Está na hora de refletir sobre as escolhas que você tem feito até agora

18 de julho de 2017 | por Caio Soares

Muitas vezes, focamos tanto nos resultados das histórias de pessoas bem-sucedidas que nos esquecemos de prestar atenção em suas jornadas. Criadora do The Huffington Post, um dos sites de notícias mais importantes do mundo, Arianna Huffington parecia o exemplo perfeito de uma pessoa que conquistou tudo. Porém, um acidente do dia 6 de abril de 2007 fez com que a colunista, autora e escritora grega naturalizada norte-americana revisse a rotina. Na manhã do referido dia, Arianna caiu desmaiada no chão do escritório de sua casa em Los Angeles. Na queda, bateu com a cabeça na quina da escrivaninha, sofrendo um corte próximo ao olho e fraturando o osso da maçã do rosto. Destinada a descobrir se havia alguma questão fisiológica para o colapso, Arianna rodou a cidade para fazer exames de ressonância magnética do cérebro, tomografia computadorizada e ecocardiograma. Diagnóstico: Nada.

Após uma breve autoanálise, a empresária elencou alguns dos fatores que haviam contribuído para o colapso: excesso de trabalho, da falta de sono e da rotina estressante à frente da empresa. Para expandir os negócios da empresa que fundara em 2005, a presidente e editora-chefe trabalhava 18 horas por dia, sete dias por semana. Àquela altura, havia aparecido na capa de diversos veículos e havia sido eleita pela revista Time “uma das cem pessoas mais influentes do mundo”. Porém, o excesso de trabalho a levou, literalmente, à queda, situação que marcou o início de uma nova jornada. Em A terceira medida do sucesso, ela observa que o estilo de vida do homem ocidental – que prioriza a busca pelo dinheiro e poder, é uma doença. Embora a sociedade nos incite a ganhar mais dinheiro e a subir cada vez mais alto na escada do sucesso, ela quase não nos estimula a permanecer conectados com nossa essência, a cuidar de nós mesmos, a nos aproximar dos outros, a recuperar nossa capacidade de admiração e a nos religar àquele lugar onde tudo é possível. A solução passa pela criação de novos indicadores de prosperidade, em uma terceira via que supere a desenfreada busca por sucesso profissional e que passa por quatro pilares: bem-estar, sabedoria, admiração, e doação. Confira alguns conselhos de Arianna Huffington para ajudar você a redefinir suas prioridades, gerenciar melhor o tempo e se reconectar!

 

Meditação: não é apenas para atingir a iluminação

Uma das melhores – e mais acessíveis – maneiras de nos tornarmos saudáveis e felizes é por meio da meditação. No livro Atenção plena, Mark Williams e Danny Penman ensinam diversas técnicas, incluindo o “rompimento de hábitos”: todos os dias, durante uma semana, você escolhe um hábito corriqueiro, como escovar os dentes, beber água ou tomar banho, e simplesmente presta atenção ao que acontece enquanto o pratica. Não se trata exatamente de romper o hábito, mas de despertar para ele. Arianna diz que o motor da atenção plena está sempre funcionando e que para colher seus benefícios, tudo o que precisamos fazer é estar presentes e atentos.

 

Siga o exemplo das gazelas e desligue o mecanismo de alerta cerebral

Atire a primeira pedra quem não vive preocupado com alguma situação pessoal ou profissional. Nossa rotina parece estar estruturada de forma a vivermos nesse estado de alerta permanente: dezenas de e-mails para responder, trabalhar até tarde, aproveitamos qualquer minuto de folga para resolver uma pendência pela internet. Arianna Huffington busca a inspiração nas gazelas para desligar o mecanismo de alerta cerebral e encontrar momentos de relaxamento verdadeiro. Ao pressentirem o perigo, esses animais correm e fogem, mas, assim que o perigo passa, voltam à um estado pacífico, sem muitas preocupações. No entanto, nós não conseguimos distinguir situações de risco reais das imaginárias. Quando percebemos uma ameaça, nosso sistema de lutar ou fugir não desliga depois que o perigo passa. Arianna diz que é necessário nos libertarmos da tirania atual, onde a definição de sucesso prega que viver no estado constante de lutar ou fugir é a regra, não a exceção. “Ao contrário das gazelas, não paramos de correr”, diz a autora.

 

Tome cuidado com a hiperconectividade

A relação entre excesso de trabalho e perda de produtividade é sistemática e acontece independentemente de nacionalidade ou cultura. Um dos fatores que mais influenciam esta relação é curiosamente o que possibilita uma maior eficiência: a tecnologia. Em determinado momento, o email tornou-se o grande vilão da rotina de trabalho, mas ficava confinado à computadores do escritório. Agora, com a popularização dos smartphones, os emails nos acompanham a todos os lugares – na academia, nos jantares, na cama. Para piorar, muitos têm a conta de e-mail do trabalho configurada no celular pessoal, o que significa estar sempre ligado nos problemas da empresa.

Para Arianna, o desafio é encontrar um equilíbrio entre as pressões da carreira e uma rotina balanceada entre o mundo online e o offline. A autora reconhece que ficar offline pode se tornar cada vez mais difícil à medida que ascendemos na carreira e que ganhar mais poder traz consigo o risco de perder qualidades essenciais à liderança. O aumento do poder reduz a capacidade de empatia de um profissional e o deixa mais propenso a descartar o ponto de vista dos outros. E abusar da comunicação eletrônica – algo que definitivamente não melhora em nada a empatia – apenas exacerba essas tendências. Assim, qualquer ferramenta capaz de expandir a percepção, a capacidade de ouvir e de estar presente é valiosa”.

 

Respire

Nascida Ariadnē-Anna Stasinopoúlou, a empresária sempre foi fascinada pelo mito onde a personagem homônima desempenha um papel fundamental para salvar Teseu do labirinto do Minotauro. Na história, Teseu só escapa por causa do novelo de lã dado por Ariadne, pois prendera a ponta do fio na entrada do labirinto para encontrar o caminho de volta. Em uma analogia simples, podemos dizer que o fio de Ariadne é nosso caminho de entrada e de saída, um elo que nos ajuda a escapar de nossos labirintos pessoais e nos recoloca no caminho da razão. No entanto, não é fácil encontrar este elo no mundo que vivemos, repleto de prazos e pressões, onde mal temos tempo para relaxar.

Para Arianna, a solução é mais simples do que parece, e começa na ação mais inconsciente de nosso corpo: a respiração. “A meditação pode ser feita em pequenos intervalos, mesmo quando estamos em trânsito. A conexão interna proporcionada pela respiração consciente é algo que pode ser feito num instante, centenas de vezes durante o dia. O foco na respiração me ajuda a fazer pausas, a voltar para o presente e a superar aborrecimentos. Quando uso a respiração para relaxar o núcleo contraído do meu corpo, consigo seguir esse fio de volta ao meu centro.”

 

Ouça sua sabedoria interior

Workaholic, Arianna teve que rever sua rotina de trabalho após o acidente que sofreu. Mas isso não significa que ela tenha conseguido reverter completamente seu estilo de vida. A razão para tanta dificuldade? Novamente, a tecnologia.

“Nunca foi tão difícil explorar a sabedoria interior. Para isso precisamos nos desligar de nossos dispositivos onipresentes – nossas engenhocas digitais, celulares, tablets, redes sociais – e nos reconectar com nós mesmos. Estarmos superficialmente conectados com o mundo inteiro pode nos impedir de nos conectarmos profundamente com as pessoas mais próximas – incluindo nós mesmos”.

Arianna relembra que a última vez que sua mãe brigou com ela antes de morrer foi quando a viu checando e-mails e conversando com os filhos ao mesmo tempo. Ao refletir sobre isso, a autora aconselha que devemos nos desconectar do mundo digital sempre que possível.

“Estou convencida de duas verdades fundamentais sobre os seres humanos. A primeira é que temos dentro de nós um centro de sabedoria, harmonia e força. Todas as filosofias e religiões do mundo – sejam elas cristianismo, islamismo, judaísmo ou budismo – reconhecem essa ideia de alguma forma. A segunda verdade é que tendemos a nos afastar desse local. Na realidade, é comum passarmos mais tempo fora de rumo do que no rumo certo. Mas conseguimos retornar ao centro de sabedoria com facilidade. É nele que a vida se transforma de luta em graça e subitamente ganhamos confiança, apesar de obstáculos, desafios ou decepções.”

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