Uma história de amizade

20 de julho de 2017 | por Caio Soares

Em 1995, Mitch Albom estava assistindo TV quando uma figura familiar apareceu na tela: Morrie Schwartz, seu antigo professor, estava participando do programa de entrevistas Nightlife, apresentado pelo jornalista Ted Koppel. Mas Morrie não estava falando sobre sua carreira como emérito da Universidade de Brandeis. O papo era bem mais pesado: a morte. Mitch não conseguia acreditar no que estava vendo. Como o velho professor havia parado na televisão, falando sobre um assunto tão delicado? Morrie era mais do que um professor: Mitch o havia adotado como um tio, sendo um fiel companheiro até o dia de formatura em Sociologia, onde o mentor pediu para que ele mantivesse contato. Mitch não cumpriu a promessa.

Por mais de quinze anos, aluno e professor não trocaram uma palavra, telefonema ou carta. Tudo mudou após o Nightline. Mitch ligou para Morrie, em uma ligação repleta de culpa, e marcou uma visita à casa do professor. O encontro oportuno se transformou em uma série de visitas, sempre às terças-feiras. A série de visitas virou A última grande lição, livro lançado há 20 anos nos Estados Unidos e a obra que representa o que há de melhor em uma amizade. Do estilo intimista de escrita de Mitch e do bondoso coração de Morrie, nasceu o livro que transmite maravilhosas reflexões sobre amor, amizade, medo, perdão e morte.

“Como mãos geladas que buscam o frio, fui novamente atraído para Morrie, buscando seu calor humano. Em cada uma das 14 viagens que fiz entre Detroit e Boston, senti a carapuça de quem me transformei se desfazendo e dando lugar àquele que havia sido um dia: um simples estudante, ansioso para ouvir as lições de sabedoria de meu antigo mestre”, disse Mitch em depoimento ao USA Today.

Na época em que começou a visitar Morrie, Mitch Albom trabalhava como jornalista esportivo e não tinha intenções de publicar as conversas com o mestre. No entanto, um motivo nobre fez o autor mudar de opinião. Em determinado momento, Mitch perguntou para Morrie o que ele mais temia sobre a situação em que estava. Morrie respondeu prontamente: o que mais me amedronta é a dívida que deixarei para minha família quando morrer. O professor explicou que os custos de um acompanhamento exclusivo em casa haviam consumido suas economias, e que sua mulher e filhos iriam herdar dívidas espantosas após sua morte.

Isso foi o suficiente para Mitch começar a escrever o livro. A princípio, a ideia da publicação de uma obra sobre as conversas entre um aluno e seu professor à beira da morte não foi bem recebida pelos editores, que achavam o conceito muito “deprimente e chato”. Apesar das dificuldades, Mitch não desistiu e encontrou uma editora nos Estados Unidos para publicar o livro, em um acordo firmado três semanas antes da morte de Morrie. Quando ele contou ao amigo que não era mais preciso se preocupar com as dívidas, o mestre chorou de alegria.

Morris não chegou a ver o livro ser publicado. Lançado em 1997 com uma tiragem modesta, A última grande lição já bateu a marca de mais de 10 milhões de exemplares vendidos no mundo, publicado em 50 países e em mais de 40 idiomas. “Em um momento eu era um modesto jornalista esportivo e em outro me transformei no tipo de pessoa que fala em funerais, em sessões de terapia coletiva, em formaturas, sendo até convidado para visitar pacientes no leito de morte”, comenta Mitch. “Morrie infelizmente não teve a chance de ver seus ensinamentos publicados, nem suas palavras de sabedoria sendo espalhada para os cantos mais remotos. Pensando bem, para mim, A última grande lição aconteceu quando consegui aquele primeiro acordo de publicação. Naquele momento, percebi que eu havia finalmente feito alguma coisa verdadeiramente boa para o homem que havia feito uma dezenas de coisas boas e importantes para mim ao longo da vida.

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