de demência e descobriram que a espiritualidade ajuda a aumentar a qualidade de vida, retardando os efeitos da doença. Apesar de não existir uma comprovação prática dos efeitos da fé, fica claro que é necessário buscar sempre um sentido para a existência, criando laços afetivos e encarando os desafios com leveza e alegria.

 

Coloque um espelho na cozinha

Uma imagem vale mais que mil palavras, correto? E quando a imagem é…você? Quando fazemos escolhas, sempre pesamos os prós e os contras de cada possibilidade. Isso fica ainda mais evidente quando pensamos em nossa alimentação. É óbvio que um bolo de chocolate é mais atraente do que uma maçã. No entanto, nossa autoconsciência sofre para escolhermos o caminho da maçã. Felizmente, a ciência pode nos ajudar nessa decisão. Em um estudo realizado em 1998, metade das pessoas que fazia uma degustação de tipos de manteiga ficaram em uma sala que tinha um grande espelho pendurado. O resultado? Uma ingestão até 30% menor de produtos gordurosos. Outro estudo, realizado no ano passado, mostrou que as pessoas, quando expostas a ambientes com espelhos, aumentam, mesmo que de forma inconsciente, a percepção sobre elas mesmos. Somos influenciados a levar em conta mais do que o ganho imediato e considerar as consequências de longo prazo, como os gramas a mais na balança.

 

Imite a formiga

Normalmente utilizadas na educação infantil, as fábulas fazem uma analogia entre o cotidiano humano com as histórias vivenciadas pelas personagens, em sua maioria animais que apresentam características antropomórficas. No entanto, os adultos também podem aprender com estas histórias. Escrita originalmente por Esopo e recontada muitos séculos depois  por Jean de La Fontaine, a fábula da cigarra e da formiga narra o encontro de uma cigarra que passou o verão cantando, enquanto a formiga trabalhava a fim de estocar alimentos para o inverno. Quando o frio chegou, a cigarra não tinha comida e foi bater à porta da formiga. Apesar do desfecho trágico (a formiga deixou a cigarra morrer de fome na neve), a formiga da fábula é um personagem repleto de consciência e prudência, um dos traços mais importantes da personalidade humana.

O Longevity Project, estudo iniciado nos anos 1920 na Califórnia que analisou 1.500 alunos ao longo de décadas, comprovou que as características desse tipo de personalidade – como persistência, disciplina, capacidade de adiar gratificações, orientação por  objetivos e autocontrole – reduziam o risco de morte precoce entre 20% e 30%. Naturalmente, ninguém escolhe a própria personalidade. Para alguns, passar a vida inteira mantendo o autocontrole é impensável. Porém, quem consegue imitar a formiga – ainda que não seja um comportamento natural – pode ganhar um tempo a mais de vida, um esforço gratificante.

 

Procure problemas

Já reparou que em qualquer caminho que fazemos a volta parece mais rápida do que a ida? Entre outros motivos, isso acontece  porque na ida estamos mais atentos. Na volta, já sabendo as direções, não prestamos tanta atenção. Vivendo no automático, o cérebro registra menos os eventos, fica menos consciente, e, quando nos damos conta, muito tempo já se passou. Neste cenário, procurar problemas para afastar o marasmo pode ser uma espécie de ginástica cerebral.

Em um estudo liderado por uma psicóloga americana e outra inglesa, 44 idosos foram divididos em dois grupos e submetidos a uma bateria completa de testes de inteligência, verbais e não verbais. Um dos grupos foi instruído a se engajar em duas atividades predeterminadas por semana, entre jogos que testavam o vocabulário, desafios matemáticos, desenhos criativos e enigmas lógicos. Depois de 4 meses, todos foram reavaliados com os mesmos parâmetros. Ao fim do período de testes, aqueles que fizeram as lições de casa apresentaram melhoras expressivas, tanto em inteligência, quanto em testes de percepção, além do bem-estar. Portanto, para não deixar o cérebro enferrujar, procurar um problema ou outro que o tire do marasmo é tão importante quanto fazer exercícios para os ossos e músculos.

 

Coma a comida da vovó (se ela for grega, melhor ainda!)

Em uma sociedade obcecada pela questão do peso, não faltam opções de dietas e soluções milagrosas para perder aqueles quilinhos. Depois de muito pesquisar, Daniel descobriu que poucas realmente são fruto de estudos científicos. No fim das contas, ele chegou a uma conclusão simples e prática: todas as dietas que comprovadamente funcionam se baseiam nas mesmas coisas que nossas avós já sabiam. A fórmula todo mundo já conhece: para a saúde é comer mais frutas e vegetais, evitar o açúcar e maneirar nas proteínas e gorduras animais.

Porém, buscando um embasamento científico, Daniel mostra que a dieta mediterrânea é uma das mais estudadas em pesquisas científicas sérias. Suas bases são os cardápios dos povos do sul da Itália e da Espanha, e também o dos gregos, que envolvem um grande consumo de óleos vegetais, frutas, legumes, grãos integrais, verduras, vinho, leite e derivados. Cientistas gregos reuniram 22 estudos e concluíram que os indivíduos que aderem a essa dieta apresentam melhora da saúde cardiovascular, diminuição da chance de infartos e AVCs e redução do declínio cognitivo e da chance de desenvolver quadro de demência. Ainda por cima, encontraram uma redução em até 30% no risco de depressão.

 

Masque chiclete

Mães e pais: acreditem na ciência. Existe uma extensa literatura científica rica ligando o ato de mascar chicletes ao aumento do desempenho cognitivo em diversos aspectos. Os resultados dos diversos experimentos variam conforme a metodologia, as funções mentais testadas e o momento da mastigação, mas, de forma geral, há um certo consenso de que, enquanto mascamos chicletes, de fato ficamos mais alertas, mais atentos ao ambiente. Se por um lado os efeitos detectáveis em testes imediatos são passageiros, por outro parece que mascar chiclete também gera benefícios em longo prazo. Existem várias explicações para os “upgrades mentais” proporcionados pelo chiclete, desde o aumento de fluxo sanguíneo na cabeça, passando pelos efeitos cognitivos do paladar doce (mesmo quando adoçantes são usados), até o exercício direto de diversas áreas cerebrais envolvidas, como os aspectos motores e sensoriais. Por isso, deixe sempre à disposição aquele pacote de chiclete (de preferência, sem muito açúcar!).

 

Não desconte a raiva (e conte até dez)

Considerado por muitos como o mal do século, a ansiedade vêm afetando milhões de pessoas, sufocadas por rotinas exaustivas e sempre à ponto de explodir. Quem nunca teve aquela vontade de jogar tudo pro alto e descontar as frustrações em alguém? Mesmo com o senso comum acreditando que, se não for libertada de alguma forma, a raiva se acumula até se manifestar numa explosão, as evidências científicas apontam na direção oposta. Na verdade, expressar a raiva só faz aumentá-la. O cérebro interpreta a expressão do sentimento como uma intensificação dele, num círculo vicioso. Devemos lembrar que a raiva, como qualquer emoção, é transitória. Agir em função da raiva, seja brigando, xingando ou apenas batendo num travesseiro só faz com que ela demore mais para passar – a ruminação, afinal, é fonte de estresse. A velha  fórmula de contar até 10, por outro lado, reúne tanto a distração como a espera, dando tempo para nos acalmarmos.

 

Durma menos

Os distúrbios do sono causam um enorme sofrimento no dia a dia. Nesse contexto, é importante conhecer modos inovadores de recondicionar o cérebro a padrões de sono saudáveis, melhorando a qualidade de vida de formas simples e práticas. Uma boa forma de descobrir se você está dormindo bem é calculando a taxa de eficiência do seu sono. A ideia é simples: divida o tempo dormido pelo tempo total passado na cama. Multiplique o resultado por 100, e você saberá o resultado, que pode ser surpreendente. Dormir menos pode parecer uma recomendação contraditória para quem acha que está dormindo pouco. Por mais paradoxal que seja, porém, esse é um tratamento eficaz em determinados casos de insônia. Na maioria das vezes, enrolar para ir dormir causa sono insuficiente e deve ser evitado, mas, assim como acontece com tantas outras coisas na vida, ir dormir mais tarde pode ser tanto veneno quanto remédio. A diferença está na dose e na indicação adequadas.

 

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